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Mesa-redonda "Pensando o céu"

 Mesa-redonda Pensando o céu

Aula inaugural do Seminário Teológico Batista de Presidente Prudente - 22/02/2021

Participantes:

Arnald Rodrigues de Souza

Belvino Bento de Souza Filho

Éverson Spolaor

Whitson Ribeiro da Rocha


https://www.youtube.com/watch?v=7ZjaseE3Sqs&t=1079s

O PR. ED RENÉ KIVITZ ESTÁ CERTÍSSIMO: O EVANGELHO DO SENHOR JESUS CRISTO NOS TRANSFORMA EM CARTAS VIVAS PARA UM NOVO MUNDO!

 

O PR. ED RENÉ KIVITZ ESTÁ CERTÍSSIMO:

O EVANGELHO DO SENHOR JESUS CRISTO NOS TRANSFORMA EM CARTAS VIVAS PARA UM NOVO MUNDO!

Pr Whitson Ribeiro da Rocha

 

            A nova polêmica no mundo evangélico diz respeito a uma mensagem que o Pr. Ed René Kivitz pregou no domingo 25/10/2020 em sua igreja acerca da carta de Paulo a Filemom. As redes sociais fizeram o recorte dos últimos dez minutos de uma pregação de cinquenta minutos e elegeram Ed como o herege nº 1 (neste sentido, convido você a ouvir a pregação inteira que tem o título “Cartas vivas contra letras mortas” no Youtube). Devido à repercussão, ouvi a pregação toda e resolvi escrever este artigo que servirá como orientação para alguns e contraponto à visão majoritária para outros. Primeiramente, faço um resumo e analiso a mensagem do Pr Ed. Depois faço minhas considerações sobre a atual celeuma. Venha comigo.

            A carta de Paulo a Filemom trata da questão da escravidão, que era comum naquela época. Um escravo fugitivo, Onésimo, vai parar na mesma prisão em que Paulo está. Paulo o evangeliza e ele se torna cristão. Sabendo que o senhor de Onésimo é um outro filho na fé chamado Filemom, discípulo dele, Paulo escreve a carta devolvendo Onésimo, mas pedindo a Filemom que o receba agora, não mais como escravo, mas como irmão na fé. Ao escrever esta carta, o Pr. Ed diz que Paulo faz duas coisas. A primeira coisa é colocar uma bomba de tempo no colo do Império Romano porque esta carta irá ressignificar as relações de escravidão no Império e no mundo, porque ensina que os escravos devem ser tratados como irmãos e irmãs. A segunda coisa é que ao propor esta solução a Filemom, Paulo corre o risco de estar legitimando ou reafirmando a escravidão, ou, no mínimo, não a confrontando.

            Neste ponto, Pr. Ed começa a falar acerca de um dos motivos que lhe renderam acusações nas redes sociais. Ele diz que “Essa carta do apóstolo Paulo [...] precisa receber um melhor tratamento hermenêutico, uma melhor leitura interpretativa para que ela salte do seu momento histórico, do seu contexto social, político, econômico e ela dê um salto e ilumine relações mais gerais, mais universais e mais temporais e ela seja uma carta que saia de seu limite de insuficiência para se tornar luz a iluminar nossas relações” (grifo meu). Mais adiante no seu discurso, ele fala do que significa esta insuficiência do texto bíblico: “Esta carta é insuficiente para mim. O grande desafio da igreja contemporânea é olhar a Bíblia como um livro insuficiente. Um livro que precisa ser relido, ressignificado para que, os princípios de vida que esse livro encerra e que essa revelação encerra, eles saltem destas páginas promovendo libertação e justiça e relações de amor no nosso mundo”; “É nesse sentido que eu estou dizendo que a Bíblia é um livro insuficiente. A ética bíblica reflete uma estrutura de sociedade daquele tempo, daquele mundo, daquela época. Não dá para trazer um texto de quatro ou dois mil anos e trazer para hoje aplicando literalmente”; “Porque se eu não atualizo a bíblia e se eu a leio literalmente e digo ‘está suficiente a leitura literal da escritura’, eu legitimo escravidão, machismo” (todos os grifos são meus). Veja bem, leitor, em nenhum momento o Pr. Ed está atacando a Bíblia ou dizendo que ela não é inspirada. Ele está atacando a interpretação literal da Bíblia. Este tipo de interpretação não contextualiza o texto bíblico. E porque a interpretação literal não serve? Ele deu um exemplo em Deuteronômio 22 onde se lê que quem estuprar uma virgem deve pagar uma indenização para seus pais e casar-se com ela e nunca se divorciar. Qual pastor aconselharia isto para uma jovem que foi estuprada? Na Bíblia, há a lei do levirato. Qual pastor aconselharia hoje um cunhado a se casar com a mulher de seu irmão falecido, “porque a Bíblia manda”? Na Bíblia, a escravidão é normal. Qual de nós aconselharia alguém a manter um escravo em casa? Tudo isto está na Bíblia como mandamento para ser obedecido. Mas a revelação em Jesus Cristo e os tempos atuais inviabilizam, não a Bíblia, mas a interpretação literal dela. O teólogo Millard Erickson, em seu livro “Introdução à Teologia Sistemática” diz: “Uma terceira posição [...] é a dos tradutores da mensagem cristã. Essas pessoas são basicamente conservadoras, no sentido de desejar manter o conteúdo essencial do ensino bíblico. Ao mesmo tempo, porém, desejam reformulá-lo ou traduzi-lo em conceitos mais modernos, para encontrar equivalentes contemporâneos para os conceitos tomados da época bíblica” (p. 30). A Bíblia precisa ser entendida no momento histórico em que foi escrita, mas contextualizada para nosso tempo atual!

            Se a interpretação literal não serve, qual é a proposta do Pr Ed para a interpretação do texto da Escritura? Ele fala acerca disto: “Nas suas linhas a Bíblia é insuficiente, mas nas suas entrelinhas, na revelação que traz a respeito do Cristo ressurreto, a Bíblia explode promovendo uma grande revolução e uma grande transformação no mundo, então a gente precisa atualizar a Bíblia”. Veja esta outra fala dele: “Não é mais admissível fazer a transposição literal da Bíblia sagrada de dois mil anos para cá. Não é mais possível, o mundo mudou. Não é possível ler a Bíblia como se nós não tivéssemos dois mil anos de civilização humana, dois mil anos de Espírito Santo iluminando a igreja. Não é possível. Não é possível tratar a Bíblia como um texto que revela verdades absolutas, porque nós não somos os seguidores de um livro, nós somos seguidores de Jesus Cristo e este texto é palavra de Deus que é viva, e não é um código moral que diz como devemos nos comportar em sociedade, mas é um texto que traz a revelação de Jesus Cristo como o Senhor de um novo mundo, de uma nova era, onde as relações de hierarquia estão destruídas e agora nós somos iguais como irmãos e irmãs”. Ao invés da interpretação literal da Bíblia, Pr Ed está nos propondo que usemos os ensinos e os atos de Jesus Cristo como chave hermenêutica para fazermos a ponte do texto bíblico escrito no seu contexto cultural e o nosso contexto hoje decorridos 21 séculos. Para nossa ajuda como intérpretes do texto bíblico para os dias atuais, nós temos tudo o que foi produzido na história e que molda nosso tempo e temos a ação sobrenatural do Espírito Santo que está trabalhando na história da Igreja durante todo este tempo com iluminação e orientação. Por que Jesus Cristo deve ser nossa chave hermenêutica na interpretação das Escrituras? Porque a própria Bíblia ensina assim! A revelação de Deus sempre foi progressiva. Moisés sabia mais da revelação de Deus do que Abraão, Davi mais que eles dois, os profetas do Antigo Testamento sabiam mais que os outros, mas isto chegou no auge quando veio Jesus Cristo. Ele é a revelação máxima de Deus para nós: “No passado, por meio dos profetas, Deus falou aos pais muitas vezes e de muitas maneiras; nestes últimos dias, porém, ele nos falou pelo Filho” (Hebreus 1.1,2). A revelação especial, através da Bíblia, envolve eventos históricos únicos relacionados à libertação divina os quais encontram seu clímax na encarnação, expiação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Em toda a história da revelação de Deus a presença e obra de Jesus Cristo é o supremo desvendamento da sua vontade. Todo o Novo Testamento é a recitação dos atos de Deus em Cristo (I Coríntios 15.3,4; João 3.16; Romanos 5.8; Hebreus 1.1,2). Toda a Bíblia gira em torno da vida histórica de Jesus de Nazaré (o AT Romanos 16.25,26; os evangelhos, o livro de Atos Atos 1.1, as epístolas e o Apocalipse Apocalipse 1.1).

