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Lucas 22.66-71 Um julgamento injusto e uma revelação surpreendente

 

UM JULGAMENTO INJUSTO E UMA REVELAÇÃO SURPREENDENTE

 

“Absolver o ímpio e condenar o justo são coisas que o Senhor odeia” (Provérbios 17.15 NVI).  Não só ao Senhor, também aos seres humanos, a prática de um julgamento injusto causa indignação. Dói na alma humana que gosta da justiça ver uma pessoa claramente culpada ser solta. Pior ainda é quando um inocente é condenado injustamente. Um julgamento injusto é a antítese daquilo que chamamos de justiça. O texto de Lucas 22.66-71 fala do julgamento que condenou à morte um homem justo, mas no qual apareceu uma revelação surpreendente até mesmo para aqueles que o julgaram.

Nossa sociedade começa um novo dia à zero hora, que também indica o fim, à meia-noite. Na sociedade da época de Jesus, o dia começava com o pôr do sol. Jesus foi preso no início da sexta-feira, logo que a noite começou. Foi levado pela polícia do Sinédrio (a alta Corte dos judeus) para a casa de Caifás (sumo-sacerdote na época). Segundo o evangelista Marcos, houve um julgamento ilegal à noite (Marcos 14.55-64), a polícia do Sinédrio torturou Jesus depois (Lucas 22.63-65) e, quando amanheceu, foi feito o julgamento formal (Lucas 22.66-71) a fim de encaminhar Jesus ao governador romano Pilatos, único que podia determinar sua morte. O evangelista Lucas nos fala tão somente deste segundo julgamento de manhã: “Logo que amanheceu reuniu-se a assembleia dos líderes do povo, tanto os principais sacerdotes como os escribas. E o conduziram ao Sinédrio deles, onde lhe disseram: ‘Dize-nos se tu és o Cristo’. Ele respondeu: ‘Se eu disser, não crereis: e, se eu vos perguntar, não me respondereis’” (v. 66-68). Foi uma reunião oficial do Sinédrio. Ali estava a liderança político-religiosa que representava o povo de Israel: os homens mais respeitáveis e considerados santos de toda a nação. A decisão oficial de Israel sobre Jesus viria deles. Fizeram a Jesus a única pergunta que lhes interessava saber: “Dize-nos se tu és o Cristo”. Cristo é a versão grega para Messias. Não perguntaram a Jesus quantos milagres ele fez, quantas pregações fez ao povo, quantas vidas ele restaurou. Não. Só interessava a eles saber se era o Messias. Naquela época, Messias era um conceito político-religioso de um líder político com grande poder militar, pois seria um descendente do rei Davi, que iria tornar Israel livre do domínio romano e iria expandir o território até se tornar uma potência internacional. Este líder obrigaria os povos subjugados a adorar Yahweh, o Deus de Israel. Os religiosos do Sinédrio têm a absoluta certeza de que Jesus não é esta pessoa. Um fraco como Jesus que só anda com a ralé do povo não pode ser Messias, pensavam eles. Jesus respondeu assim: “Se eu disser, não crereis; e, se eu vos perguntar, não me respondereis”. Ele diz inicialmente que aquele julgamento é de cartas marcadas, porque eles estão impossibilitados de crer. Já endureceram seus corações. O que o Sinédrio quer é apenas um pretexto para o acusar. Mesmo que Jesus perguntasse a eles se achavam que ele era o Messias, eles não responderiam porque o desprezavam. Mas, ao dar esta resposta, indiretamente Jesus estava afirmando ser o Messias.

Mas a grande surpresa neste julgamento vem com esta declaração de Jesus que está no v. 69: “Mas, a partir de agora, o Filho do Homem estará assentado à direita do poder de Deus”. O único interesse do Sinédrio era saber se Jesus era o Messias. Jesus sempre usou a expressão “Filho do homem” para referir-se a si mesmo. Esta expressão não tinha conotações políticas. Porém, no v. 69, ele dá uma informação que vai muito além de qualquer coisa imaginada por todos os judeus. Ele afirma que a partir de agora, ele estará sentado à direita de Deus. Ou seja, ele se coloca ao lado da própria divindade. Estar à direita de uma autoridade significa ser seu conselheiro e a pessoa mais prezada por ela. Jesus se apresenta aos seus juízes como o único ser humano numa relação direta com Yahweh. Ele já tem esta posição e um dia todos os seus julgadores verão isto. Neste dia, o que será deles? Ou seja, Jesus se apresenta como muito, mas muito mais que um Messias: ele é o companheiro de Deus, seu conselheiro, o exaltado, o igual a Deus. E mais: quando ele diz “a partir de agora”, ele está dizendo que a cruz onde morrerá fará isto acontecer. O evento que parece ser a total derrota humana de Jesus será aquele que o engrandecerá acima de tudo e de todos.

Os principais sacerdotes e demais membros do Sinédrio não querem acreditar no que ouviram e fazem uma pergunta de confirmação a Jesus: “Então todos perguntaram: ‘Logo, tu és o Filho de Deus?’ E ele lhes respondeu: ‘Vós dizeis que eu sou’” (v. 70). A pergunta inicial era se Jesus é o Messias. Agora todos, sem excessão, espantados, perguntam se ele é o Filho de Deus. Eles entenderam muito bem o que Jesus falou. Para eles, Jesus passou do político (Messias) para o divino (Filho de Deus) quando disse que iria se assentar à direita de Yahweh. Para os líderes de Israel chamar Jesus de Messias era de uma loucura sem tamanho; agora, chamar Jesus de Filho de Deus era ir ao extremo da arrogância e da blasfêmia a que um ser humano desprezível podia chegar. Isto era intolerável. Eles tinham de tirar a dúvida sobre esta afirmação e fizeram a pergunta clara: “Tu és o Filho de Deus?”. A resposta de Jesus foi mais uma de suas respostas desconcertantes. Ao afirmar: “Vós dizeis que eu sou”, Jesus, ao mesmo tempo, afirmava que era como colocava a responsabilidade pela frase na conta deles. Ele tinha dito ser “o filho do homem”, eles diziam que ele era “o filho de Deus”. Mesmo naquela situação de muita tortura, a sabedoria e a verdade de Jesus brilhavam como o sol.

“Então disseram: ‘Para que precisamos ainda de testemunhas? Pois nós mesmos o ouvimos de sua própria boca’” (v. 71). Julgamento encerrado. Para os juízes do Sinédrio judaico, Jesus era culpado de blasfêmia e merecia a morte, conforme a lei de Moisés. Não havia nem necessidade de testemunhas arrumadas. Jesus era um escândalo ambulante: torturado, sangrando e afirmando ser igual a Yahweh. Finalmente, depois de mais de dois anos de hostilidades com este galileu, os principais líderes de Israel o levariam ao que tanto desejavam: sua morte. No entanto, a sentença só podia ser dada pelo governador romano. Era para lá que levariam Jesus imediatamente.

Jesus foi julgado injustamente. Todo ser humano tem direito a um julgamento justo, no qual ele não seja vítima de violência, nem antes e nem depois. Esta é a exigência que o julgamento de Jesus faz a qualquer sistema de justiça de qualquer nação.

Quem se tornar um discípulo de Jesus, segue alguém paradoxal: fraco, torturado e sangrando e afirmando ser o companheiro do próprio Deus. Como seu mestre, qualquer seguidor dele será paradoxal também: carrega sua própria cruz, sofre, geme e sangra enquanto faz o bem e ama os outros agora, para ver o Filho de Deus sentado à direita do Pai.

Lucas 22.63-65 A violência da polícia dos sacerdotes contra Jesus

 A VIOLÊNCIA DA POLÍCIA DOS SACERDOTES CONTRA JESUS

 

Os evangélicos no Brasil não gostam de mensagens de cunho social. Preferem as mensagens de cunho intimista, especialmente aquelas de autoajuda. Além da preferência, há outro motivo importante: os evangélicos foram ensinados a olhar a sociedade como o domínio do mal, no qual eles não devem se meter ou ajudar. Já que “o mundo jaz no maligno”, melhor ficar longe dele. Com esta atitude, eles se alienam dos graves problemas sociais. Tanto a Bíblia como a Reforma Protestante que gerou o atual movimento evangélico são contrários a esta atitude de alienação. O texto de Lucas 22.63-65 nos fala da violência policial (qualquer polícia) contra a pessoa de Jesus (qualquer pessoa).

Jesus foi preso no jardim do Gethsêmane pela polícia dos sacerdotes, a mando destes. Ele é amarrado e levado para a casa do sumo sacerdote Caifás. Antes de ser apresentado ao Sinédrio (grupo governante político-religioso de Israel), ele fica sob os cuidados da polícia deles. Neste momento, começa a se manifestar toda a bestialidade e violência da polícia contra Jesus. “Os homens que detinham Jesus zombavam dele e feriam-no” (v. 63). Os policiais começam a sessão de tortura zombando dele. Zombar significa humilhar, rebaixar o outro como ser humano, considerá-lo pior que um animal. Jesus, que tantas vezes foi elogiado, agora era alguém que não valia nada. Toda vez que alguém resolve ser violento contra uma pessoa, a primeira atitude no seu coração é considerar o outro como sub-humano. Já que o outro é um sub-humano, posso fazer com ele o que eu quiser. Nisto consiste a zombaria: o outro não é humano como nós, então está justificado bater nele. Este foi o primeiro tipo de violência contra Jesus aplicado pelos policiais: o rebaixamento de sua humanidade. Logo se seguiram os outros.

O segundo tipo foi a violência física. O texto diz que bateram muito nele, que o feriram. Ferir é atacar alguém a ponto de sair sangue, ou seja, bateram muito em Jesus com socos, pontapés e até pedaços de pau. Em toda sua vida, Jesus nunca apanhou de ninguém. Escapou algumas vezes de ser apedrejado, uma vez foi arrastado para um monte, mas ninguém nunca bateu nele. Agora apanha para valer. Você pode imaginar a cena? Jesus em pé e amarrado recebendo socos em seu rosto e corpo, o sangue escorrendo pelo nariz e pela boca, a dor que ele sentiu. De repente, Jesus cai ao chão pela força dos golpes, mas eles continuam batendo, dando socos e pontapés.

