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 ACONTECEU UMA MUDANÇA NO BRASIL DOMINGO PASSADO

Pastor Whitson Ribeiro da Rocha

 

            Penso eu que o Brasil mudou no dia 25 de outubro de 2026, dia do 2º turno das eleições. Mas para falar desta mudança de agora, preciso falar da anterior que aconteceu em 2013 e 2014.

Era 2013 e, na cidade de São Paulo, a Prefeitura reajustou as passagens de ônibus de R$ 3,00 para 3,20. Vinte centavos de aumento. Os estudantes secundaristas saíram às ruas para protestar. Eles criaram o Movimento Passe Livre. Estes protestos cresceram e envolveram toda a juventude e se espalhou por muitas capitais do País. A pauta se ampliou e saiu da mão dos estudantes: protestou-se contra a má qualidade dos serviços públicos, especialmente transporte; contra os bilhões gastos na construção de estádios para a Copa do Mundo; o fim da corrupção estrutural, especialmente no meio político e o fim da violência policial.

            Neste movimento aconteceu um lance importante e que modificaria a sociedade brasileira: eles não aceitavam a participação de nenhum partido político, fosse de direita, fosse de esquerda. Ali começou uma certa ojeriza por políticos e partidos políticos, vistos como corruptos. O movimento foi diminuindo e terminou, mas deixou um legado de mudanças na visão do povo em relação à política, como se esta fosse algo ruim, ligado a corrupções. Naquele ano, houve eleição presidencial entre Dilma Rousseff pela reeleição e Aécio Neves. Dilma venceu, mas sobre ela recaiu toda a carga deste movimento.

            Em 2014, começou a Operação Lavajato em Curitiba. O juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol prenderam muitos empresários envolvidos no caso que ficou conhecido como Petrolão, um esquema corrupto de desviar dinheiro da Petrobrás. Eles conseguiram repatriar milhões de reais através da Lavajato para os cofres brasileiros. Mas, na Lavajato, Moro e Dallagnol cometeram 3 erros graves. O primeiro foi acabar com a indústria pesada de construção do Brasil trazendo muito desemprego para os trabalhadores. Eles poderiam ter prendido empresários corruptos, mas mantidas as empresas funcionando. O segundo erro foi que os dois combinavam o que iam fazer. Num processo judicial criminal, juiz, promotor e advogado de defesa atuam separadamente, porque o juiz vai dar ganho de causa para um dos dois. Não aconteceu isto na Lavajato. Juiz e promotor se uniram secretamente para condenar, sem provas nos autos, o ex-presidente Lula a 9 anos de prisão. Eles não encontraram nenhuma prova de que Lula fosse ladrão ou corrupto e tivesse se beneficiado do Petrolão. Posteriormente, em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou o processo por conter vários erros judiciais e libertou Lula. O terceiro erro foi passar para a sociedade a ideia de que a Política é intrinsecamente ruim e todos os políticos são corruptos. Isto abriu caminho para que um político inexpressivo e falastrão, que passou 28 anos como deputado federal apresentando tão somente dois projetos de lei em toda sua carreira, chamado Jair Bolsonaro, aparecesse dizendo que ele não era do sistema. Tal mentiroso foi eleito presidente da República.

            A mudança em 2013/2014, com o movimento dos estudantes e a Lavajato, foi a de um povo que passou a demonizar a Política. Não havia nada de bom na política e cada um que se virasse sozinho, sem ajuda de governo. Os dois principais partidos políticos da época, PT e PSDB, foram demonizados. O PT conseguiu se levantar posteriormente e o PSDB virou partido nanico. Se a política ficou sendo vista como o lugar da roubalheira generalizada a partir de 2013/2014, isto deve ser demonstrado na abstenção das urnas. Fiz uma pesquisa usando o Chatgpt, com dados do TSE, sobre os índices de abstenção das eleições presidenciais de 2010 até aqui. Veja como o percentual de abstenção cresce nas eleições de 14 e 18: 2010 – 19,81%; 2014 – 20,25%; 2018 – 20,82%; 2022 – 20,77% e 2026 – 20,15.

Aí, na eleição de 2022, um milagre acontece. Lula vence e derrota o ex-presidente Jair Bolsonaro. De 2023 a 2026, o presidente Lula tira o Brasil do atoleiro econômico, faz o País crescer beneficiando a todos (a taxa de desemprego é a menor da história) e governa mirando sempre a melhoria de vida dos pobres (o Brasil sai do mapa da fome, pobres não pagam mais Imposto de Renda e é aprovada a escala 5x2). Observe a questão da corrupção: você encontra, nos jornais, notícias de corrupção envolvendo o Congresso com as tais emendas parlamentares e com um senador pedindo R$ 134 milhões a banqueiro corrupto; notícia de corrupção no STJ e STF; mas não encontra um único caso de corrupção neste último mandato do governo Lula, nem um sequer.