            Mas, no contexto atual, o que significa usar Jesus Cristo como chave hermenêutica para discernirmos sua vontade na sociedade atual? O Pr Ed responde: “Assim o evangelho é uma profecia contra todas as relações hierarquizadas porque em Cristo Jesus se inaugura a era das relações igualitárias. O evangelho denuncia todas as relações de hierarquia entre os seres humanos porque em Cristo Jesus só existe relações igualitárias onde todos somos irmãos e irmãs” e ainda: “Na fé crista somos iguais, irmãos e irmãs, diferente da fraternidade de iguais do Império Romano, somos iguais porque temos o mesmo Pai. Efésios 4.6 e 3.14 é na filiação a Deus que somos iguais”. Jesus Cristo instituiu uma igualdade entre seus discípulos como se pode ver nestes textos: “Jesus os chamou e disse: ‘Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’” (Mateus 20.25-28). “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Aquele que vive esta relação de igualdade em Cristo, vai agir assim com todas as pessoas. O Pr Ed não nega que haja na sociedade relações de hierarquia funcionais. O que ele diz é que nas relações humanas, na dignidade humana, o evangelho de Cristo estabelece relações igualitárias entre todos os seres humanos, independente da fé, crença ou situação de cada um.

            Mas o que trouxe a ira dos fundamentalistas evangélicos sobre a mensagem do Pr Ed foi o que ele disse acerca do tratamento dado nas igrejas aos gays. Vejamos o que ele disse: “Se queremos ser cartas para o novo mundo, se a igreja quiser ser carta para o novo mundo, nós vamos precisar atualizar a Escritura e vamos ter que usar, vamos ter de fazer esta atualização e ter essa coragem de enfrentar os pecados de gênero de nossa sociedade, de enfrentar a questão da homossexualidade, da homoafetividade e dos gays que frequentam as nossas comunidades, estão dentro das nossas comunidades mas continuam sendo condenados ao inferno por causa de dois ou três textos bíblicos que não foram atualizados”. O Pr Ed não está definindo qualquer coisa em relação à homossexualidade. Ele está fazendo um convite a todos nós para o diálogo da situação dos gays em nossas igrejas, não com uma interpretação literal de alguns versículos bíblicos, mas com os princípios de igualdade que Cristo nos propõe. É um chamado ao diálogo sobre o assunto.

            Procurei mostrar para você, leitor, que o Pr Ed não falou nada que esteja fora do ensino bíblico ou da teologia cristã. E mais: ele está correto em tudo que falou para que a Igreja de Cristo se torne relevante neste mundo. Se você o admira como pastor, continue, pois o que ele fez foi enaltecer o nome de Cristo e nos colocar a serviço do próximo em amor e justiça.

            Mas, por que as redes sociais estão malhando o Pr Ed e tratando-o como se fosse um herege? Preste atenção no que vou lhe dizer. Há no Brasil, importado dos Estados Unidos, um fundamentalismo evangélico que faz a leitura literal das Escrituras, odeia (o verbo é este mesmo: odiar) todo mundo que pensa diferente deles (especialmente se a pessoa for evangélica) e querem controlar a igreja evangélica. Mostrei quem é este grupo num artigo intitulado “Flordelis: a fina flor do fundamentalismo evangélico” que você encontra na minha página no Facebook ou no meu blog (evangelhobendito.blogspot.com). A maioria dos evangélicos segue os líderes deste grupo porque foram doutrinados a isto. Mas os líderes, que são iguais aos fariseus dos tempos de Jesus, olham de cima para baixo para as pessoas, querem sempre se aparecer e controlar milhares de seguidores. Eles não gostam de gays, porque julgam que os gays são os grandes pecadores da humanidade. Por causa disto, fazem este esforço para destruir a reputação de qualquer pessoa que for contra a ideia deles e que fizer qualquer esforço no sentido de orientar a igreja a acolher os gays. Este é o verdadeiro motivo pelo qual eles estão detonando o Pr Ed Kivitz.

            O Pr Ed termina sua mensagem assim: “Eu estou querendo seguir a Jesus para um novo mundo, e eu, graças a Deus, não estou brincando de velho mundo. Eu estou querendo seguir a Jesus para um novo mundo e eu espero que você venha nesta jornada, porque ela é um caminho sem volta para mim e eu espero em Deus que seja um caminho sem volta para você”. Seguir a Jesus, amar e entender as Escrituras, olhar todas as pessoas como iguais (não apenas o pessoal da minha igreja) e, como Jesus, ajudar a criar um novo mundo com amor e justiça, também para mim é um caminho sem volta. Vem conosco seguir a Jesus e amar o próximo?

ISRAEL OU IGREJA: QUAL O POVO DE DEUS?


ISRAEL OU IGREJA: QUAL O POVO DE DEUS?

Professor Whitson Ribeiro da Rocha

 A RELAÇÃO DA IGREJA COM ISRAEL

         Israel é o povo de Deus no Antigo Testamento e a igreja é o povo de Deus no Novo Testamento. Que relação há entre os dois povos? Hoje temos só um povo de Deus (a igreja) ou dois: a Igreja e Israel?
         Yahweh estabelece uma aliança com Israel no Sinai quando o consagra como seu povo e passa a ser o seu Deus (Êxodo 19.3-6).
3 Moisés subiu para encontrar-se com Deus. E do monte o Senhor o chamou e lhe disse:— Assim você falará à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel: 4 “Vocês viram o que fiz aos egípcios e como levei vocês sobre asas de águia e os trouxe para perto de mim. 5 Agora, pois, se ouvirem atentamente a minha voz e guardarem a minha aliança, vocês serão a minha propriedade peculiar dentre todos os povos. Porque toda a terra é minha, 6 e vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” São estas as palavras que você falará aos filhos de Israel.
        Esta aliança estava de acordo com a promessa que Deus havia feito aos patriarcas, especialmente Abraão (Gênesis 12.1-3 “farei de ti uma grande nação ... e todas as famílias da terra serão abençoadas por meio de ti”). Esta aliança foi selada com sangue de animais, com a dádiva da Lei e o rito da circuncisão. O povo de Israel era o povo de Deus.
Mas, mesmo no Antigo Testamento, ficou claro que nem todos os israelitas eram fiéis à aliança de Yahweh (2º Crônicas 36.14-16)
14 Também todos os chefes dos sacerdotes e o povo aumentavam mais e mais as suas transgressões, segundo todas as abominações dos gentios. E contaminaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém. 15 O Senhor, Deus de seus pais, sempre de novo falou-lhes por meio dos seus mensageiros, porque teve compaixão do seu povo e da sua própria morada. 16 Mas eles zombaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as palavras dele e debocharam dos seus profetas, até que a ira do Senhor veio sobre o seu povo, e não houve mais remédio.
Também havia muita hipocrisia legalista naqueles que “formalmente” pareciam fiéis (Isaías 1.4,9,11-17).
4 Ai desta nação pecadora, deste povo carregado de iniquidade! São descendência de malfeitores, filhos que praticam o mal. Rejeitaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, voltaram para trás. 9 Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado alguns sobreviventes, já nos teríamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra. 11 O Senhor diz: “De que me serve a multidão dos sacrifícios que vocês oferecem? Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados. Não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. 12 Quando comparecem diante de mim, quem requereu de vocês esse pisotear dos meus átrios? 13 Não me tragam mais ofertas vãs! O incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados e a convocação das assembleias. Não posso suportar iniquidade associada à reunião solene. 14 As Festas da Lua Nova e as solenidades, a minha alma as odeia; já são um peso para mim; estou cansado de suportá-las.” 15 “Quando vocês estendem as mãos, eu fecho os meus olhos; sim, quando multiplicam as suas orações, não as ouço, porque as mãos de vocês estão cheias de sangue. 16 Lavem-se e purifiquem-se! Tirem da minha presença a maldade dos seus atos; parem de fazer o mal! 17 Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, repreendam o opressor; garantam o direito dos órfãos, defendam a causa das viúvas.”
No entanto, sempre houve um remanescente fiel em toda a história de Israel
(1º Reis 19.18;).
18 Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que não o beijou.
Sofonias 3.12-13
12 “Mas deixarei no meio de você um povo modesto e humilde, que confia no nome do Senhor. 13 O remanescente de Israel não cometerá injustiça. Eles não proferirão mentira, e da sua boca não sairão palavras enganosas, porque serão apascentados, se deitarão, e não haverá quem os atemorize.”
A nova aliança em Jeremias 31.31-34.
31 — Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. 32 Não segundo a aliança que fiz com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; pois eles quebraram a minha aliança, apesar de eu ter sido seu esposo, diz o Senhor. 33 Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no seu coração as inscreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. 34 Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: “Conheça o Senhor!” Porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.
        