Mas eles o colocam de pé e passam para outro tipo de violência: “E, vendando-lhe os olhos, perguntavam, dizendo: ‘Profetiza, quem foi que te bateu?’ E, blasfemando, diziam muitas outras coisas contra ele” (v. 64-65). A sessão de tortura continua. Eles cobrem os olhos de Jesus com um pedaço de pano ou com um capuz e um deles dá um forte soco ou tapa no rosto dele. Quando alguém vê que outra pessoa vai lhe golpear, prepara-se para receber o golpe. Mas se está de olhos vendados, não tem como se preparar e aí a dor é muito mais forte. Após um deles dar o golpe, de forma cínica, eles perguntam para Jesus: “Já que você é um profeta, adivinhe quem de nós lhe bateu”. Faziam isto porque Jesus tinha a fama de ser um profeta de Deus. Veja a diferença de tratamento quando, em conversa com ele, a mulher samaritana diz em determinado momento: “Senhor, vejo que és profeta” (João 4.19). Naquela ocasião, uma mulher do povo acusada de ser imoral, trata Jesus com o máximo respeito e o reconhece como um enviado de Deus. Aqui, aqueles homens da polícia usam este título para humilhar, ferir e desmerecer Jesus.

Começou um outro tipo de tortura: a psicológica. Os que batiam agora começavam a blasfemar dele, ou seja, dizer mentiras para rebaixá-lo em seu autoconceito. A violência psicológica fere tanto como a física e produz efeitos nocivos mais duradouro na vida de uma pessoa. Mulheres que sofrem este tipo de violência por parte de seus maridos ou companheiros desenvolvem uma autoestima muito baixa. O casamento vira um inferno e, em muitos casos, o divórcio torna-se uma libertação para a mulher.

A quais conclusões este texto nos ensina? Acerca de Jesus podemos dizer que ele apanhou muito da polícia dos sacerdotes. Também foi agredido de forma psicológica. Ele foi tratado como uma pessoa sem valor algum, da qual os homens poderiam fazer qualquer coisa. Começava a se cumprir Isaías 53.3 “Era desprezado e rejeitado dos homens; homem de dores e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado e não fizemos dele caso algum”. Acerca de nós, há dois ensinos importantes. O primeiro diz respeito à polícia. Foi a polícia dos sacerdotes que bateu em Jesus, só para se divertir. Não é correto que a polícia, após ter dominado um suspeito, bata nele e o machuque. Não se pode tolerar que a polícia leve alguém que já está sob os seus cuidados para um beco escuro e execute-o, forjando depois que houve um tiroteio. Não é aceitável que a polícia entre em confronto com bandidos numa situação em que há pessoas do povo, inclusive crianças, na linha de tiro. A polícia deve usar da violência quando é confrontada por bandidos ou suspeitos. Mas, tendo a situação dominada, o seu dever é entregar a pessoa íntegra à justiça. Assim como não gostamos do fato de que a polícia da época bateu pesado em Jesus sem necessidade alguma, assim também não desejamos que a polícia bata em ninguém que já esteja sob seu controle hoje. O segundo ensino é que Jesus apanhou por nossa causa. Ele enfrentou a violência humana injusta por nós. Recebeu cada soco, tapa, chute ou batida porque nos amou. Seu sangue começou a correr bem antes da cruz. Seu sofrimento foi vicário.

Lucas 22.54-62 Nós somos Pedro na tentação

 

NÓS SOMOS PEDRO NA TENTAÇÃO

 

O ser humano gosta de apontar o dedo para os erros dos outros, mas não percebe que, ao fazer isto, está se condenando a si próprio. Isto porque cada um age de forma idêntica e a única coisa que muda é o nome do erro e olhe lá se não é o mesmo. O texto bíblico da negação de Pedro é muito conhecido para quem lê a Bíblia. Reprova-se veementemente a atitude dele. As pessoas pensam: “Se fosse eu no lugar do Pedro, jamais teria negado Jesus”. Será? Veja esta narrativa em Lucas 22.54-62 e os ensinos dela para nós hoje.

A polícia dos sacerdotes prende Jesus, apesar de sua fala perguntando por qual motivo estava sendo preso. “Então prendendo-o, o levaram e o introduziram na casa do sumo sacerdote; e Pedro seguia-o de longe” (v. 54). Era noite e levaram Jesus para a casa do sumo sacerdote. Não levaram Jesus para uma prisão a fim de ser julgado durante o dia como determinava a regra. O Sinédrio (grupo de 70 homens judeus que governavam o povo de Israel na ocupação romana) ia se reunir ilegalmente à noite com o propósito de condenar Jesus à morte. A casa do sumo sacerdote Caifás era grande, um palácio para a época, e tinha um pátio onde se juntara algumas pessoas sob o comando dos sacerdotes e com curiosidade para ver o resultado daquele julgamento noturno. Pedro conseguiu acesso àquela área. Pedro já não se lembrava mais de um diálogo entre ele e Jesus que aconteceu algumas horas antes: “(Disse Jesus) ‘Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos’. Respondeu-lhe Pedro: ‘Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte’. Tornou-lhe Jesus: ‘Digo-te Pedro que não cantará hoje o galo antes que três vezes tenhas negado que me conheces’” (Lucas 22.31-34). Sim, Pedro era o único corajoso dentre os onze para ver o que aconteceria com seu mestre. Mas estava morrendo de medo com a possibilidade de ser reconhecido e preso naquele lugar,

“E tendo eles acendido uma fogueira no meio do pátio e havendo-se sentado à roda, sentou-se Pedro entre eles” (v. 55). Fazia frio naquela noite e fizeram uma fogueira para se aquecer. Todos se sentaram em volta da fogueira e Pedro também se sentou como se fosse um deles. Ele não conhecia ninguém ali e era um alívio ser anônimo. “Uma criada, vendo-o sentado ao lume, fixou os olhos nele e disse: ‘Esse também estava com ele’. Mas Pedro o negou dizendo: ‘Não o conheço, mulher’” (v. 56-57). Na medida em que a jovem criada se assenta na fogueira e olha bem para Pedro através da luz da fogueira, logo o identifica e faz a denúncia de que Pedro era um que estava com Jesus. Pedro nega dizendo que nunca conheceu este tal Jesus. O que era honra, agora era vergonha. Perceba o tom machista e de desprezo pela criada quando Pedro usa o vocativo “mulher” no final da frase. É como se ele dissesse: “Você é uma desqualificada, primeiro por ser mulher, e segundo por ser criada, para fazer esta acusação mentirosa a meu respeito”. “Daí a pouco, outro o viu e disse: ‘Tu também és um deles’. Mas Pedro disse: ‘Homem, não sou’” (v. 58). Logo em seguida, um homem ficava afirmando que Pedro era um deles, do grupo que seguia de perto Jesus. No mesmo tom, mas agora mais respeitoso, porque era um homem, o Pedro diz que nunca participou do grupo de discípulos de Jesus. “E tendo passado quase uma hora, outro afirmava dizendo: ‘Certamente este também estava com ele, pois é galileu’. Mas Pedro respondeu: ‘Homem, não sei o que dizes’. E imediatamente, estando ele ainda a falar, cantou o galo” (v. 59-60). Durante uma hora, Pedro pode se aquecer em paz. Mas novamente a situação azedou para ele, pois um outro homem se encarnou nele. Esta pessoa afirmava insistentemente que Pedro era de Jesus e deu um motivo forte: Pedro era galileu. Todos ali sabiam que Jesus era da Galiléia (região norte de Israel), a grande maioria de seus seguidores vinha de lá e dava para perceber pelo sotaque, gestos e roupas que Pedro era galileu também. Pela terceira vez, Pedro nega a acusação dizendo que ele não sabia do que o homem falava. Enquanto ele respondia, o galo cantou bem forte.

Mas outro acontecimento marcaria profundamente os sentimentos de Pedro. Somente o evangelista Lucas narra este acontecimento ocorrido na casa de Caifás. “Virando-se o Senhor, olhou para Pedro; e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: ‘Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás’. E, havendo saído, chorou amargamente” (v. 61-62). De dentro da casa, Jesus amarrado virou-se e seu olhar encontrou o olhar de Pedro exatamente na hora em que o galo cantou. Você pode imaginar a intensidade daquela troca de olhares? O olhar de Jesus penetrou o interior de Pedro. O olhar de Jesus nos desvenda, revela, nos encontra. Não foi e nem é um olhar de condenação e reprovação, antes um de empatia, cheio de compaixão. O olhar de Jesus trouxe à mente de Pedro a profecia sobre a negação. Por que Jesus fez a profecia acerca da negação de Pedro com antecedência? Creio que dois motivos básicos: o primeiro era quebrar o orgulho de Pedro, pois se considerava o máximo no discipulado e Jesus queria mostrar que ele era tão fraco como os outros e precisava depender de seu Mestre para que sua fé permanecesse viva. A segunda razão foi dar suporte a Pedro para que continuasse no discipulado com a seguinte exclamação: “Ah! Ele já sabia que eu o negaria. Este acontecimento não foi novidade para ele, portanto vou continuar; ele orou por mim”. Quando os olhares se cruzaram e a lembrança da profecia veio à tona, aí foi demais para Pedro. Saiu rapidamente daquele lugar e teve uma reação de dor interior insuportável: chorou amargamente. Naquele choro estava tudo o que era dor misturado com sua impotência, pecado e amargura de alma.

Nós somos idênticos a Pedro em sua negação. Temos a tendência exagerada de nos achar ótimos discípulos do Senhor. Sempre que pensamos em nós como crentes fíéis pensamos em nossas qualidades e, se enxergamos algum defeito, arrumamos uma desculpa. Mas o olhar de Jesus sempre nos atravessa. É um olhar incômodo para nós, porque nos desnuda e revela nossa fraqueza interior; ao mesmo tempo, seu olhar é tão confortador e cheio de compaixão que faz com que possamos assumir nossa fraqueza e simplesmente continuar seguindo-o, sabendo que ele nos levará à maturidade. Como ele fez com Pedro, fará com cada um de nós. Ele continua rogando por nós para que nossa fé não desfaleça. Bendito Jesus!

Lucas 22.49-53 Jesus dá a outra face

 JESUS DÁ A OUTRA FACE

 

Um dos ensinos mais incompreensíveis de Jesus é quando ele disse que quando alguém batesse em sua face do rosto, você deveria dar a outra. Numa interpretação literal, parece que Jesus incentiva a violência do opressor e a subserviência do oprimido. Quando se examina melhor o texto e seu contexto, o ensino de Jesus vai no sentido de que o cristão deve ser um ativo praticante do bem como forma de vencer o mal. Ele não responde ao mal com o mal ou a vingança. Ele responde com o bem. Jesus viveu este ensino no texto de Lucas 22.49-53, o qual fala de sua prisão.