            Quatro de outubro, 1º turno, um balde de água gelada para a candidatura Lula. Ele obteve 53 milhões 880 mil votos. Ficou atrás de Flávio por cerca de 2 milhões e 200 mil votos. Nocauteados, o presidente e sua equipe eleitoral não sabiam o que fazer. Foi neste momento que teve início a mudança que se confirmou em 25 de outubro. Sem liderança alguma do PT, o povo começou a se movimentar para virar o jogo eleitoral. Primeiro foram os jovens universitários do Rio de Janeiro, Recife e outras cidades que começaram a sair pelas ruas. Depois foram os jovens deputados eleitos de esquerda que ocuparam as redes sociais e orientaram o presidente. Depois veio o Exército do Lula comandado pelo deputado Janones que tomou as redes sociais e fizeram a propaganda do presidente chegar a milhões de pessoas, como nunca antes. Aí se ajuntaram os artistas e os esportistas. Em todas as cidades que Lula ia, o ajuntamento do povo era gigantesco. Até em cidades onde ele não estava presente, as passeatas eram gigantes. A passagem dele na Av. Paulista, em São Paulo, no dia 24 de outubro ocupou 14 quarteirões lotados e cálculo de cerca de 2 milhões de pessoas. Em todo o lugar que fui neste período, todos falavam e agiam para que a virada acontecesse. As pessoas perceberam como a política é importante para a vida de uma nação, porque ela define a maneira como um País é conduzido e quem são os beneficiados nesta condução: se o povo ou os poderosos.

            Aí chegamos em 25 de outubro, 2º turno. A maior mobilização popular da história do Brasil. Pelas redes sociais e por informação de meus amigos, vi muitas caravanas se deslocando para votar, os pontos de ônibus lotados, inúmeros casos de filhos e netos que levavam seus pais e avós para votar, cadeirantes e pessoas com deficiência sendo auxiliadas para chegar até as urnas, jovens de 16 anos indo votar pela primeira vez, a música do Lula sendo cantada pelas pessoas nas ruas. Ali, a geração dos jovens estava junta com a dos idosos, todos para o bem comum da virada. E tudo isso feito com alegria, disposição e voluntariedade. As pessoas iam votar com o sentimento de que seu voto mudaria o Brasil. Para todos estes, o voto era uma preciosidade da qual não se podia abrir mão. Apertar o 13 na urna foi um momento de redenção social. A abstenção foi a menor em 20 anos de votação e a diferença de gente a mais que foi votar no 2º turno e que não foi no 1º foi de quase 3 milhões de pessoas. A votação de Lula foi a maior de todos os tempos: 64 milhões e 250 mil. Foram quase 10 milhões de votos a mais do que no 1º turno e isto no prazo de 21 dias.

            Lula é uma pessoa com suas qualidades e seus defeitos. Como presidente, também tem suas qualidades e defeitos. Mas, nestas eleições, ele virou um símbolo, um ícone, como aconteceu com Bolsonaro em 2018 e permanece como símbolo de seus seguidores até hoje. A diferença entre eles, neste aspecto, é que Bolsonaro só pensa nele e em sua família, enquanto Lula pensa no povo. As pessoas sentem-se felizes em se esforçar por Lula, porque veem nele um símbolo de amor, de compaixão, de ajudador, de alguém que se importa com elas. E, quando ele as chamar, elas comparecerão por gratidão e por respeito.

            A meu ver, que mudança aconteceu no Brasil domingo passado? Diferente da mudança 2013/2014, os brasileiros perceberam que política é algo importante para a vida deles. Não por acaso, tantos jovens youtubers foram eleitos. Não por acaso, milhões se envolveram na eleição de um político. Perceberam que a ação política deles, manifestada nesta virada histórica, pode mudar o rumo das coisas. Ao invés de manter distância da política como algo sujo, os brasileiros resolveram fazer as pazes com a política e participar dela. Se tivermos um outro Congresso “inimigo do povo”, basta chamar este povo para as ruas e para as redes, que eles irão e vão modificar votações no Congresso. As ruas e as redes vão determinar o futuro do País.

            Estas eleições não foram sobre Lula, foram sobre o povo brasileiro. Lula foi o catalisador da mudança, mas quem fez (e fará) toda mudança foi o povo brasileiro. Palmas para a “brava gente brasileira”!