Ao vir ao mundo, Jesus tornou-se o próprio remanescente fiel de Yahweh. Ele cumpriu toda a vontade de Deus e foi fiel (Mc 1.11). Mas a nação de Israel rejeitou o verdadeiro Messias de Yahweh (Mateus 21.33-46;). Jesus conta uma parábola para mostrar a rejeição de seu próprio povo.
33 — Escutem outra parábola. Havia um homem, dono de terras, que plantou uma vinha.  Pôs uma cerca em volta dela, construiu nela um lagar, edificou uma torre e arrendou a vinha a uns lavradores. Depois, ausentou-se do país. 34 Quando chegou o tempo da colheita, o dono da vinha mandou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que cabiam a ele. 35 Mas os lavradores, agarrando os servos, espancaram um, mataram outro e apedrejaram ainda outro. 36 O dono enviou ainda outros servos em maior número; e os lavradores fizeram a mesma coisa com eles. 37 Por último, o dono da vinha enviou-lhes o seu próprio filho, pensando: “O meu filho eles respeitarão.” 38 Mas os lavradores, vendo o filho, disseram uns aos outros: “Este é o herdeiro; venham, vamos matá-lo e ficar com a herança dele para nós.” 39 E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram.40 Quando, pois, vier o dono da vinha, que fará àqueles lavradores? 41 Eles responderam: — Fará perecer horrivelmente aqueles malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe entregarão os frutos no tempo certo. 42 Então Jesus perguntou: — Vocês nunca leram nas Escrituras: “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra angular. Isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos”?  43 — Portanto, eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. 44 Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó. 45 Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, entenderam que Jesus falava a respeito deles; 46 e, embora quisessem prendê-lo, tinham medo das multidões, porque estas o consideravam como profeta.
         Outro texto que mostra a rejeição definitiva do povo judeu ao Messias Jesus é o de Mateus 27.22-25
20 Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e condenasse Jesus à morte. 21 De novo, o governador perguntou:
— Qual dos dois vocês querem que eu solte? Eles responderam: — Barrabás! 22 Pilatos lhes perguntou: — Que farei, então, com Jesus, chamado Cristo? Todos responderam: — Que seja crucificado! 23 Pilatos continuou: — Que mal ele fez?
Porém eles gritavam cada vez mais: — Que seja crucificado! 24 Vendo Pilatos que nada conseguia e que, ao contrário, o tumulto aumentava, mandou trazer água e lavou as mãos diante do povo, dizendo: — Estou inocente do sangue deste homem; fique o caso com vocês! 25 E o povo todo respondeu: — Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos! 26 Então Pilatos lhes soltou Barrabás. E, depois de mandar açoitar Jesus, entregou-o para ser crucificado.
Veja o que Pedro diz em Atos 2.23-24
22 — Israelitas, escutem o que vou dizer: Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus diante de vocês com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou entre vocês por meio dele, como vocês mesmos sabem, 23 a este, conforme o plano determinado e a presciência de Deus, vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus.
Com esta última e definitiva rejeição, a nação racial de Israel sai fora da aliança. No entanto, a aliança continua inalterada. Mas, com quem? Com Jesus, o remanescente fiel de Deus e, agora, com os seus discípulos que estão nele. Muitos judeus creram em Jesus formando seu povo (Atos 6.7; 9.31).
7 A palavra de Deus crescia e, em Jerusalém, o número dos discípulos aumentava. Também um grande grupo de sacerdotes obedecia à fé.
31 Assim, a igreja tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor; e, no consolo do Espírito Santo, crescia em número.
Mais tarde, também os gentios creram no Senhor e entraram nesta comunidade (Atos 10; 11.19-21). Esta comunidade chamou-se Igreja.
        
A igreja é a continuidade espiritual do Israel do Antigo Testamento (Gl 6.14-16; Tg 1.1; 2.1; Gl. 3.26-29).
Gálatas 6 14 Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo. 15 Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. 16 E, a todos os que andarem em conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus.
Tiago 1 1 Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Diáspora. 1 Meus irmãos, vocês não podem ter fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, e ao mesmo tempo tratar as pessoas com parcialidade.
Gálatas 3 26 Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; 27 porque todos vocês que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram. 28 Assim sendo, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus. 29 E, se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.
A igreja é o novo Israel de Deus. Suas marcas não são físicas e nem externas como a raça, a circuncisão ou a Lei, mas são espirituais e interiores como a fé no Senhor Jesus Cristo e um novo coração (Jeremias 31.31-36; Romanos 2.28,29; 4.9-25; 9.6-8; Gálatas 3.29).
A partir de Cristo, o povo de Deus é a igreja que congrega judeus e gentios convertidos (Efésios 2.11-16).
11 Portanto, lembrem-se de que no passado vocês eram gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisão, que é feita na carne por mãos humanas. 12 Naquele tempo vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. 13 Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo. 14 Porque ele é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. 15 Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz, 16 e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz, destruindo a inimizade por meio dela.
Os israelitas que se converterem farão parte da igreja. Os que permanecerem incrédulos estão perdidos como os gentios incrédulos (Romanos 9.6-8;27-10.1).
6 E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas, 7 nem por serem descendentes de Abraão são todos filhos. Pelo contrário: “Por meio de Isaque será chamada a sua descendência.” 8 Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência. [...] 27 Mas Isaías clama a respeito de Israel: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. 28 Porque o Senhor cumprirá a sua palavra sobre a terra, de forma plena e em breve.” 29 Como Isaías já disse: “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, nós nos teríamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra.” 30 Que diremos, então? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, a saber, a justificação que decorre da fé, 31 e que Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. 32 Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras. Tropeçaram na pedra de tropeço,33 como está escrito: “Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de ofensa, e aquele que nela crê não será envergonhado.”
1 Irmãos, o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus em favor deles é para que sejam salvos.
        
Há uma promessa de Deus de que, no futuro, Deus vai salvar a nação racial de Israel (Romanos 11.23-32). Observe neste texto que a nação, na sua grande maioria, vai se converter ao Senhor Jesus e, desta forma, fazer parte da Igreja (Rm 11.23-27).
23 Eles (Israel) também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo. 24 Pois, se você foi cortado daquela que, por natureza, era uma oliveira brava e, contra a natureza, foi enxertado numa oliveira boa, quanto mais esses, que são ramos naturais, serão enxertados na sua própria oliveira! 25 Porque não quero irmãos, que vocês ignorem este mistério, para que não fiquem pensando que são sábios: veio um endurecimento em parte a Israel, até que tenha entrado a plenitude dos gentios. 26 E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: “O Libertador virá de Sião e afastará de Jacó as impiedades. 27 Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.”
         Até lá, a nação racial de Israel está fora da aliança e a Igreja é o verdadeiro Israel de Deus. Compete à Igreja testemunhar aos judeus (bem como a todos os outros povos) através da pregação do evangelho.

VÍDEO SOBRE O DEBATE "ISRAEL OU IGREJA: QUAL O POVO DE DEUS?"

Debate sobre o tema: "Israel ou igreja: qual o povo de Deus?" realizado pelo Seminário Teológico Batista de Presidente Prudente com os professores Éverson Spolaor e Whitson Ribeiro da Rocha em 19/02/2019.


https://www.facebook.com/STBPP2017/videos/300033574048633/?notif_t=page_admin&notif_id=1483493452393467

MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO EM PAULO - TCC


                       FACULDADE TEOLÓGICA BATISTA DE SÃO PAULO

NA IGREJA, MULHER PODE MANDAR EM HOMEM? UMA INVESTIGAÇÃO DA POSSIBILIDADE DO MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO NOS ESCRITOS E
TEOLOGIA DO APÓSTOLO PAULO


                                                    Whitson Ribeiro da Rocha



SÃO PAULO
2015








   Whitson Ribeiro da Rocha 


NA IGREJA, MULHER PODE MANDAR EM HOMEM? UMA INVESTIGAÇÃO DA POSSIBILIDADE DO MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO NOS ESCRITOS E
TEOLOGIA DO APÓSTOLO PAULO


Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito final no curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.
                       

Orientador: Prof. Ms. Alberto Kenji Yamabuchi

                                              

SÃO PAULO
2015

RESUMO

Este trabalho investiga os escritos e teologia do apóstolo Paulo para saber se ele deu abertura para um futuro ministério pastoral feminino. Analisa três textos relevantes para o assunto que são: Gálatas 3.26-29, I Coríntios 11-14 e I Timóteo 2.8-15. Explana a teologia paulina que fala de duas eras: a atual, que procede da queda de Adão e a nova era que foi inaugurada por Cristo com sua morte e ressurreição. O povo da nova era de Cristo é a Igreja, comunidade dos que creem nele. A Igreja vive em duas eras ao mesmo tempo e deve conciliar estas vivências. Viver na nova era de Cristo significa alcançar os princípios desta nova vida, que é a de Deus. Viver na era antiga significa discernir, dentro de cada sociedade e cultura, o que é bom e o que é mal. Este discernimento leva a Igreja a conformar-se com os costumes locais e temporais, mas com o firme propósito de modificá-los, sempre de acordo com os princípios superiores da nova era em Cristo. Três costumes da época de Paulo são apresentados: a poligamia, a escravidão e a subordinação da mulher na sociedade e na Igreja. Para cada um desses problemas, Paulo pode conviver, pois são costumes sociais da presente era. Ele faz isto com o firme propósito de não colocar “pedras de tropeço” na Igreja a fim de que o evangelho possa ser pregado sem restrição e mais pessoas sejam salvas. Mas, ao mesmo tempo, sua orientação provocará uma erosão das bases filosóficas e ideológicas que sustentam estes costumes. Por fim, os princípios superiores da teologia paulina levam ao entendimento de que a mudança da cultura da sociedade leva a uma nova postura da Igreja no sentido de vivenciar seus princípios superiores. Com a mudança cultural, abre-se a possibilidade da mulher ser pastora. Continuam de pé os princípios paulinos de que não devemos colocar “pedras de tropeço culturais” para que as pessoas venham a Cristo e que nele “não há homem, nem mulher”.