Uma multidão fora designada pelos principais sacerdotes dos judeus para prender Jesus. Combinados com Judas Iscariotes, eles se dirigem até Jesus de noite. Lá estão os apóstolos. “Quando os que estavam com ele viram o que ia suceder, disseram: ‘Senhor, feri-los-emos à espada?’” (v. 49). Os apóstolos viram a chegada da multidão armada. Com grande surpresa, viram Judas beijar Jesus. Perceberam que se tratava de uma prisão, só não sabiam se era de Jesus ou de todos eles. Diferentemente de Judas, eles se colocaram em defesa de seu mestre. Eles estavam em número menor, tinham tão somente duas espadas que tinham pego na casa onde celebraram a Ceia (v. 37-38) e eram amadores no manuseio delas. Em desvantagem no número de pessoas e armas, eles perguntam a Jesus se devem atacar a multidão. Eles pensam com a lógica bélica, da luta, do confronto.

Naquela tensão de confronto entre os dois grupos, imediatamente ocorre uma insensatez que poderia gerar um massacre: “Então um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita” (v. 50). Um deles não teve nem mesmo a paciência de esperar a resposta de Jesus. Saca de sua espada e dá na cabeça de alguém do grupo inimigo.  Este alguém era o principal escravo do sumo sacerdote, aquele que administrava sua casa. O apóstolo usa a espada para matar, mas por inabilidade, a espada corta a orelha direita. Naquele confronto que facilmente poderia se tornar um massacre, quem inicia a briga é o grupo de Jesus. Uma das mais perturbadoras situações do mundo atual é que vários países têm bombas nucleares que facilmente poderiam matar cidades inteiras. No século XX, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram varridas do mapa com cerca de 110 mil mortos na hora, fora os demais que morreram posteriormente aos seus efeitos. Hoje há milhares de bombas nucleares que são muito mais destruidoras do que aquelas lançadas nas cidades japonesas. Basta que um líder insano, com medo de perder o poder, acione uma só bomba nuclear para que a destruição do planeta ocorra. E líderes insanos não faltam neste mundo, tal como aconteceu com aquele apóstolo de Jesus que saca sua arma.

Quando a situação corria para um confronto sangrento, Jesus dá a outra face aos que vieram prendê-lo. E ele vai dar a outra face por duas atitudes diferentes. A primeira está no v. 51: “Mas Jesus disse: ‘Deixai-os; basta’. E tocando-lhe a orelha, o curou”. Jesus ordena aos seus apóstolos que eles permitam tudo o que a multidão quiser fazer. O ataque com a espada daquele apóstolo específico deveria parar imediatamente. Com esta atitude, Jesus evitava um banho de sangue que poderia ocorrer e, ao mesmo tempo, entregava-se pacificamente aos que vieram prendê-lo. Em Mateus 5.39, Jesus ensinou o seguinte: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. Na sua prisão, Jesus cumpre este ensinamento. Ele não permite o confronto que seria a seu favor e, ao mesmo tempo, usa seu poder para curar a orelha decepada daquele que era o administrador do sumo sacerdote e estava ali justamente para prendê-lo. A multidão lhe faz o mal, Jesus responde com o bem. Este gesto de Jesus é tão chocante e tão fora do comum que marcou a vida de todos que ali estiveram como um grande susto do bem. Todos ficaram paralisados e pasmados, vendo Jesus efetuar a cura. Ao curar, Jesus vê face a face aquele servo, olho no olho. Você pode imaginar o olhar que os dois trocaram? A cena é tão marcante que o evangelho de João chega a dar o nome do servo (João 18.10). Estes evangelhos foram escritos 30-50 depois destes eventos. Para o evangelista João dar o nome dele, é porque ele ficou conhecido na comunidade cristã. Teria ele se convertido posteriormente a partir deste acontecimento? Teria sido uma testemunha do amor de Jesus? Não sabemos, mas, ao dar a outra face, Jesus mostra que, na maldade geral, o amor triunfa através de atitudes simples de fazer o bem. E você, está disposto a fazer o bem de forma amorosa a quem lhe pratica o mal?

A segunda maneira de Jesus dar a outra face parece ser oposta à primeira, mas não é. “Então disse Jesus aos principais sacerdotes, oficiais do templo e anciãos que tinham ido contra ele: ‘Saístes como a um ladrão com espadas e paus? Todos os dias estava eu convosco no templo e não estendestes as mãos contra mim. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas’” (v. 52-53). Se na primeira fala, Jesus dá a outra face retribuindo ao mal com o bem, nesta segunda fala, ele reivindica a justiça para seu caso! A justiça lhe será negada, mas nem por isto ele deixa de exigir que ela se cumpra. Na multidão, havia o pessoal braçal que prenderia Jesus e estaria na linha de frente caso acontecesse alguma briga. Também estavam ali, autoridades que supervisionavam toda a operação de prisão. Jesus fala com este segundo grupo: principais sacerdotes, oficiais do templo e anciãos, ou seja, com quem mandava. Diz a esta gente importante que eles o estão tratando como se ele fosse um ladrão, logo ele que nunca pegou nada de ninguém, pelo contrário só doou de si para os outros; vão a ele com armas de guerra, logo ele que era o mais pacífico dos homens. Diz a eles que estava todos os dias no templo de Jerusalém, à vista de todo mundo, e não quiseram prendê-lo ali (Jesus sabia que não o prenderam quando estava no templo porque tinham medo do povo que gostava dele). Mas, naquela noite, Jesus estava apenas com onze homens em um lugar ermo. Jesus então diz que esta é a hora e a autoridade das trevas. O fato de Jesus ser preso era a demonstração clara de que o mal estava vencendo e a injustiça começava a ser feita. Um homem inocente começava um calvário de prisão, tortura e morte; toda esta armação foi perpetrada por autoridades que se consideravam santas e puras. Quando qualquer injustiça acontece, é a hora e autoridade das trevas!

Em sua prisão, Jesus ofereceu a outra face. Primeiro, ele retribuiu o mal que lhe faziam com o bem, ao curar o homem atacado e evitar derramamento de sangue. Em segundo lugar, ele reivindica a prática da justiça, mesmo sabendo que isto não acontecerá no seu caso. Parece-me que os cristãos hoje em dia não seguem nenhuma das atitudes do seu mestre. Quando atacados com o mal, dão o troco com mais maldade ainda. E se a autoridade que pratica a injustiça é do seu próprio grupo ou “queridinho” deles, fazem vistas grossas, concordam com ele e ainda espalham mentiras. Quem é de Jesus, ouve sua palavra, obedece seus mandamentos e segue seu exemplo. O ensino expresso pela sua vida é: retribua com o bem a quem lhe faz o mal e lute para que a justiça prevaleça em todos os casos.

Lucas 22.47-48 O beijo de Judas

 O BEIJO DE JUDAS

 

O beijo é um sinal universal de amor. Se eu encosto uma parte do meu corpo no corpo de outra pessoa, isto geralmente não tem sentido nenhum. Quando eu era jovem, morando na cidade de São Paulo, pegava ônibus que iam superlotados. Eu ia amassado por todos os lados, mas isto não me ligava sentimentalmente a ninguém ali. O simples toque de lábios em um rosto tem um significado sentimental enorme. O beijo expressa amor, cuidado, carinho, amizade, solidariedade; todos sentimentos bons. E quando o beijo é usado para o mal? É esta situação inusitada que temos no texto de Lucas 22.47-48 entre Jesus e um discípulo dele, por nome Judas.

Jesus tinha acabado de celebrar a ceia com seus apóstolos, dera instruções a eles e foi orar no Monte das Oliveiras. Judas participou de parte da ceia e saiu exatamente para entregar Jesus aos chefes dos sacerdotes, com os quais já havia acertado isto. “Enquanto ele ainda falava, veio uma multidão, e aquele que era conhecido como Judas, um dos doze, vinha na frente deles e aproximou-se de Jesus para o beijar” (v. 47). Jesus ainda conversava com seus apóstolos, após a oração no Gethsêmani, quando eles veem uma multidão se aproximando. Eles eram em doze, logo a multidão deveria ter por volta de umas quarenta pessoas. Esta multidão era formada por guardas do templo e pessoas que queriam ajudar a prender um homem. Ela vinha com tochas, espadas e cassetetes de pau, caso encontrassem resistência. Por incrível que pareça aos apóstolos, mas não a Jesus, quem vem liderando a multidão é Judas Iscariotes. Ele agora estava no lado contrário, no lado dos inimigos de Jesus. Imagine o assombro dos demais apóstolos ao ver Judas liderando a turba. Imagine a vergonha de Judas tendo de contemplar Jesus e seus companheiros de apostolado por cerca de três anos. A cena toda é muito dramática e se tornará mais tensa ainda. Judas, ao guiar a multidão, torna-se o líder da turba. Agora era o encontro entre ele, o líder dos guardas, e Jesus, o líder dos apóstolos. A traição estava bem decidida em seu coração. Agora ele se vingava do fato de que seu mestre nunca se tornara o Messias político-militar que libertaria Israel e ganhava uma alta soma em dinheiro que os sacerdotes lhe deram. A vida dele estava feita com aquele dinheiro e seu futuro garantido. Mas a que preço?

Se Judas vai trair Jesus, qual o sinal que ele usará para identificá-lo? É noite, a iluminação de tochas é insuficiente e a multidão que vai prender não conhece Jesus. Qual sinal Judas poderia usar para identificar Jesus para os guardas? Ele poderia indicar com o dedo, amaldiçoar ou mesmo bater em Jesus. Mas o sinal escolhido por Judas é o beijo. Justo o beijo! O beijo é uma ação que demonstra amor, amizade, carinho, querer bem. Judas beijar Jesus naquele momento confunde os sentimentos. O beijo aqui é sinal de traição, ressentimento, desprezo, ódio. Quando Judas vai beijar Jesus, eles ficam cara a cara. Que olhar houve entre os dois? Ou Judas desviou o olhar? Pensemos em nós: quando o beijo em Jesus troca de função, pois ao invés de demonstrar amor, demonstra traição? Toda vez que, em nome dele, eu praticar o mal! Toda vez que, em nome de Jesus, eu maltratar um gay ou uma pessoa trans, eu bater e maltratar minha mulher porque ela tem de ser submissa, eu diminuir alguém porque esta pessoa não pertence ao meu grupo religioso, eu enganar meu chefe ou meu empregado para tirar vantagens pessoais, enfim, toda vez que estabeleço relacionamentos pecaminosos e maus.