Palavras-chaves: Ministério pastoral feminino.  Pastora. Teologia paulina da mulher. Costumes e princípios paulinos sobre a mulher.




SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO ............................................................................................. 4
2 TEXTOS PAULINOS RELEVANTES SOBRE O MINISTÉRIO
   PASTORAL FEMININO ............................................................................... 5
     2.1 GÁLATAS 3.26-29 ............................................................................... 5
     2.2 I CORÍNTIOS 11-14 ............................................................................. 8
     2.3 I TIMÓTEO 2.8-15 ................................................................................15
3 UMA PROPOSTA TEOLÓGICA PAULINA PARA O MINISTÉRIO
   PASTORAL FEMININO .............................................................................. 20
     3.1 A TEOLOGIA PAULINA DAS DUAS ERAS....................................... 20
     3.2 A VIVÊNCIA DA IGREJA NAS DUAS ERAS..................................... 21
     3.3 A POSSIBILIDADE PAULINA DO MINISTÉRIO PASTORAL
           FEMININO............................................................................................ 30
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................... 33
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................... 35



1    INTRODUÇÃO


                   O assunto “ministério pastoral feminino” é extremamente polêmico no movimento evangélico brasileiro. Na Convenção Batista Brasileira, por exemplo, existe uma ferrenha discussão hoje sobre o assunto. Em 2012, em sua assembleia anual, a Ordem dos Pastores Batistas do Brasil deliberou que pastoras podiam filiar-se à Ordem, mas que, em cada Secção Estadual os pastores filiados decidiriam sobre a aceitação ou não de pastoras (CINTRA, 2015). A mesma discussão ocorre nas igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais. A disputa entre tradicionais (os que não aceitam pastoras) e igualitários (os que aceitam) está muito acirrada, tanto no campo bíblico como no ético-social. Teólogos têm se manifestado sobre o assunto e, como é de praxe, divididos (neste TCC, Culver, Foh, Lopes e Grudem são contrários; Liefeld e Mickelsen são favoráveis).
                   Para os que creem na inspiração divina e inerrância da Bíblia, a última palavra deve vir dela. O exame das Escrituras, nos textos acerca deste assunto, e a consequente teologia derivada devem levar os cristãos a um posicionamento sobre a possibilidade ou não deste tipo de ministério pastoral. Este Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) parte do pressuposto de que toda a Bíblia é inspirada por Deus, que a Escritura deve interpretar a Escritura, sempre com o uso da razão e que o apóstolo Paulo é o autor das treze cartas que levam seu nome no Novo Testamento.
                   Na Bíblia, o apóstolo Paulo é o escritor que mais se manifesta sobre o assunto. Pelo volume de sua escrita e pelo conteúdo teológico que provem de sua pena, Paulo é o escritor bíblico mais citado, tanto a favor quanto contra o ministério feminino. Por este motivo, este TCC tem como escopo estudar o pensamento paulino acerca do assunto. Num primeiro momento, se trabalhará as interpretações e análises de importantes textos paulinos sobre o assunto e, num segundo momento, uma proposta de teologia paulina acerca da possibilidade do ministério pastoral feminino.




2    TEXTOS PAULINOS RELEVANTES SOBRE O MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO


                   O apóstolo Paulo é o grande formulador teológico do Novo Testamento. Numa visão tradicional, ele escreveu treze cartas. Através destes escritos, é possível entender muito do pensamento cristão, pois encontramos neles a base da fé. No entanto, Paulo não escreveu tratados de teologia. Ele simplesmente escreveu a igrejas e pessoas tão somente para orientar acerca de problemas que eles estavam enfrentando. Ele constrói sua teologia a partir de problemas práticos e dá respostas a estes problemas em seu tempo e sua época, mas também formula, além da doutrina, princípios teológicos que valerão para todo tempo e época.
                   Em relação ao assunto ministério pastoral feminino, o apóstolo Paulo formula princípios gerais e universais que nivelam homem e mulher na nova ordem de salvação criada por Jesus e vivenciada na Igreja; nesta nova ordem, todos os dons são dados pelo Espírito Santo a todos os crentes, independente do gênero. Em alguns assuntos, ele teve que adaptar estes princípios às condições culturais de sua época. Três destes assuntos são: a monogamia/poligamia, a escravidão e a liderança pastoral feminina na igreja. Neste sentido, Paulo tanto reafirmou a prática cultural de sua época quanto deu margem para uma mudança de postura em virtude de mudança de cultura, rumo aos princípios gerais e universais expostos em outros textos.
                   Há três textos relevantes sobre assunto que convém analisar: Gálatas 3.26-29, I Coríntios 11-14 e I Timóteo 2.8-15. Outros textos paulinos serão mencionados, mas estes três constituem a base para uma definição acerca do assunto.


2.1 GÁLATAS 3.26-29
                  

                   A carta aos gálatas foi escrita com o propósito de ensinar que a salvação é exclusivamente pela fé em Jesus Cristo. Pregadores judaizantes estavam ensinando que, além da fé em Jesus, era necessária também a obediência da lei de Moisés, inclusive com o rito da circuncisão. A defesa de Paulo do seu evangelho é vigorosa. No capítulo 3, ele diz que a promessa foi dada a Abraão porque ele creu em Deus (v. 6) e os que são da fé em Jesus, esses são filhos de Abraão (v. 7). Isto só tornou-se possível porque Cristo nos resgatou da maldição da lei ao morrer no madeiro, conforme determinação da lei (v. 13,14). Pela fé, os gentios recebem a Cristo e a promessa do Espírito. A lei foi dada por Deus para servir como um aio, tutor, até que a vinda de Jesus pudesse levar os homens a crer nele. Neste contexto, ele desenvolve o texto de 3.26-29.
                   Nos v. 26,27, ele diz: “pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Versão Revisada, Imprensa Bíblica Brasileira, em todo o trabalho). Através da fé, todos são filhos de Deus. A palavra “todos” não deixa dúvida de que qualquer pessoa, independente de qualquer condição humana, pode ser salva e desfrutar deste privilégio. O batismo é o sinal desta nova situação e indica que todos vestiram-se de Cristo, ou seja, são novas criaturas modeladas segundo seu Senhor. A fé em Cristo produziu um novo modo de ser e viver, embora continuem vivendo na velha era. A doutrina da salvação pela fé não ficava restrita ao campo doutrinário, metafísico, mas passava a fazer parte da vida prática, do dia a dia, pois “se alguém está em Cristo, nova criatura é” (II Coríntios 5.17).
                   No v. 28, há a declaração de Paulo dizendo que: “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. O apóstolo coloca alguns pares divididos por raça, meio social e natureza. O primeiro par lembra a divisão racial que existiu em toda a história do povo de Israel de se considerar o “povo eleito” e, desta forma, diferenciar-se de todos os outros povos. Na fé em Cristo, não existe mais raça (nacionalidade) escolhida. O segundo par é formado pelas normas da sociedade: escravos e livres. Esta divisão social nada significa na fé. Para a época, esta é uma ideia revolucionária já que a prática da escravidão estava enraizada em todo o mundo antigo. O terceiro par vem da natureza: “macho” e “fêmea”, palavras que se caracterizam por definir a sexualidade de cada indivíduo humano. Homens e mulheres ocupam o mesmo patamar na presença de Cristo. Não há mudança humana e externa na vida destas pessoas: o homem continua sendo homem, igualmente a mulher, o escravo continua sendo escravo. Tudo continua sendo absolutamente igual na sociedade. Isto faz parte da teologia paradoxal de Paulo do “já” e do “ainda não” em relação à salvação operada por Cristo que se manifestava numa era atual e na era vindoura simultaneamente. Mas, no que envolve a fé em Cristo, e isto abarca a Igreja, todas estas distinções humanas se desfazem e estas pessoas são totalmente niveladas em Cristo. Todas elas tornam-se um em Cristo. Ou seja, não apenas são niveladas como também são unidas a ponto de serem um só povo na pessoa de Cristo. A unidade da humanidade é conseguida e vivenciada em Cristo.
                   Ainda em relação ao v. 28, Lopes (2015, p. 5-7) não vê neste texto a abolição da subordinação feminina e de igualdade de funções no ministério pastoral. Argumenta com quatro objeções à utilização deste texto para o ministério pastoral feminino. A primeira objeção diz respeito ao objetivo do texto que é tratar da nossa posição diante de Deus quando cremos em Cristo e não das funções que homens e mulheres desempenham na Igreja. A segunda é que Paulo enraíza a subordinação feminina, não na queda, mas na própria criação. A terceira objeção diz respeito à palavra “um” no texto que significa unidade de todos em Cristo e não igualdade de funções. A quarta objeção é que Cristo não aboliu, na presente era, os efeitos do pecado e os castigos quando pecaram. A primeira e a terceira objeções são textuais. De fato, o texto fala da nossa posição em Cristo que nos foi dada mediante nossa fé nele. A questão é se esta nova posição não traz implicações de caráter prático para a relação homem-mulher. Se, em Cristo, não há homem nem mulher, será que, em Cristo, a mulher permanece subordinada ao homem? Será que, em Cristo, o escravo permanece subordinado ao livre? Ou o grego ao judeu? Paulo está lançando um princípio novo decorrente da posição que os crentes têm em Cristo, qual seja, esta nova posição acabou com as diferenças e os igualou. A aplicação disto nas diversas sociedades se dará conforme as culturas de cada uma delas, mas o princípio está dado e afetará a questão do ministério pastoral feminino nas culturas onde isto couber. Em relação à unidade, segue-se o mesmo pensamento, pois não pode haver unidade com subordinação entre as pessoas envolvidas. A segunda e a quarta objeções não são textuais. A ideia de que a subordinação da mulher ao homem começou no Éden ou na queda é muito discutida na teologia e não há pensamento único acerca deste assunto entre os teólogos que creem na inspiração das Escrituras. Se, de fato, Cristo não aboliu, na presente era, os efeitos do pecado, também é certo que ele iniciou uma nova era cujos propósitos podem, dentro das possibilidades culturais, ser vividos nesta era presente. Se a cultura permite à Igreja vivenciar na prática o “nem homem nem mulher em Cristo” nesta era, por que não se viveria?
                   No v. 29, se as pessoas são de Cristo, logo são a semente prometida por Deus a Abraão e herdeiros de todas as bênçãos desta promessa. Não há diferenciação nestes privilégios entre uns e outros, entre homens e mulheres.
                   O texto de Gálatas 3.26-29, por ser doutrinário e trazer princípios relativos à salvação em Jesus Cristo é um texto que deve governar outros textos que indiquem aparentes contradições com este ou demonstrem fatos locais e culturais, pois

esta é uma passagem crucial que tende a citar como a que governa a interpretação de todos os demais textos relevantes, ou ao contrário, a ser minimizada quanto às suas implicações. [...] Gálatas 3:28 deve ser visto como um contraste com o status inferior geralmente dado às mulheres nos dias de Paulo. É uma afirmação dramática que não deve ser desprezada, nem diluída com o objetivo de manter uma posição restritiva. Gálatas 3.28 aplica-se a relacionamentos sociais dentro da igreja, e não meramente ao âmbito espiritual da soteriologia. Ao mesmo tempo, não significa que todas as distinções estão eliminadas. Nem uma declaração positiva como Gálatas 3.28, nem uma restritiva, como I Timóteo 2.12, devem ser consideradas à parte da revelação bíblica total sobre o assunto (LIEFELD, 1996, p. 166,168).

Mickelsen (1996, p. 250), seguindo nesta mesma linha de pensamento, escreve que
o erudito do Novo Testamento, F. F. Bruce declarou em seu comentário de Gálatas 3.28: “Paulo estabelece aqui o princípio básico: se as restrições sobre esta questão se encontrarem noutras passagens das cartas paulinas(...), essas terão de ser entendidas em relação a Gálatas 3.28, e não vice-versa”.

                  

2.2 I CORÍNTIOS 11-14
                  

                   Os capítulos 11-14 de I Coríntios tratam de questões relativas ao culto cristão. Visto que havia problemas em relação a alguns aspectos, Paulo escreve no sentido de orientar a igreja. Em 11.2-16, ele trata da questão do uso do véu por parte das mulheres no culto público. Em 11.17-34, da celebração da Ceia do Senhor. No capítulo 12, ele fala dos dons espirituais. I Coríntios 13 é o grande capítulo sobre o amor. Em 14.1-25, ele discute acerca do dom de línguas e profecias no culto. E, finalmente, em 14.26-40 acerca da ordem e decência no culto cristão. Há dois textos que falam mais acerca da posição da mulher na igreja: 11.2-16 e 14.26-40.
                   O contexto cultural que permite entender este texto é o seguinte: as mulheres não participavam nos cultos das sinagogas, ao passo que elas tinham grande atividade nos cultos pagãos, mas geralmente associadas a rituais de prostituição cultual. No culto cristão, a mulher tinha parte ativa, tanto quanto o homem e as congregações eram mistas. Em público, a mulher devia usar um véu, em respeito a seu marido e à cultura da época. Há um cuidado social de Paulo para com a figura da mulher, mas
o trecho relativo a 1 Cor 11,2-11 levanta algumas situações complexas concernentes à situação de Paulo envolvendo a disputa por autoridade. O velamento das mulheres, contudo, não foi somente uma questão de falta de decoro ou oriunda dos fatos de alguns membros da comunidade de Corinto se sentirem constrangidos pela atuação das mulheres, mas o próprio ato de profetizar era visto como uma experiência direta com o divino, o que concedia autoridade a quem o fizesse (SILVA, 2013, p. 16).

                   No texto de 11.2-16, Paulo começa dizendo que os louva porque eles mantêm as tradições conforme ele as deu. Convém lembrar que, naquele momento, eles não tinham ainda o Novo Testamento, que estava em formação. O ensino das tradições abarcava os costumes éticos e sociais advindas do próprio Evangelho. No v. 3, ele diz: “quero, porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher e Deus a cabeça de Cristo”. A palavra “kephale, καφαλη” cabeça é interpretada em dois sentidos: a de “autoridade, liderança” ou como “fonte”. Liefeld (1996, p. 161), acerca destes dois sentidos possíveis diz que

os tradicionalistas tendem a presumir que cabeça sempre quer dizer “governo” ou “autoridade”, e interpretam Efésios 5.22-23, a respeito de esposas e maridos e 1 Coríntios 11.2-16, a respeito da cobertura da cabeça. Outros eruditos têm demonstrado que cabeça é termo empregado para significar “fonte”. Embora os eruditos estejam tratando das mesmas evidências, a diferença na seleção e avaliação delas levam-nos a soluções fortemente conflitantes. Um estudo que selecionou certo número de usos da palavra “cabeça”, em sentido figurado, num total de 2.000 ocorrências, de início pareceu apoiar os significados de “governo” e “chefia”, mas a metodologia usada tem sido fortemente criticada. [...] No contexto mais amplo de Efésios kephalf significa tanto “governo” (1.22) como “fonte” (1.15-16).

Mesmo que o significado de “cabeça” seja a de autoridade deve-se notar que ela é funcional, pois Deus sendo o cabeça de Cristo não indica superioridade ontológica. Ainda sobre o significado do termo “cabeça”, Mickelsen (1996, p. 235) afirma que
o dicionário mais abrangente da língua grega daquele período de que dispomos hoje, em inglês, é o compilado por Liddell, Scott, Jones e McKenzie, cobre a língua grega clássica e o coiné (Koiné), de 1.000 a.C. até cerca de 600 d.C. – portanto, um período de quase mil e seiscentos anos, incluindo a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento). O dicionário relaciona cerca de vinte e cinco possíveis significados figurados para kephale (“cabeça”) os quais eram usados na literatura grega antiga. Entre estes significados estão: “topo”, “beirada”, “ápice”, “origem”, “fonte”, “boca”, “ponto inicial”, “coroa”, “término”, “consumação”, “soma” e “total”. Essa lista não inclui nosso emprego comum em inglês com o sentido de “que tem autoridade sobre”, “líder”, “diretor”, “graduação superior” e outros sentidos semelhantes. (grifo do autor).

                   Nos v. 4-6, Paulo recomenda que todo homem que orar ou profetizar, que o faça com a cabeça descoberta, caso contrário envergonharia a si próprio. Este é um costume cultural da época. Acerca das mulheres, Paulo diz que toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a si própria, pois
nos dias de Paulo, mulher sem véu, com cabelos soltos ou curtos, era considerada infame. O uso do véu perpassava várias culturas, entre elas a judaica e a greco-romana, que dominavam o ambiente à época. Por isto, as honradas deviam ter o cabelo longo, preso e bem penteado. O cabelo solto era visto como um estímulo erótico, por isso, usá-lo solto em público era um ultraje ao pudor, pois era considerada uma parte privada do corpo, que só o esposo podia olhar [...] é provável que as mulheres-profetas achassem que podiam desempenhar seu papel na liturgia com a cabeça descoberta, pois a casa, lugar onde também se celebrava o culto cristão, não era um lugar público (FOULKES apud MATOS, 2004, p. 91-92).