 Após ser beijado por Judas Iscariotes, Jesus vai ensinar seu discípulo pela última vez com muita serenidade. Sim, o tempo todo Jesus sabia que Judas iria traí-lo, mas o tratou como discípulo amado sempre. A previsível traição não mudou o amor que Jesus tinha por ele. Jesus Cristo ama seus inimigos, inclusive os traidores! “Jesus, porém, lhe disse: ‘Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?’” (v. 48). A resposta de Jesus ao beijo do traidor é uma pergunta. Várias vezes, ele usava este recurso da pergunta, obrigando seu interlocutor a pensar no que estava fazendo ou dizendo. Jesus fazia uso do mesmo método adotado pelo filósofo Sócrates em seus diálogos. Jesus começa a pergunta citando o nome dele: Judas. Ao citar o nome, Jesus mostra que ele é o responsável único pela traição e, ao mesmo tempo, expressa amor por ele. Ao perguntar pelo sinal da traição, que foi um beijo, Jesus o questiona do porquê usar um sinal do amor para a prática de uma maldade tão abjeta. A intenção era uma, o sinal era o contrário da intenção. Judas tinha se voltado contra aquele que era o Filho do Homem, o Salvador, o Messias. Judas não sabia, mas ao entregar Jesus se tornaria mundialmente conhecido como o protótipo do traidor. Traiu aquele que lhe deu o apostolado, o poder para curar enfermos e expulsar demônios, a distinção entre os seguidores e o amor e o carinho com que sempre o tratou.

Esta pergunta de Jesus a Judas tem o seguinte teor: “Judas, por que você não assumiu sua descrença em relação a mim e não foi embora do meu grupo de seguidores? Por que preferiu ser hipócrita e fazer de conta que me respeitava e me amava?”. Hoje em dia, irmãos, há muitos cristãos que parecem estar seguindo Jesus e fazem cara de piedade, mas o coração deles expressa que já não creem mais em Jesus, estão totalmente incrédulos em relação ao Mestre. Mas permanecem com a pose de cristãos porque eles conseguem vantagens nisso: pode ser o poder numa comunidade ou estrutura eclesiástica, pode ser dinheiro, pode ser conquistas amorosas, pode ser o controle de outras pessoas ou pode ser a compensação de pecados graves. A estes, Jesus estaria dizendo, como disse a Judas: “Por que você não me abandona de vez e segue seu caminho? Deixa este discurso vazio de discípulo falso e vai viver como quiser!” Nestes casos, o abandono deste falso cristianismo seria honesto. Ou alguém, no final de sua existência, gostaria de ouvir Jesus a lhe dizer: “Fulano, com tantos beijos você me traiu a vida inteira?” Não seja você um traidor. Se é para seguir a Jesus, siga-o de todo o seu coração, sem segundas intenções.

Lucas 22.41-44 A mais importante oração da história da humanidade

 A MAIS IMPORTANTE ORAÇÃO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

 

Orações são diálogos ou rezas com a divindade ou com alguém por ela autorizada. Embora não exista qualquer resposta perceptível no momento, o fiel que ora acredita que a divindade está ouvindo o que ele diz. De todas as infinitas orações feitas pelos seres humanos, aquela que se encontra registrada em Lucas 22.41-44 é a mais importante em toda a história da humanidade. E isto por dois motivos: quem a faz e a implicação dela para o destino da própria humanidade e do Universo.

“E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e pondo-se de joelhos, orava ... Então lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que caiam sobre o chão” (v. 41,43,44). Jesus está na mais completa angústia e agonia. Algumas indicações do texto demonstram isto. Em primeiro lugar, ele se afastou dos seus por cerca de 50 metros para orar, pois queria ficar sozinho. Normalmente, o judeu daquela época orava em pé e com a cabeça voltada para o céu. Jesus se ajoelha e esta posição indica uma submissão e total dependência daquele a quem vai se pedir alguma coisa. Ajoelhar-se era próprio das pessoas que se humilhavam diante daquelas que poderiam lhes prestar um grande favor. Jesus se humilha perante seu Pai porque vai lhe rogar o mais importante pedido de sua vida. Em segundo lugar, um anjo veio para confortá-lo. Esta é a única vez nos evangelhos na qual um anjo o conforta. Na tentação no deserto, os anjos o serviam (Marcos 1.13). Mas aqui um anjo precisa lhe ajudar para que ele tenha forças espirituais para enfrentar a situação que se aproximava. Jesus estava fragilizado. Em terceiro lugar, ele estava “em agonia” e orava mais intensamente. Isto demonstra um espírito inquieto e imerso em angústia. Leitor, você já teve estes sentimentos em uma situação difícil na sua vida? Prostração, inquietação, agonia, angústia, medo que o fazia suar frio, terror só em pensar no que poderia acontecer? Se teve, você está chegando perto do que Jesus estava passando. Mas só perto, porque em quarto lugar, seu suor se transformou em grandes gotas de sangue. Segundo a medicina, isto só ocorre quando o nível de tensão de uma pessoa é tão absurdamente grande, que as veias de seu rosto se rompem e, junto com a água, sai sangue. Jesus está a ponto de explodir internamente como ser humano. Ele está no limite da própria morte. O evangelista Mateus, falando sobre este momento, anota as seguintes palavras de Jesus: “A minha alma está triste até a morte” (26.38). Jesus estava no limite da morte interior. Nenhum ser humano chegou neste lugar!

Mas, por que ele chegou neste nível de vida? Para desvendar a razão de tão grande sofrimento, é necessário entender a oração do v. 42: “Pai, se queres afasta de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua”. No momento mais decisivo da tentação dele, ali estava o Pai.  Este nunca lhe faltou como ternura, ajuda, referência e autoridade. Jesus ora ao Pai porque este vai definir as escolhas de sua vida. Mas esta relação com o Pai, aqui, não é harmônica. Aqui é conflituosa em termos de vontades. A dele é uma, a do Pai é outra. Ele suplica o impossível ao Pai: não beber de um determinado cálice. A palavra cálice significa taça, copo para beber vinho. O vinho é bebido para o prazer. Mas este cálice é do mais terrível sofrimento, um cálice amargo como fel ou chá de mastruz. Lemos sobre este cálice no Antigo Testamento quando ele é direcionado ao povo de Israel e aos ímpios na rebeldia deles: “Desperta, desperta, levanta-te, ó Jerusalém, que bebeste da mão do Senhor o cálice do seu furor; que bebeste da taça de atordoamento e a esgotaste” (Isaías 51.17) e também “Sobre os ímpios fará chover brasas de fogo e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu cálice” (Salmo 11.6). Este cálice está cheio da ira e do furor de Deus contra os pecados humanos. E por que a vontade de Jesus é que o Pai retire este cálice de suas mãos? É porque ele terá de bebê-lo integralmente na cruz. Jesus, que é o Santo, na cruz, terá de receber em si mesmo todo o pecado da humanidade em todos os tempos, tornando-se pecado: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores ... Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades” (Isaías 53.4,5) e “Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós” (2ª Coríntios 5.21). Jesus, que é o Filho Amado de seu Pai: “Este é o meu filho amado” (Mateus 3.17) e “O Pai ama o Filho” (João 3.35), terá, na cruz, de receber dele sua ira e seu furor na mais intensa forma: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27.46). Você, leitor, consegue perceber o que está em jogo nesta simples oração de Jesus a seu Pai?

 Mas, observe com atenção a oração. Jesus não pede que sua vontade seja feita e a do Pai colocada de lado. Não! Ele diz: “Pai, se queres ...”. Quem ia decidir era o Pai na vontade dele. “Se queres” significa que ele já sabe a resposta. O Pai não quer afastar o cálice dele; o Pai quer que ele o beba integralmente. E Jesus aceita a eterna decisão de seu Pai: “não se faça a minha vontade, mas a tua”. Desde o início tudo estava acertado, mas Jesus precisava desabafar sua dor e angústia perante aquele que o conforta, ajuda e determina. Definido: o Pai quer e Jesus aceita beber o cálice do seu sofrimento. Feliz é a humanidade que será salva como resultado desta oração.

O que a mais importante oração da história e, ao mesmo tempo, a mais simples, nos ensina? Em primeiro lugar: Jesus e seu Pai entraram em uma aliança para salvar a humanidade e trazê-la para a comunhão deles. O preço para conseguir isto foi absurdamente caro, mas eles o pagaram. Glória, honra e louvor a Jesus e seu Pai por tão grande graça! Em segundo lugar, toda a angústia e dor do crente deve ser apresentada a seu Pai. A oração sincera muda nosso ânimo. Em terceiro lugar, a vontade do Pai sempre prevalecerá e ela será para nosso bem. Aceite a realidade e, ao mesmo tempo, busque melhorá-la. “Não a minha vontade, mas a tua aconteça”.

Lucas 22.39-40,45-46 A oração vence a tentação

 A ORAÇÃO VENCE A TENTAÇÃO

 

Todos nós passamos por situações aflitivas na vida quando temos de tomar determinadas decisões. Muitas vezes são decisões custosas que terão um impacto muito grande e não sabemos o que realmente devemos escolher. Outras vezes somos tentados a cometer determinado ato que sabemos ser errado, mas que pode nos ajudar a sair de uma situação difícil. Ainda outras vezes, sabemos que a decisão certa vai nos custar muito caro e tentamos subterfúgios para fugir dela. É com estes dilemas que Jesus estava no texto de Lucas 22.39-40,45-46. Vamos ver como ele saiu desta situação.

Jesus tinha acabado de celebrar a Páscoa e a Ceia numa confortável casa com seus apóstolos. Seguia agora a passos firmes e decididos para um monte rústico. Mas seu coração ia pesaroso e aflito porque estava diante da maior de todas as decisões de sua vida e a tentação por escolher o caminho fácil era muito forte. “Então saiu e, segundo o seu costume, foi para o Monte das Oliveiras; e os discípulos o seguiram” (v. 39). Jesus sabe que há um destino traçado para ele, ao mesmo tempo, ele saiu de onde estava em direção ao monte porque era protagonista do seu destino. Jesus gostava de estar no Monte das Oliveiras. Era o lugar onde passava a noite, junto com outros peregrinos pobres que iam a Jerusalém. Ele quer a paz deste lugar para a batalha que vai enfrentar. Com ele, estão seus onze apóstolos: testemunhas e participantes (nem tanto) daquele momento.

“Quando chegou àquele lugar, disse-lhes: ‘Orai, para que não entreis em tentação’” (v. 40). Eles chegam em um lugar alto e Jesus lhes dá uma ordem: orai. No momento mais decisivo de sua vida, Jesus vai orar e pede a seus amigos que orem por ele. Oração aqui não é um ritual ou uma mandinga, que vá garantir sucesso a quem pede. Oração é comunhão com o Pai, abrindo o coração para ele e recebendo sua atenção e carinho. Esta maneira de entender a oração evita que entremos no ambiente da tentação. Jesus ensina que a força para vencer a tentação vem da comunhão real com Deus.