Observe-se que as mulheres tinham a liberdade de orar e profetizar no culto cristão (v. 5), mas que deveriam fazê-los conforme os costumes sociais de sua época. No v. 7, Paulo diz: “pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, pois é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem”. É uma obrigação do ser humano não misturar os papéis culturais de homem/mulher. Não deve haver nem confusão nem mudança. Paulo enxerga nesta atitude da cultura de cobrir ou não a cabeça uma forma boa e correta de expressar uma verdade bíblica da criação: Deus criou o homem e deste formou a mulher. É esta verdade que ele enfatiza nos v. 8-10. Paulo considera correta a atitude cultural na qual a mulher demonstra “submissão” tanto a seu marido como aos homens em geral ao adotar o sistema de divisão masculino/feminino dentro da sociedade patriarcal na qual viviam. No entanto, esta “submissão” não impede que a mulher ore e profetize no culto público, que são sinais de autoridade.
                   Nos v. 2-10, Paulo está falando da necessidade de se seguir os costumes culturais para que não haja vergonha no culto cristão. Mas, nos v. 11 e 12, ele dá uma guinada no texto: “todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem independente da mulher, pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus”. Paulo estava falando da cultura, mas agora ele começa dizendo: “todavia, no Senhor”, o que indica que ele fala da nova ordem criada em Cristo liberta das amarras culturais de cada povo. Nesta nova ordem, homens e mulheres são iguais: um não vive sem o outro; homem e mulher se complementam e por isso devem viver juntos em unidade. Na criação, a mulher é tirada para fora do homem, mas no nascimento, o homem é tirado para fora da mulher. Isto restabelece o equilíbrio e a unidade. Então ele diz: “mas tudo vem de Deus”. Tanto o homem como a mulher foram criados com sexualidades diferentes por desejo do próprio Deus e esta convivência de interdependência e igualdade é o desejo e a proposta dele para a Igreja.
                   Nos v. 13-16, Paulo volta ao dia-a-dia e diz que há costumes na sociedade dos coríntios acerca do que é decoroso e honroso na relação homem/mulher e que a igreja cristã deve se submeter a fim de não prejudicar a sua boa presença na comunidade. O princípio que Paulo segue está bem explicitado em I Coríntios 10.32-33: “não vos torneis causa de tropeço nem a judeus, nem a gregos, nem a igreja de Deus; assim como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos”.
                   Há algumas conclusões acerca do texto do “véu das mulheres” (I Coríntios 11.2-16). A primeira é que existe uma forma de relacionamento homem/mulher ditada pela sociedade em que cada igreja cristã se encontra. Esta forma de relacionamento define os papéis culturais de masculino e feminino dentro da sociedade. O objetivo da sociedade e, convergentemente, de Paulo, é que estes papéis não se misturem, mas continuem distintos. Onde estes papéis são deliberadamente afrontados não pode haver oração, profecia ou mesmo culto público que transmita a mensagem do evangelho para a sociedade. Daí a ordem paulina de cobertura para a mulher no culto e da não cobertura para o homem. A segunda conclusão é que, paradoxalmente, no Senhor, sem os costumes específicos das sociedades, o relacionamento homem/mulher é de igualdade e complementariedade. As mulheres podem orar e profetizar da mesma forma que os homens e têm parte ativa nos cultos tanto quanto os homens. Eles são iguais na criação e na redenção. Esta é a nova sociedade que Deus está formando.
                   No capítulo 12, Paulo fala a respeito dos dons espirituais. Dentre os vários ensinos que o apóstolo dá, destaca-se o v. 11: “mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas distribuindo particularmente a cada um como quer”. Ou seja, na distribuição dos dons, o Espírito é quem decide que dom dará a cada um. A decisão é dele e não humana. Não há, no texto, nenhuma menção de que ele restrinja dons devido ao sexo da pessoa. Paulo cita o dom de profecia (v. 10) e já havia dito que mulheres profetizavam (11.5). No v. 25, ele diz que a divisão dos dons é “para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros”. A igreja era composta de homens e mulheres. O que ele quer dizer com “igual cuidado uns dos outros”? Não pensava ele numa igreja de iguais ao invés de uma igreja hierarquizada onde a mulher sempre ocupa um lugar subalterno? O v. 27 diz: “ora, vós sois o corpo de Cristo, e individualmente seus membros”. Na visão paulina, a igualdade entre homens e mulheres na igreja é superior a qualquer hierarquização trazida pelos costumes sociais.
                   No capítulo 13, Paulo exalta o amor como a atitude principal que deve caracterizar a igreja e o indivíduo cristão. Falando acerca da relação entre os dons e o amor, ele diz: “e ainda que eu tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (13.2). Pode-se ter qualquer dom, inclusive o pastoral, mas sem amor, ele nada vale. Falando acerca das características do amor, Paulo diz no v. 5: “não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses”. A ideia é que a pessoa que ama não envergonha os outros. Era uma questão de amor que as mulheres de Corinto não envergonhassem socialmente os homens, cultuando com a cabeça descoberta. Mas, era igualmente importante, que os homens amassem as mulheres de sua comunidade, não buscando apenas os interesses masculinos, mas também os delas.
                   No capítulo 14.1-25, Paulo demonstra que o dom de profetizar (trazer uma mensagem de Deus compreensível e racional) é superior ao dom de línguas (trazer uma mensagem de Deus de forma incompreensível). Quando fala da profecia, ele diz: “mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação” (v.3). Profetizar, entre outras coisas, era uma forma de ensino. Nos v. 23,24, ele diz: “se, pois, toda a igreja se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos e incrédulos, não dirão porventura que estais loucos? Mas se todos profetizarem, e algum incrédulo ou indouto entrar, por todos é convencido e por todos é julgado” (grifo nosso). Observa-se que toda a igreja pode profetizar, o que inclui homens e mulheres.
                   No texto de 14.2-40, Paulo orienta como deve ser um culto público. Há vários princípios elencados: o culto deve ser variado e com a participação de todos; tudo deve ser feito para edificação; deve ser dinâmico e com ordem e decência. Os v. 33b a 35 parecem restringir às mulheres o direito de falar e ensinar na igreja:
como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja.

Há três ordens nestes versículos, todas dirigidas às mulheres: “silenciai”, “subordinem-se” (voz reflexiva) e “perguntai”. Numa primeira leitura, Paulo ordena que, nos cultos públicos, a mulher fique em silêncio e não fale nada. O aprendizado delas, quando houvesse dúvidas, seria feita em casa perguntando a seus maridos. Como interpretar este texto, se nos textos anteriores de I Coríntios 11-14, ele deu liberdade às mulheres de orar e profetizar em público e de participar ativamente no culto? Segundo Mickelsen (1996, 242-243),
há pelo menos duas possibilidades. É possível que Paulo esteja dizendo às esposas que parem de interromper o culto ao fazer perguntas a seus maridos, querendo saber o significado de tudo. Antes, deveriam perguntar-lhes em casa. Talvez Paulo estivesse fazendo menção a ensinos falsos dos judaizantes, que desejavam que as mulheres ficassem em silêncio na igreja, como tinham de ficar na sinagoga. [...] Usualmente, quando Paulo fala “da lei”, refere-se ao Antigo Testamento. Todavia, não existe uma passagem no Antigo Testamento que digam que as mulheres devem estar subordinadas ou que não podem falar em público. Então a que lei se refere esta passagem? Pode se referir a uma das numerosas leis locais, que proibia às mulheres falar em reuniões públicas. Ou pode referir-se à interpretação rabínica do Antigo Testamento. Se esta passagem for uma citação dos judaizantes, é provável que se refira a uma interpretação rabínica. Há outras possibilidades, ainda, mas ninguém pode dogmatizar com autoridade, sobre o sentido exato desses versículos, porque não conhecemos a situação sociocultural exata. Paulo o sabia, os coríntios o sabiam. Nós não o sabemos. [...] Visto que esses dois versículos parecem contradizer o que Paulo dissera anteriormente nesta carta, bem como o próprio costume de Paulo, concernente a Priscila e suas outras “colaboradoras” (“meus cooperadores em Cristo Jesus”), não ousamos usá-los com o objetivo de anular tudo o mais que Paulo escreveu e praticou.

Outra estudiosa, Foh (1996, p. 101-102) assim se exprime sobre este texto:
o verbo usado junto com “silêncio” nesta passagem tem a conotação de ausência de fala. Então seria absoluto o silencio exigido das mulheres? Se isso for verdade, as mulheres não poderiam cantar, participar de jograis, de leituras responsivas, orar em voz alta, nem mesmo pronunciar a oração dominical. Se assim for, tudo quanto foi dito antes, que envolve falar em línguas, profetizar e compartilhar verbalmente na igreja, não diz respeito à mulher e deveria ter um carimbo: “só para homens”. A expressão “vós todos” de 14.5 deveria excluir as mulheres. [...] Além disso, Paulo emprega o termo “conservem-se as mulheres caladas” em 1 Coríntios 14, mas não sugere um silêncio absoluto, pois o contexto define que tipo de silêncio o apóstolo tem em vista. “Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (1 Co 14.28), e, “se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro” (1 Co 14:30). Em nenhum dos casos, presume-se que o silêncio deva ser absoluto; a pessoa que tiver o dom de falar em línguas pode certamente participar de cânticos, de orações e assim por diante, ainda que esse crente não possa falar em línguas sem que haja intérprete. [...] O apelo de Paulo à lei em geral é sentido como um golpe tremendo para manter as mulheres sob controle. Mas há outra maneira de ver a questão. A lei pode ser vista como um limite. A mulher não precisa submeter-se naquilo que a lei não exige; a mulher só deve submeter-se segundo as exigências da lei. O Antigo Testamento permitia que a mulher profetizasse; portanto, 1 Co 14.34 não proíbe às mulheres o dom de profetizar. O que a lei exige é a submissão, e não o silêncio. O mandamento no v. 34 pode ser traduzido assim: “mas devem submeter-se”. “Esteja subordinada” ou “fique sujeita” são formas passivas que ressoam uma nota de servilismo. Mas o verbo grego é reflexivo. Trata-se de um ato que a própria pessoa executa por si mesma, ou de si mesma. A mulher, sendo ontologicamente igual ao homem, de vontade própria submete-se em reconhecimento de sua posição de mulher. O v. 35 também define o sentido de silêncio, ou de deixar de falar, que Paulo tem em mente. Falar seria entendido então como fazer perguntas. O diálogo, com perguntas e respostas, era a forma comum de estudo acadêmico do primeiro século. Não se permitia à mulher que levantasse perguntas em diálogo, porque esta era uma forma de ensino.
                  
                   Como visto acima, estudiosos divergem sobre a interpretação do texto, mas não afirmam que o silêncio da mulher é absoluto, como parece ser a orientação do texto à primeira vista. Culver, que advoga a ideia conservadora de que a mulher deve permanecer em silêncio na igreja, interpreta este texto assim: “parece que a ideia é no que concerne ao ato de ensino público na igreja, as mulheres deveriam estar em silêncio” (1996, p. 38) (grifo do autor). Outra observação é que o “silêncio” da mulher sempre é acompanhado de explicações possíveis sobre o que acontecia na época em que o texto foi escrito, quer seja intérprete conservador, quer seja igualitário.
                   Outro problema na interpretação destes textos é se o culto e sua liturgia no primeiro século eram exatamente iguais aos cultos atuais com uma liderança e liturgias formais. Ridderbos (2014, p. 534), um teólogo perito em Paulo, afirma acerca dos cultos públicos:
agora, no que ser refere a estas reuniões da Igreja, de forma alguma é o caso que em Paulo tenhamos recebido informações detalhadas ou prescrições. Nas epístolas que foram preservadas e chegaram até nós, ele fala dessas reuniões incidentalmente, na maioria das vezes, com relação a certos abusos e pressupondo muitas coisas que, com frequência, não ficam claras para nós e sobre as quais gostaríamos de saber mais. Assim, desde o início, é difícil, tomando por base as epístolas paulinas, determinar se e até que ponto estas reuniões estavam sob a orientação específica de pessoas designadas para este propósito. Esta questão está, obviamente, ligada de maneira muito próxima àquela da presença de pessoas com cargos na Igreja de um modo geral. Tomando-se como ponto de partida uma passagem como 1 Coríntios 11.17ss, há muito pouco que deixe evidente uma ordem fixa; antes parece haver uma escassez de liderança. O mesmo aplica-se a 1 Coríntios 14, onde Paulo vê-se obrigado a colocar claramente para a Igreja que Deus não é, afinal de contas, Deus de confusão (v. 33). Por outro lado, tudo isso certamente não é prova de que nas reuniões da igreja não havia, geralmente, uma liderança [...] Com tudo isso, podemos considerar que muito mais coisas foram pressupostas do que aquilo que é expressado com todas as letras. No entanto, fica evidente pela maneira como, também a esse respeito, Paulo dirige-se continuamente à Igreja e não a uns poucos que ocupam posições de liderança ou cargos, o quanto os encontros da Igreja não são uma reunião hierárquica, ou oferecidos por umas poucas pessoas “santas”, mas têm um caráter plenamente congregacional.

Nas discussões atuais sobre os textos paulinos, há uma tendência de transportar a hierarquia e liturgia dos cultos atuais para interpretar os cultos do I século. Aqueles eram cultos bastante informais, realizados nas casas de pessoas da comunidade, e contando com a participação de muitos como se infere de I Coríntios 14.26. Os cultos tinham a participação ativa de mulheres (I Co 11.5).


2.3 I TIMÓTEO 2.8-15
                  

                   Outro texto bastante controvertido sobre o assunto é I Timóteo 2.8-15. A primeira carta de Paulo a Timóteo tem como objetivo orientar o jovem pastor na sua tarefa de organizar a igreja. Uma das razões de preocupação de Paulo era em relação aos falsos ensinos que grassavam em Éfeso nesta época: “como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasse em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinassem doutrina diversa” (1.3). Éfeso era uma cidade caracterizada pelo templo à deusa Diana (Ártemis) e onde Paulo passou por grande perigo de vida ao pregar o evangelho (Atos 19.23-41). A adoração desta deusa envolvia a prostituição cultual.
                   É neste ambiente de heresias e promiscuidade que temos de entender o texto de I Timóteo 2.8-15. No v. 8, Paulo demonstra seu desejo de que os homens em todo lugar levantem mãos santas, sem ira e nem contenda. O que caracteriza o homem cristão não é a dominação, mas a plena vivência de uma santidade prática que busca Deus e sua vontade e não discussões humanas carregadas de ira. “A preocupação de Paulo para com homens e mulheres não se focaliza nos aspectos externos, mas na condição do coração que causa os sinais externos” (FOH, 1996, p. 96).
                   Dos versos 9-15, o apóstolo fala às mulheres. No v. 9, ele começa com a expressão “do mesmo modo”. Isto significa que o objetivo do ensino que foi dado ao homem, agora é dada à mulher: uma vida de santidade prática. Nos v. 9 e 10, ele faz um contraste entre a exterioridade e a interioridade da mulher:
quero, do mesmo modo, que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças ou com ouro, ou pérolas ou vestidos custosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras.

Os cabelos trançados, ouro, pérolas e roupas caras faziam parte tanto das mulheres da alta sociedade como também das prostitutas, inclusive as cultuais. Mickelsen (1996, p. 246) fala deste contexto:
a maior parte das mulheres gregas casadas usava uma catastola, um roupão que descia até os pés, preso por um cinto. Um traje muito modesto. A respeito de quem Paulo estava escrevendo? Aqui devemos levar em consideração o contexto histórico e cultural, bem como o contexto literário. Em Éfeso, com seu templo enorme erguido à deusa Artemis, havia centenas de sacerdotisas sagradas que provavelmente também serviam como prostitutas cultuais. Também havia centenas de hetaerae, mulheres gregas mais educadas, acompanhantes regulares e com frequência parceiras sexuais extramaritais de homens gregos das classes superiores. É possível que algumas dessas mulheres se tenham convertido e estivessem usando suas roupas caras, indecorosas na igreja. Visto que as hetaerae com frequência eram professoras respeitáveis de homens na Grécia (muitas delas são mencionadas na literatura grega), com toda probabilidade estavam tornando-se professoras depois de ingressar na igreja. Aparentemente, a falta de castidade e modéstia era um problema real entre algumas mulheres da igreja de Éfeso, pois Paulo menciona duas vezes nesta seção (I Tm 2.9,15) ser necessária a castidade (no grego, sophrosyne).