Vamos deixar a oração que Jesus fez a seu Pai para um outro momento (v. 41-44) e vamos analisar a reação dos discípulos neste momento crucial da vida de Jesus.  “Depois, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos e achou-os dormindo de tristeza” (v. 45). Jesus estava orando de joelhos, afastado do grupo de discípulos. Terminada a oração, ele vai agir. A oração não é um fim em si mesma, divorciada do resto da vida. Ela dá consequência a uma forma de viver. Se não for assim, acontecem coisas absurdas como a dos inquisidores que oravam antes de torturar suas vítimas ou a de uma alta patente do Exército, na época da ditadura militar, que saia de um culto evangélico e ia torturar os presos políticos, ou ainda de um grupo de bandidos nos morros cariocas que oravam pedindo proteção para os roubos e sequestros que iam cometer ou de um parlamentar que orou com seus amigos agradecendo a propina que acabava de receber. Todos estes, ao orar, cumpriram um ritual religioso que nada tinha a ver com a vida real deles. Jesus é diferente. Ele ora pedindo a vontade do Pai e levanta-se da oração para fazer esta vontade.

Mas, ao chegar perto dos discípulos, encontra-os dormindo de tristeza. Eles estavam fisicamente cansados, pois a semana fora bastante agitada. Mas também estavam tristes e angustiados porque Jesus falou muito em sua morte e eles esperavam que ele fosse coroado rei dos judeus em Jerusalém. A tristeza dominava a vida deles naquele momento difícil. Para resolver a tristeza, eles encontraram seu refúgio no sono. Isto é próprio do ser humano. Pessoas que estão angustiadas e tristes buscam refúgio em dormir, trabalhar muito, comer demais, não comer nada, consumir álcool ou drogas, etc. A que você recorre quando a tristeza domina seu coração? Jesus recorria à comunhão sincera com o Pai em oração!

Ao se aproximar dos discípulos, Jesus os acorda: “E disse-lhes: ‘Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai para que não entreis em tentação” (v. 46). Jesus sempre nos acorda para a vida. Estes falsos refúgios que criamos para nossa existência são derrubados por Jesus que faz, da vida verdadeira, uma aventura e uma batalha pela qual vale a pena lutar. A proposta dele, repetindo o v. 40, é que você se levante para a vida e busque a comunhão sincera com Deus para vencer seus medos, angústias e tristezas. Você sempre terá estas coisas em sua vida, mas elas serão positivas se forem apresentadas a Deus em oração e você tiver o firme propósito de se levantar e viver de forma adequada com a oração que fez.

Não lhe parece estranho que, na hora mais difícil e decisiva de sua vida, Jesus recorra a algo tão simples como orar? Ele poderia ter-se reunido com homens importantes ou mesmo os discípulos para examinar qual estratégia deveria usar para enfrentar os líderes judeus que queriam matá-lo ou poderia movimentar o povo que o seguia com uma mensagem pedindo que este mesmo povo o defendesse. Não fez nada disto. Simplesmente, foi orar! Quem decidia sua vida era seu Pai celestial. A oração, que parece ser algo tão fraco, é a mais potente força do Universo para a implementação do bem, da justiça e do amor na existência humana. É na oração e na ação consequente que o Reino de Deus vem a nós.

Lucas 22.35-38 Jesus, contado entre os criminosos

 JESUS, CONTADO ENTRE OS CRIMINOSOS

 

Houve uma polêmica, durante o governo Bolsonaro, acerca da posse e do porte de armas. No meio evangélico, os que estavam a favor do uso de armas pela população usaram o texto de Lucas 22.35-38 como defesa bíblica para isto. Disseram que a orientação de Jesus era que seus discípulos usassem armas para se defender. O que este texto enigmático de Jesus quer nos ensinar? É sobre armas e segurança ou sobre a missão de Jesus e dos cristãos no mundo? Venha descobrir os ensinos fascinantes de Lucas 22.35-38.

Jesus ainda está na sala onde celebrou a ceia com os apóstolos. Dali a algum tempo ele sabe que será preso, traído por Judas, e no dia seguinte será crucificado após julgamentos injustos. Os apóstolos, mesmo avisados disto tudo, não fazem a mínima ideia do que está para acontecer. Jesus começa este diálogo: “E perguntou-lhes: Quando vos enviei sem carteira, sem mochila ou sem sandálias, acaso lhes faltou alguma coisa? Eles responderam: Nada” (v. 35). Todo viajante da época de Jesus levava estes três objetos básicos: a carteira era para levar dinheiro (moedas), a mochila era para levar alimentos e as sandálias representavam as roupas. Jesus lembra-lhes que os enviou em missão de curar e pregar o evangelho por muitas cidades e vilas de uma grande região, de dois em dois, conforme Lucas 10.1-20 e que disse naquela ocasião: “Não leveis carteira, nem mochila, nem sandálias” (Lucas 10.4). Jesus pergunta se faltou algo naquela ocasião. A resposta foi unânime: não faltou nada. Saíram sem nada e não faltou nada. Na vida cristã de todos os discípulos, este será o normal: nada faltará do que é o necessário para a sobrevivência. Deus cuidou daqueles homens e cuidará de nós em todo tempo. Você não precisa ter uma arma em casa para sua proteção: o Senhor fará isto. Deus suprirá tudo a seus servos e mesmo o mal que lhes aconteça ainda estará dentro do âmbito da sua vontade. Jesus nos ensina a ter uma serena confiança no cuidado do Pai.

“Disse-lhes então: Mas agora, quem tiver carteira, pegue-a, como também a mochila; e quem não tiver espada, venda a sua túnica e compre uma” (v. 36). Jesus inicia a próxima frase com uma forte adversativa: “mas agora”. Ele fala daquele momento em particular. Desta vez não é o normal, mas uma situação totalmente atípica que não se repetirá nunca mais. Nesta nova ordem, ele diz para que os apóstolos levem bolsa (dinheiro). Se Jesus ia ser preso em algumas horas e morrer no dia seguinte, para que ele precisa que os seus levem dinheiro? Também mandou eles levarem mochila com provisões de alimentos, mas é preciso lembrar que eles tinham acabado de cear. Não daria tempo nem para sentir fome. E aí vem a ordem mais absurda: que cada um vendesse sua túnica (espécie de um manto que ia sobre as outras roupas) e comprasse uma espada. Ele está ordenando que eles se armassem para lutar. O que Jesus tem em mente com estas ordens malucas? O intérprete tolo diria: “Tá vendo? Jesus manda-nos comprar armas!”.

Mas o objetivo de Jesus é bem outro. Ele tem uma razão fortíssima para dar estas ordens totalmente fora de sua personalidade. “Porquanto vos digo que importa que se cumpra em mim isto que está escrito: ‘E com os criminosos foi contado’. Pois o que me diz respeito tem seu cumprimento” (v. 37). Nesta situação singular, ele quer cumprir uma profecia do Antigo Testamento. Para ele, cumpri-la tem muito valor. Qual profecia? “E com os criminosos foi contado”. Jesus entende que os criminosos são seus apóstolos com armas, dinheiro e provisão! Alguns ensinos muito interessantes neste texto. Em primeiro lugar, o texto citado por Jesus encontra-se em Isaías 53.12: “... Porquanto derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu”. A palavra “transgressores” também pode ser traduzida como “criminosos”, já que são pessoas que transgridem a lei. Isaías 53 é o texto do “servo sofredor de Yahweh” e, ao cumpri-lo, Jesus se declara como sendo este servo. Este texto se refere a ele. Em segundo lugar, Jesus não foge da acusação de ser um criminoso ou pecador. Os líderes judeus, várias vezes, comentaram que ele deveria ser pecador porque andava com pecadores. Aqui, Jesus, embora sabendo que não era criminoso, não tem medo que o acusem disto. Em terceiro ugar, Jesus não cumpre literalmente a Escritura, pois arruma as armas na casa onde está e seus apóstolos nunca foram criminosos. As profecias da Bíblia podem ser cumpridas literal ou simbolicamente. Quem decide como é o tipo de cumprimento é Jesus. Mas, por que Jesus faz questão de cumprir esta profecia, mesmo simbolicamente? Aí ele tem dois motivos. Um deles é mostrar que toda profecia bíblica se encerra nele; na Bíblia tudo converge para ele. Segundo o apóstolo Paulo, “Cristo é o fim da lei para justificação de todo aquele que crê” (Romanos 10.4) ou como ele mesmo disse a dois discípulos no caminho de Emaús: “... Era necessário que se cumprisse tudo que estava escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lucas 24.44). O outro motivo, ligado a este, é liberar os seus discípulos de seguir a literalidade da própria Bíblia. Não preciso ficar preocupado em seguir literalmente todos os mandamentos da Bíblia literalmente; preciso seguir os princípios que Cristo me deixou e, através deles, interpretar a Bíblia inteira.

“Disseram eles: Senhor, eis aqui duas espadas. Respondeu-lhes: Basta” (v. 38). Eles nunca tiveram armas e acharam duas na sala onde estavam e que pertencia a um homem rico de Jerusalém. Para Jesus, duas espadas eram suficientes para seu propósito, pois o objetivo nunca foi a autodefesa, mas cumprimento de profecia.

Jesus foi contado entre criminosos, sem nunca ter sido um. Ele quis cumprir todas as profecias dos antigos profetas, mesmo simbolicamente, para nos salvar da morte eterna e também da prisão de obedecermos aos mandamentos do Antigo Testamento. Mas, ao assumir a injustiça de ser acusado de um crime sem ser culpado, Jesus, solidariamente, se identifica com dois tipos de pessoas. Primeiro, com os seus discípulos que, ao longo da história, sofreram todo tipo de tortura e morte por causa dele, acusados de crimes que nunca cometeram. O segundo tipo de pessoa com o qual Jesus se identifica é com todo o injustiçado que tem de sofrer uma penalidade de algo que nunca fez, independentemente de ser discípulo dele ou não. A todos estes, Jesus diz: “Eu também passei por esta dor terrível. Não temas, estou contigo”.

Lucas 22.31-34 O apagão da fé

 O APAGÃO DA FÉ

 

Jesus havia nomeado seus discípulos para ser os líderes do reino de Deus. O problema é que eles ainda pensavam em um reino político-militar. Como Jesus sabia que o reino envolvia cruz e sofrimento, ele começa a preparar Pedro e os demais para o que virá. Os discípulos de Jesus são pessoas de fé. Mas na vida de cada um, ocorrem situações em que a fé parece terminar e a pessoa vive numa incredulidade temporária. É o apagão da fé que pode durar horas ou anos. Pedro, como exemplo de todos os cristãos, vai ter de enfrentar seu apagão em Lucas 22.31-34.

Jesus falou de coisas gloriosas futuras como a liderança do reino de Deus. Agora ele fala do difícil presente. Assim ocorre na vida de todos os discípulos: um futuro glorioso e um presente de fraqueza. Todos são indignos do futuro que Deus dará. Jesus escolhe o líder natural do grupo para servir como exemplo: “Simão, Simão, Satanás vos pediu para peneira-los como trigo” (v. 31). Simão era o nome natural dele. Jesus trocou seu nome para Pedro. A troca tinha a ver com a liderança que ele teria na nascente igreja. Mas aqui, Jesus se dirige a ele pelo seu nome Simão duas vezes a fim de chamar a atenção para o que vai dizer. É sério e importante. Satanás é o inimigo de Deus e do seu povo. Um ser angelical que se devotou ao mal. Segundo Jesus, todos os apóstolos seriam alvos da tentação deste ser. Satanás queria destruir o grupo todo, testando a força espiritual de cada um, como fez com Jó. Jesus usa a figura tão comum de sua época de peneirar o trigo. Faziam isto para separar o grão bom da palha e dos grãos ruins. O objetivo de Satanás era que abandonassem a fé em Jesus e, desta forma, mostrar quão indignos estes homens eram. Satanás não conhece a graça, ele só trabalha com os conceitos de mérito e fraqueza.

Mas agora Jesus se contrapõe ao Satanás e intercede especificamente pelo Simão, tendo em vista que ele era o líder do grupo e teria a pior desilusão: “Mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça” (v. 32). Seguindo o desejo do Pai, Jesus implorou por ele. O objetivo da intercessão de Jesus era que a fé de Simão não se apagasse para sempre na sua existência. Isto nos dá um duplo recado: como humanos, podemos abandonar de vez a fé em Jesus; se permanecemos nela, é graças à Trindade divina (o Pai que ouve intercessão e o Filho e o Espírito que intercedem). Permanecer na fé em Jesus é um paradoxo incompreensível: por um lado, tudo depende de nós e do nosso esforço em permanecer; por outro lado, tudo depende exclusivamente de Deus, que nos guarda de tropeçar. Jesus aparece aqui como o grande intercessor do seu povo. Nenhum discípulo, por menor que seja, fica sem esta proteção dele. Ele cuida das suas ovelhas. Ele cuida de você! Quando o Simão voltar do apagão da fé, Jesus lhe dá a missão de ser o suporte, o fortalecedor dos seus irmãos. A igreja de Jesus é família, todos são irmãos e irmãs e compete a cada um fortalecer os outros na fé e no amor. Mas Simão só pode fazer isto porque passou pelo seu próprio apagão e retornou, ou seja, aprendeu com a vida.

Agora é Pedro quem responde. A humildade de Simão dá lugar à tolice do Pedro: “Respondeu-lhe Pedro: ‘Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte” (v. 33). Pedro responde que Jesus é o Senhor dele. Isto é bom, mas depois desanda. Ele se arroga uma força incrível como discípulo: seria capaz até de ser preso e morrer por Jesus. O que acontece com Pedro é o mesmo de muitos cristãos: enquanto a situação está boa, todos são corajosos e destemidos em nome de Cristo. Quando a situação fica difícil, o normal é fugir e entrar em desespero e ansiedade.

Mas Jesus, que conhece suas ovelhas, diz a ele: “Tornou-lhe Jesus: ‘Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes tenhas negado que me conheces’” (v. 34). Jesus faz uma predição acerca de pessoas e situações. O Pedro vai negar enfaticamente que conhece Jesus. Não é ser preso ou morrer, é negar que o conhece! O canto do galo é o sinal para a lembrança do que Jesus falou. Na iminência de sua morte, Jesus controla detalhes ínfimos, mas de grandes significados.

Todo este texto sobre Simão Pedro lança uma pergunta existencial importante para todos os discípulos de Jesus: quem de nós é apto para seguir Jesus pelas suas próprias forças? Quem de nós está livre de sofrer apagão da fé? Quem de nós pode dizer que conseguirá chegar ao fim desta jornada de discípulo? Jesus ensina aos seus que alguém só pode vencer pela intercessão dele e por sua ajuda durante toda a vida. É Jesus quem nos ajuda a acabar a carreira e guardar a fé. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1.6).

Lucas 22.28-30 A nomeação

 A NOMEAÇÃO

 

Um momento importante na política e em instituições públicas é quando alguém é nomeado para comandar algum cargo público. Quando um presidente, governador ou prefeito é eleito, há expectativas e intensas negociações para a nomeação de ministros e secretários. Sendo nomeada oficialmente, a pessoa tem todo o direito para gerir sua pasta conforme entender. A nomeação gera poder de mando. Jesus, como rei em seu reino, nomeia seus discípulos para que eles governem. Isto está simbolizado através dos doze apóstolos em Lucas 22.28-30.

Este texto vem depois de uma discussão entre os apóstolos sobre quem seria o maior, o cabeça, no reino de Jesus. Jesus afirmou que, no seu reino, aquele que serve os demais seria o maior. O reino dele era de amor e cuidado com o próximo. Dirigindo-se ao grupo dos doze, Jesus diz: “Mas vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações” (v. 28). Jesus afirma que teve uma vida de tentações. As tentações foram feitas para que ele pecasse. Ele teve este tipo de vida porque escolheu servir, como diz o v. 27. Mas ele não foi tentado sozinho. Falando aos doze, diz que eles ficaram ao seu lado nestes momentos difíceis. Foi uma escolha deles porque decidiram viver a vida de Jesus. É interessante que Jesus recebeu forças de um grupo tão frágil como aquele para vencer suas próprias tentações. Isto significa que Jesus preza nossas lutas cotidianas que temos para vencer nossas próprias tentações e continuar perto dele no discipulado. Nossas lutas não são em vão.

O incrível acontece agora. Como autoridade em seu reino, veja o que Jesus diz: “e assim como meu Pai me conferiu um reino, eu o confiro a vós” (v. 29). A palavra grega “diatíthemai” que é traduzida por conferir, pode também ser traduzida como nomear. Agora Jesus, como autoridade, nomeia aqueles fracos companheiros não só como seu reino, mas também está dando o reino a eles para que governem. Ouça o que Jesus diz em Lucas 12.32: “Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino”. E veja que antes dessa nomeação de Jesus, o seu próprio Pai o nomeou reino e líder deste reino. Então temos uma escala de nomeações: o Pai nomeia Jesus o líder do Reino e Jesus nomeia seus discípulos como os líderes deste mesmo Reino. Chamo a atenção para três aspectos desta nomeação: 1) o Reino de Deus é dado àqueles homens: foram nomeados, lhes pertence, reinarão; 2) observe a relação entre estar com Jesus nas tentações (v. 28) e receber o Reino por nomeação (v. 29): lutar contra as tentações neste mundo nos capacita a governar o Reino, ou seja, somos feitos reis e rainhas do Reino de Deus nas lutas contra o mal neste mundo; 3) note a perfeita integração entre o Pai, seu Filho Jesus e deste com os discípulos: todos reinam e, ao mesmo tempo, todos passam o reino. Quando alguém é nomeado para governar uma área, o governo do nomeado não é dele, mas de quem o nomeou. Assim ocorre aqui: o governo é tanto do Pai, quanto de Jesus, quanto de seus discípulos.

Ao nomear o Reino para eles, Jesus lhes dá dois direitos: “Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino e vos senteis sobre tronos para julgar as doze tribos de Israel” (v. 30). O primeiro direito que Jesus dá é de comer e beber na mesa dele. Comer e beber na mesa de alguém é ser íntimo e querido por esta pessoa. Os discípulos terão intimidade e uma relação amorosa com Jesus, seu Pai e seu Espírito. O reino de Jesus é de puro prazer para seus ocupantes. A nova vida se baseia na alegria: aqui misturada com as tristezas das tentações; lá, plena de glória e regozijo. O segundo direito que Jesus dá aos seus é que eles governarão, julgarão e estabelecerão a justiça em todo o Reino. A palavra julgar aqui tem o sentido não apenas de decidir o que é justo, mas também de governar. Os doze apóstolos serão a referência para todo o Israel de Deus, que abrange todo o povo de Deus, independentemente da nacionalidade judaica, como o apóstolo Paulo expressou em Gálatas 6.16: “E a todos quantos andarem conforme esta norma, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre todo o Israel de Deus”. Por extensão, todo o povo de Deus governará e julgará. Você, leitor, que é um humilde seguidor de Jesus, você governará a nova criação de Deus, o reino dele. Você foi nomeado por Jesus para isto: governar e julgar. O seu aprendizado nesta vida para poder governar lá não é sobre administração ou política, mas é o seu exercício do amor, compaixão, justiça, bondade, solidariedade, etc.

Comunhão e intimidade com o Pai, Jesus e o Espírito Santo e governar como reis e rainhas o reino que pertence a Deus, a nova criação. Estas são as duas promessas de Jesus aos seus discípulos. Elas são desfrutadas agora em meio a lutas e tentações e serão desfrutadas no futuro na plenitude da alegria, do poder e da celebração. Tudo isto já é de direito aos discípulos que andam com Jesus, enfrentando suas tentações, desânimos, frustrações e perplexidades em relação a esta vida. Eles não abrem mão de Jesus e nem Jesus abre mão deles porque já os nomeou governantes!

Lucas 22.24-27 O verdadeiro poder não é mandar, é amar!

 O verdadeiro poder não é mandar, é amar!

 

O sociólogo Max Weber dizia que o Estado era o único ente na sociedade que tinha o monopólio da violência com o intuito de proteger os cidadãos. O monopólio da violência era a forma do Estado exercer seu poder. Por causa disto, o Estado tem polícia para reprimir a criminalidade, um sistema judiciário que pode colocar alguém na prisão por anos, e em alguns países, condená-lo à morte e pode obrigar as pessoas a pagar impostos. O conceito de poder que vigora nas sociedades é o de mando, de coerção. Daí o ditado popular: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. É acerca deste conceito de poder na sociedade que Jesus discute em Lucas 22.24-27.

Quando Jesus, na reunião da Ceia, afirmou que um dos apóstolos iria trai-lo, começaram duas discussões entre eles. A primeira era sobre quem seria o traidor (v. 23) e a segunda está no v. 24: “Levantou-se também entre eles contenda sobre qual deles parecia ser o maior”. Observe, leitor, que eles não deram a mínima para o anúncio de Jesus de que iria ser traído. Para os apóstolos, aquela traição seria algo sem importância na escalada de Jesus ao poder político de Israel e aí, o importante, era saber quem teria o  maior poder entre eles. Alíás, esta discussão sobre quem seria o mais poderoso entre eles era recorrente. Em Lucas 9.46, lemos: “E suscitou uma discussão sobre qual deles seria o maior”. O grupo apostólico de Jesus não era tão unido quanto imaginamos. Eles amavam brigar para saber quem era o maior. Para eles, o melhor lugar era estar acima dos outros, comandar, exercer o poder. O desejo humano de ser o maior começa em Gênesis 3, quando Adão e Eva foram tentados a ter o mesmo poder de Deus e se tornar semelhante a ele.

Jesus toma posição nesta discussão deles: “Ao que Jesus lhes disse: ‘Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são chamados benfeitores” (v. 25). Jesus observa que há uma organização política vigente na Terra: os povos têm reis. Há pessoas que comandam povos. Naquela época, a monarquia e o autoritarismo eram as formas de governo. Todo o sistema gira em torno do poder. A sociedade é verticalizada, ou seja, é um tipo de relacionamento de superioridade de um sobre os outros. Só por ser autoridade e acumular poder, uma pessoa automaticamente é chamada de benfeitor. Para se falar com o rei ou autoridade, há uma série de títulos, respeitos e etiquetas que devem ser pronunciados antes. Na mente do povo, confunde-se ter poder com “fazer o bem”. O objetivo do monarca é permanecer no poder (veja, no Brasil, a batalha pela reeleição) e ele fará o bem ao povo na medida que isto lhe interesse. Maquiavel, um dos primeiros pensadores políticos modernos, ensinava que um rei deveria fazer todas as suas “maldades” no início do seu governo e no menor tempo possível e fazer todas as “bondades” depois para passar a imagem de governante forte e bom e se manter no poder por muito tempo.

“Mas vós não sereis assim: antes o maior entre vós seja como o mais novo e quem governa como quem serve” (v. 26). Jesus diz que o modelo de governança dos povos não serve para a sua igreja. Há uma outra forma de se estruturar como grupo, no qual o poder será vivenciado de uma forma radicalmente diferente. Esta igreja diferente de Jesus tem duas bases: a primeira é ser uma comunidade real: “mas vós”. A igreja da qual Jesus fala aqui não é a institucionalizada que vemos hoje, na qual as pessoas brigam ferrenhamente por poder e mando. Não! É uma igreja sem estruturas na qual as pessoas se veem e podem dizer: “somos um grupo, uma comunidade e todos somos ligados uns aos outros por Jesus”. O que une todos é o discipulado do Cristo. A segunda base desta igreja é que todos que fazem parte dela são os que vão lutar para servir e fazer o bem aos demais. Quando Jesus diz que o maior é como o mais novo, ele está se referindo ao fato de que, na sua cultura, os mais velhos eram muito respeitados e mandavam, ao passo que os mais jovens obedeciam. Ser o mais novo é estar à disposição dos demais para ajudar. A luta não é por ser o primeiro, é por ser o último! Não é por ser cabeça, é por ser cauda! Não é por mandar, é por ser garçom dos demais! O que está servindo os outros é o verdadeiro líder e o maior na igreja. No entanto, ele faz isto por amor aos outros e não por poder sobre os outros.

Para nos guiar nesta nova forma de convivência, Jesus nos dá seu exemplo pessoal. No v. 27, ele diz: “Pois qual é o maior? Quem está à mesa ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, estou entre vós como quem serve”. Neste mundo, o maior é quem é servido e o menor é quem serve. Jesus, o Senhor absoluto de todas as coisas, decidiu ser o servo de todos: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mateus 20.28). Até hoje, ele continua servindo seu povo. A cruz foi a marca principal deste espírito de servo que ele teve. Sua morte por amor lhe deu a vitória sobre todos os principados e potestades e ele passa a ter o nome sobre todo o nome. É de uma vida de serviço e doação que ele retira sua glória de Senhor.

A proposta de Jesus não é o poder como princípio principal de relacionamento num grupo. Mas é fazer o bem como poder de servir, de voluntariamente ser subordinado. Conscientemente, o maior se coloca como suporte para que a vida dos demais melhore. É uma outra estrutura de vida que se coloca no lugar da atual na sociedade, que é a briga pelo poder. Não é amor versus poder, mas amor igual a poder. O mais poderoso é o que ama sempre o outro. Disso vem sua glória e sua juventude eterna.

Lucas 22.21-23 O falso discípulo de Jesus

 

O FALSO DISCÍPULO DE JESUS

 

O Senhor Jesus disse que nem todos os que o seguiam e usavam seu nome seriam verdadeiramente seus discípulos. Em Mateus 13.24-30, Jesus fala a parábola do trigo e do joio, plantas parecidas, mas totalmente diferentes em termos de alimentos. Ele disse que joio e trigo estariam juntos e misturados durante toda a história; ou seja, verdadeiros e falsos seguidores estarão juntos sem que seja possível distingui-los na aparência. Em Mateus 7.22-23, ele fala de pessoas que, usando seu nome, profetizaram, curaram e fizeram até milagres. Mas diz que, apesar dos resultados, nunca conheceu esta gente porque eles praticavam a perversidade no coração. Até mesmo no seu primeiro grupo de seguidores, Jesus tinha um falso discípulo, um traidor. Esta história de traição começa a ser desenvolvida em Lucas 22.21-23.

Segundo o evangelho de Lucas, Judas Iscariotes participou da Ceia do Senhor. Porque é logo depois da Ceia que Jesus faz a seguinte declaração: “Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa” (v. 21). Em Lucas 22.19-20, Jesus estabelece uma nova aliança através de seu sangue, simbolizada numa Ceia. Mas, mesmo ali, há alguém que está fora desta aliança. Ou seja, a morte de Jesus não salvará todas as pessoas indistintamente. Jesus chama a atenção para a maldade que se recusa a participar desta aliança, mesmo que coma o pão e beba do cálice. Ele usa as palavras “mas eis” para chamar a atenção disto. Esta é a maldade que habita a pessoa que sempre esteve com ele e recebeu seus benefícios, mas que agora o trai por causa de dinheiro. Jesus tinha inimigos externos (fariseus, saduceus, sacerdotes, poderosos políticos e religiosos e até gente do povo que não gostava dele), mas Judas era de dentro, do grupo, alguém que Jesus acolheu e lhe deu sua autoridade. Judas cumpre o que está escrito no Salmo 41.9: “Até o meu próprio amigo íntimo em quem eu tanto confiava e que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”. Aparentemente, este tipo de pessoa está do lado de Jesus e o honra, mas seu coração está bem longe dele e passa a enxergar o Senhor Jesus como uma máquina de arrecadar dinheiro.

Preste atenção: a pior oposição a Jesus Cristo não vem dos ateus, gays e adeptos de outras religiões, mas sim de autoproclamados cristãos que odeiam as pessoas que são diferentes deles, praticam o mal contra estes grupos e outras minorias a pretexto de estar obedecendo à Bíblia e estão interessados em usar o amuleto “Jesus” tão somente para prosperidade material e poder sobre pessoas. Elas disfarçam bem e enganam os verdadeiros discípulos porque participam da Ceia, pregam nos púlpitos, cantam nos louvores e dizem que prosperaram a ponto de ficarem ricos ou possuírem muitos bens. A prosperidade deles começou quando conseguiram arrecadar 30 moedas de prata!

Após falar que havia um traidor no grupo, Jesus fala acerca desta pessoa e de si próprio: “Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído” (v. 22). Acerca de si próprio, Jesus aceita sua predestinação para a cruz. Desde que era criança, ele sabia que a cruz estava determinada para ele. Mas este conhecimento não fez dele uma pessoa amarga ou ansiosa, pelo contrário, ele livremente vai seguir o script determinado pelo seu Pai. Quando se faz a vontade de Deus, mesmo carregando uma cruz, a vida se torna alegre e cheia de significado. Agora, em relação à pessoa que o trai, Jesus levanta um grito de dor por ela. É interessante, em todo o texto da traição, que Jesus não demonstra um pingo de ódio por Judas. Pelo contrário, tem compaixão dele e levanta um “ai” de dor pelo que lhe sobrevirá. Quando eu era criança, no sábado da Páscoa, acontecia a malhação do Judas. Um boneco de pano era enforcado num poste e a criançada pegava em pedaços de pau e batia no boneco até ele se desmanchar. Era a expressão do ódio contra o traidor. Em Jesus, os sentimentos eram totalmente diferentes. Desde o início, Jesus sabia o que Judas faria. Mas o aceitou como apóstolo, tratou-o como aos demais, deu a ele poder e autoridade para curar doentes e expulsar os demônios (Lucas 9.1), amou-o e teve compaixão dele. Sabia que o caminho de Judas estava levando-o para a perdição e o avisou. Judas é um vilão traidor, mas ainda amado pelo Senhor. Eu queria tanto ser parecido com Jesus nisto. Prezado leitor, um aviso e uma lição. O aviso: as pessoas que usam o nome de Jesus (cristãos, evangélicos, católicos, pastores, padres, etc), mas são traidores dele, terão o mesmo destino de Judas. A lição: em toda esta situação que envolve a predestinação de Deus e a liberdade humana, Jesus está no controle. É ele quem vai sofrer, mas é ele quem controla tudo.

“Então eles começaram a perguntar entre si, qual deles seria o que ia fazer isto” (v. 23). Após as palavras de Jesus, os doze apóstolos começaram a discutir quem deles seria o traidor. Eles não tinham a menor ideia de quem seria esta pessoa e da dimensão desta traição. Com certeza, eles imaginaram que a traição seria de pouca monta, porque logo depois eles começam a discutir quem deles era o maior. Discutiram entre eles sobre o traidor e não chegaram a conclusão alguma. Nós, seres humanos, não temos condições de conhecer o interior das pessoas e também as mudanças que ali ocorrem. Alguém que hoje parece ser um discípulo fiel, amanhã trai a Jesus. Alguém que hoje parece que não é discípulo de jeito nenhum, este age de forma obediente ao que Jesus manda. Por isto a palavra bíblica é que não julguemos ninguém. Mas, toda vez que você perceber, em algum irmão seu, alguma ação ou intenção má, converse com ele com brandura e mostre onde você enxerga o mal. Não o obrigue a tomar decisão alguma, apenas aconselhe.

O que este texto nos ensina? Primeiro, olhe para você mesmo a fim de que, com o passar do tempo, você se desencante com Jesus e comece a abandoná-lo lentamente, até que não reste amor algum. Ao se examinar, veja se sua fé não está colocada em líderes religiosos ou igrejas. Sua fé deve estar na rocha eterna que nunca muda: Jesus! Segundo, não julgue os outros, mas acolha e oriente todos. Não é sua competência discernir traidores. Siga o exemplo de Jesus que, mesmo sabendo o que Judas faria, o acolheu o tempo todo. A admoestação amorosa e sincera daqueles que erram faz parte do exercício da fé, “corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento ...” (2ª Timóteo 2.25).

Lucas 22.19-20 A primeira Ceia do Senhor

 

A PRIMEIRA CEIA DO SENHOR

 

É interessante como o escritor Lucas narra a Páscoa de Jesus no texto de 22.14-20. Nos v. 14-18, ele narra a Páscoa judaica. Ali está o cordeiro assado, pão sem fermento, ervas amargas e vinho. Celebravam a libertação do povo de Israel do Egito. Eles comem e bebem e Jesus mesmo diz que celebrava a Páscoa (v. 15). Mas eis que nos v. 19-20, Jesus repete a comida, agora apenas com o pão e o vinho. Muitos estudiosos dizem que Lucas tão somente repete a mesma cena de v. 14-18. Mas penso que Lucas está distinguindo deliberadamente os dois textos. Em 14-18, Lucas nos fala da celebração da última Páscoa de Jesus e em 19-20 Lucas fala da primeira Ceia do Senhor. É a transição da Páscoa judaica para a Páscoa cristã, do Antigo para o Novo Testamento, da velha para a nova aliança. O relato da primeira Ceia do Senhor está no texto de Lucas 22.19-20.

“E, tomando pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho dizendo, dizendo: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim’” (v. 19). Jesus agora inicia um novo momento só com pão e vinho. O pão era a comida comum naqueles tempos, como o nosso arroz com feijão hoje. Ele primeiramente agradece a Deus, não pelo pão em si, mas pelo que ele representa na salvação dos homens. No texto original grego, a palavra dar graças é “eucaristia” e este nome ficou consagrado na Igreja Católica. Jesus compreendia que tudo vinha da boa mão de Deus, inclusive sua morte. O texto original diz que Jesus “quebrou” o pão e é este o significado de “partir o pão”. Quebrar o pão tinha a ver com sua morte violenta no dia seguinte. Após partir, ele dá o pão a todos os presentes. O pão é dado gratuitamente e, ao ser dado, passa a ser deles. A salvação que Jesus realizou na cruz é entregue gratuitamente a todos que nele creem e, a partir da fé, passa a ser deles verdadeiramente. O dar tem o sentido de que algo que pertence a alguém passa a ser do outro, para desfrute daquele que recebeu.

Jesus então passa a informar o seu significado para o que ele está fazendo naquela Ceia. O “isto” abrange toda a cena (pegar o pão, agradecer, quebrar, dar e comer) e não somente o pão. Toda a cena é o corpo dele oferecido, é sua vida. Neste ato de oferecimento, Jesus valoriza o corpo humano como corpo de ações que valem por toda a eternidade. Seu corpo vivo/morto vai trazer salvação eterna a todos: corpo por corpos, vida por vidas. O sacrifício dele é totalmente em favor deles. Tudo é para eles. Tudo sai de graça para eles. Cristo tem todo o ônus do sacrifício e eles têm toda a bem-aventurança do recebimento.

A ordem de Jesus é que seus discípulos repitam a cena e realizem constantemente esta Ceia. O objetivo de Jesus é que eles jamais percam a memória de que, neste sacrifício, foram salvos. Ao celebrar a Ceia do Senhor, nunca se esqueça que Jesus morreu na cruz por você e pelos seus irmãos. Ah! E quando celebrar, ele mesmo estará presente.

“Semelhantemente, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (v. 20). Jesus bebe do vinho num cálice comum, como era costume naquela época. O vinho está no lugar do sangue de Jesus tal como o pão simbolizava seu corpo. E por que simbolizar o sangue? Porque o sangue representa a vida! Em Levítico 17.11 lemos “Porque a vida da carne está no sangue; e eu o tenho dado a vós sobre o altar, para fazer expiação por vós, porque é o sangue que faz expiação pela vida”. A velha aliança que Deus fez com o povo de Israel através de Moisés era baseada no sangue de animais. Esta velha aliança acabou! A nova aliança de Deus com a humanidade é feita no sangue de Jesus Cristo. A primeira foi temporária, a nova é eterna e vale para todos os tempos. Este sangue é derramado “por vós”. É o sangue de Jesus derramado na cruz que autentica e garante a nova aliança entre os seres humanos e Deus.

Por que Jesus instituiu esta Ceia composta de pão e vinho? O pão da Ceia do Senhor está em contraposição a uma outra ceia que se encontra em Gênesis 3.6: “Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu e deu a seu marido, e ele também comeu”. Ela tomou do fruto, deu e comeu junto com seu marido. Na Ceia de Jesus, ele tomou do pão, deu e comeram. A Ceia do Senhor corrige a de Adão e Eva. A ceia de Adão foi a do pecado, da rebelião e da desgraça de toda a raça humana. A Ceia de Jesus foi a da morte pelos pecados humanos, da reconciliação entre Deus e os seres humanos e da graça da salvação. O vinho, que representa o sangue de Jesus, está em contraposição à morte de animais da velha aliança de Moisés: “(Levará o animal perante o Senhor) porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, e este será aceito em favor dele, para sua expiação. Depois sacrificará o novilho perante o Senhor; e os sacerdotes, filhos de Arão, oferecerão o sangue (...)” (Levítico 1.3,4). O sangue de animais foi aceito por Deus até que viesse o sangue precioso de Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. A ênfase em toda a Ceia de Jesus é a expressão “por vós, em favor de vós”. Na cruz, Jesus nos assumiu com toda a vilania de nossos pecados, resolveu nossa condenação perante seu Pai e nos deu a vida eterna. Como não amar tão grande Salvador?

Lucas 22.14-18 A última Páscoa de Jesus

 A ÚLTIMA PÁSCOA DE JESUS

 

A Páscoa era a festa mais importante para os judeus. Ela celebrava a poderosa libertação dos escravos hebreus do Faraó e a saída do Egito. Celebrava ainda a formação de um povo no Monte Sinai, três meses depois, quando fizeram um pacto com Yahweh de ser o seu povo e receberam a Lei por intermédio de Moisés. Deus, liberdade, nação e Lei: eis os pilares do povo de Israel nos tempos de Jesus. Mas chega o momento em que Jesus celebra sua última Páscoa na companhia dos seus doze apóstolos. Esta celebração é um misto de alegria e dor, esperança e sofrimento. O relato da última Páscoa de Jesus está no texto de Lucas 22.14-18.

“E, chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa e com ele os apóstolos” (v. 14). Chegou a hora da celebração da Páscoa. Estão naquela sala Jesus e seus doze apóstolos. Ninguém mais. Jesus é o anfitrião. Ele dirige a cerimônia. “E disse-lhes: ‘Tenho desejado ardentemente comer convosco esta páscoa, antes da minha paixão; pois vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no Reino de Deus’” (v. 15,16). Jesus está tomado pela emoção. Ele desejou demais estar naquele momento de refeição com aqueles homens. Ele sabe muito bem acerca dos atrozes sofrimentos que ele vai passar logo após aquele momento. Esta refeição é como um pequeno raio de luz em uma situação de densas trevas. É como um pequeno alívio diante de sua própria paixão, do seu sofrer. Eles estavam celebrando uma Páscoa, mas, dali a algumas horas, ele seria a páscoa, pregada numa cruz. Outro motivo para desejar comer aquela páscoa é que seria a última que Jesus comeria na condição de vida terrena. A próxima vez que ele comerá a páscoa será no cumprimento do Reino de Deus. O que Jesus queria dizer com isto? Ele está fazendo uma profecia que tem dois cumprimentos: o próximo e o remoto. O cumprimento próximo é que, no dia seguinte, ele morreria como o Cordeiro de Deus sacrificado pelos outros; o cumprimento remoto se dará quando o Reino de Deus chegar no seu auge, em seu completo cumprimento e isto se dará num grande banquete que Deus Pai dará em homenagem a seu Filho vencedor e a todos aqueles que foram salvos pela sua cruz. Acerca deste banquete, o próprio Jesus disse em Lucas 13.29: “Muitos virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e se sentarão à mesa no Reino de Deus” e também Apocalipse 19.9: “E disse-me: ‘Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro’”. Sim, Jesus prometeu que quando sua obra de salvação terminasse neste mundo, ele daria uma grande festa onde todos os salvos estarão, e comerão e beberão na sua presença com alegria eterna. Bendita festa do casamento de Cristo com sua Igreja.

“Então havendo recebido um cálice e tendo dado graças, disse: ‘Tomai-o e reparti-o entre vós; porque vos digo que, desde agora, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus” (v. 17,18). Após comer a páscoa judaica, Jesus pega o cálice único com vinho. Jesus agradece ao Pai aquela refeição e aquele cálice porque ele sabe que toda liberdade vem de Deus. Jesus toma o seu gole de vinho e passa o cálice aos seus amigos/apóstolos e diz: tomem de mim e repartam entre vocês. Beber o vinho era um momento de prazer de Jesus com seus amigos. Era um dos últimos atos de Jesus antes de ele ser levado pela correnteza da maldade humana. Aquele era o vinho da alegria, do prazer, da amizade e do congraçamento. Que momento lindo para Jesus! Sempre que puder, dê ou participe de festas com seus amigos, pelo simples prazer de estar com eles. Lembre-se: de Jesus, vem a alegria! Jesus então os informa que é a última vez que ele beberá aquele vinho até que venha o Reino de Deus. Jesus diz que, entre aquele momento e a vinda em plenitude do Reino de Deus, há um hiato de tempo. Ele não diz quanto tempo este hiato vai durar. Já se passaram dois mil anos e este hiato continua. O que cabe aos discípulos de Jesus no tempo presente é lutar pela proclamação do evangelho, viver a vida com os valores de Cristo e amar as pessoas com toda a energia possível. A oração dos cristãos é: “venha o teu reino”, tanto em palavras quanto em ações. Mas também ter a certeza de que o hiato vai acabar um dia, pois o Reino virá e Jesus vem com ele.

Há uma festa nos esperando no fim desta história e início da nova história. Jesus, o grande anfitrião, estará lá com um sorriso imenso, feliz por receber a todos que ele conquistou na cruz e fazendo-nos um brinde com seu vinho novo. E você? Participará desta festa?