O pedido de Paulo é as mulheres cristãs sejam diferentes delas. Em primeiro lugar, não dando tanto valor ao que é externo embora declare que as suas vestimentas devem ser bem arrumadas e caracterizadas pelo decoro social e autocontrole. Este comportamento acerca do vestuário é conveniente para mulheres piedosas (tementes a Deus). Mas, acima de tudo, o que deve caracterizá-las socialmente é a prática de todo tipo de boas obras. A preocupação delas deve ser fazer o bem às pessoas.
                   Neste contexto, poderia ocorrer que as mulheres assumissem a liderança e o ensino da igreja cristã. Preocupado com o sistema de sua época, que é patriarcal, Paulo continua sua orientação no v. 11: “a mulher aprenda em silêncio com toda a submissão”. Aqui há um aspecto positivo e um problema de tradução. O aspecto positivo é que a mulher cristã pode “aprender”. O que era negado em outras religiões da época, onde as mulheres eram usadas como objetos ou completamente ignoradas, no cristianismo valoriza-se a mulher como pessoa que pode aprender e crescer intelectualmente. Aprender não é só para os homens, é para todos. O problema de tradução encontra-se na palavra traduzida como “silêncio”. No texto grego, “esukia” pode significar “silêncio”, mas o melhor sentido é “tranquilidade, calma”: “a palavra expressa a tranquilidade em geral” (RIENECKER; ROGERS, 1985, p. 460). A mulher deveria aprender, não em silêncio, mas com tranquilidade, ou seja, com toda a submissão. Não cabia a ela, pelo seu comportamento, usar a igreja para fazer a mudança de sua sociedade patriarcal. Até porque Paulo sabia que este comportamento traria enorme prejuízo para a igreja na sua tarefa de evangelizar o mundo de então.
                   Continuando em sua orientação, Paulo vai fazer duas restrições às mulheres no v. 12: “pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio”. A primeira restrição é que ele não permitia que a mulher ensinasse. A segunda restrição é que a mulher não poderia dominar homem. O verbo normal da língua grega para exercer autoridade é “exousiazo”. Aqui Paulo não usa esta palavra, mas usa o verbo “authenteo”. Este verbo é usado somente aqui em todo o Novo Testamento. É traduzido como “exercer autoridade, dominar, ser um autocrata, ser dominador” (RIENECKER; ROGERS, 1985, p. 460). “Essencialmente, authentein significa ‘atirar-se’ e em geral tem um sentido negativo [...] outro conceito primitivo era ‘originar’ algo ou ‘ser responsável’ por alguma coisa” (MICKELSEN, 1996, P. 247). Por que Paulo usa uma palavra tão diferente ao invés de usar a palavra comum para o exercício da autoridade? O restante da frase, ao invés de “mas que esteja em silêncio” poderia ser “mas ser (viver) em tranquilidade”, pois trata-se da mesma palavra “esukia” do versículo anterior. As duas restrições: não ensinar e não comandar homens são típicas de sua sociedade.
                   Para dar base escriturística para estas duas restrições impostas à mulher, o apóstolo cita o exemplo de Adão e Eva. Os v. 13-14 dizem assim: “porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”. As razões para que a mulher não ensine e nem domine sobre homens vem de dois exemplos históricos: 1º) Adão foi formado primeiro e depois Eva, que veio dele; 2º) Adão não foi enganado, mas Eva foi e bem enganada, tornando-se transgressora das ordens de Deus. Estes exemplos bastam para justificar que, em sua cultura, a mulher submeta-se ao homem.
                   Paulo poderia ter terminado sua argumentação no v. 14 e seu objetivo teria sido atingido. No entanto, ele escreve o v. 15 com um sentido aparentemente enigmático: “salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação”. Obviamente, esta salvação do v. 15 não é um ensino geral porque se assim fosse, mulheres que não gerassem filhos não poderiam ser salvas e, além disso, a salvação seria pelas obras. A salvação do v. 15 está descrita deste modo para se contrapor aos v. 13 e 14. Em I Coríntios 11.2-10, quando também falou da submissão social da mulher ao homem, Paulo “compensou” esta situação da mulher escrevendo os v. 11 e 12, onde dizia que “no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus”. Outro exemplo do apóstolo fazendo esta “compensação” encontra-se em I Coríntios 7.1-6, quando ele fala das relações sexuais no casamento. No v. 1, ele fala “bom seria que o homem não tocasse em mulher”, olhando do ponto de vista masculino. Quando se esperava que ele falaria da dominação masculina também nas relações sexuais, ele escreve o v. 4: “a mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e também da mesma sorte, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”. Paulo faz o mesmo tipo de “compensação” aqui. O v. 15 é um contraponto aos v. 13-14. As razões da mulher ser subordinada na sociedade e, consequentemente, na igreja, tem como primeiro argumento que Eva foi formada de Adão (v. 13). O contraponto é que a mulher gera filhos, dentre os quais homens. Eles vêm delas. O segundo argumento é que Eva foi enganada; a resposta no v. 15 é que o engano se desfaz quando a mulher, na salvação de Jesus Cristo, permanece na fé, no amor e na santificação (todas estas são qualidades necessárias na salvação) e tudo isto com sobriedade (grego: sofrosyne) que “significa basicamente o autodomínio nos desejos físicos [...] é aquele autocontrole interior habitual, com seu domínio constante sobre todas as paixões e desejos” (RIENECKER; ROGERS, 1985, p. 460). Uma mulher que vive a salvação com fé, amor e santificação, controlando seus desejos e paixões é o exato contrário de uma Eva enganada. O ensino aqui é que a nova vida em Cristo, a salvação do v. 15, concede à mulher um lugar reabilitado que havia perdido na queda e pela qual sofre a consequência de subordinar-se na sociedade. A salvação de Jesus devolve-lhe a mesma igualdade com o homem e, neste âmbito (a Igreja), não existe mais a superioridade masculina e nem a subordinação da mulher, pois “em Cristo Jesus, não há homem nem mulher”.
                  



3    UMA PROPOSTA TEOLÓGICA PAULINA PARA O MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO


3.1 A TEOLOGIA PAULINA DAS DUAS ERAS


                   A teologia paulina vê o evento “Cristo”, principalmente sua morte e ressurreição, como o centro da ação de Deus na história (I Coríntios 15.3,4; 2.2; Romanos 6.4-10; Gálatas 2.20; 4.4-6). Como rabino judeu, Paulo entendia que a época presente era controlada pelo mal, mas que viria uma época vindoura que começaria com o Dia do Senhor e na qual Deus instalaria o seu Reino em definitivo na Terra, vencendo todo o mal. “Saulo, o judeu, participava da esperança judia da vinda do Messias, de uma forma ou de outra, para destruir seus inimigos, redimir Israel e estabelecer o Reino de Deus” (LADD, 1985, p. 343). Quando Paulo converte-se a Jesus no caminho de Damasco (Atos 9.1-19) seu pensamento acerca das eras presente e vindoura muda, em especial, porque ele passa a crer em Jesus como o Messias. Logo, a era messiânica já havia iniciado. Segundo Ladd (1985, p. 343-352), para Paulo, a atual era/século (grego: aion) era caracterizada pelo domínio do pecado e estava em rebelião contra Deus, sendo dominado pelo seu deus, Satanás (II Coríntios 4.4). Com a vinda de Jesus, o Messias, seu Reino já estava na Terra e foi trazido ao seu povo, mesmo que o mundo não o pudesse perceber (Colossenses 1.13). O reinado de Jesus não começaria na parousia (vinda) e se estenderia ao telos (fim), mas começou na sua ressurreição e iria até o telos. Desta forma, a partir de Jesus Cristo, a era (aion) vindoura entrou na história humana. Embora a era vindoura ainda esteja por vir, seu poder e suas bênçãos invadiram a presente era das trevas. Os que creem em Jesus passam a viver em duas eras simultaneamente. Precisam viver neste mundo, dentro de suas culturas com suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, são a comunidade do Senhor que desfruta da nova vida em Cristo: “pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (II Coríntios 5.17). Uma nova vida está aberta aos homens: a existência “em Cristo”.
Ele agora sabia que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que inaugurou uma nova era, que requeria de Paulo uma nova atitude diante dos homens. Ele não os via mais como judeus e gregos, escravos e livres. Tais distinções, embora reais, não mais interessavam. Todos eles são homens amados por Deus, por quem Cristo morreu, a quem ele tem que levar as boas novas da novidade da vida em Cristo (1985, p. 351).

Qual então é centro da teologia paulina?
A teologia de Paulo é a exposição dos novos fatos redentores; a característica comum, em todas as suas ideias teológicas é o seu relacionamento com o ato histórico de Deus da salvação em Cristo. O significado de Cristo é a inauguração de uma nova era de salvação. Na morte e ressurreição de Cristo, as promessas da salvação messiânica do Velho Testamento se cumpriram, mas dentro da era antiga. O novo veio dentro do alicerce do antigo; mas o novo também está destinado a transformar o antigo. Portanto, a mensagem de Paulo é tanto de uma escatologia realizada como futurística (1985, p. 352).
                  
                   A nova era, ou o Reino de Deus, que Jesus trouxe cria a Igreja como a comunidade do Reino. A Igreja está inserida nas comunidades da velha era e com elas terá de conviver. Mas a Igreja, em si, é uma comunidade totalmente diferente porque ela é escatológica. Ela pertence ao futuro; na verdade, é a comunidade dos remidos que habitarão o céu: “mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3.20). É nesta tensão que a Igreja vive: ela é a comunidade da nova era que Cristo iniciou, mas, ao mesmo tempo, ela tem que viver na velha era com seus costumes, tradições e comportamentos derivados tanto da imagem de Deus que ele colocou na humanidade (Atos 17.25-29) quanto da queda (Romanos 1.28-32).


3.2 A VIVÊNCIA DA IGREJA NAS DUAS ERAS


                   A Igreja, esta comunidade em tensão, terá duas tarefas em sua caminhada nesta terra. A primeira é viver os princípios da nova era que Cristo trouxe com os valores da ética do Reino de Deus. Um dos princípios é que a principal virtude ética e existencial que Jesus ensinou e que Paulo salienta é o amor (I Coríntios 13; Romanos 12.9-10; 13.10; Gálatas 5.6; Efésios 5.2; Filipenses 2.2; Colossenses 3.14; I Tessalonicenses 3.12; I Timóteo 1.5; Tito 2.2; Filemom 5). O amor rege todas as demais virtudes, mas este amor é constantemente qualificado, como em I Coríntios 13.4-7. Existem outros princípios que pertencem a esta nova era como o de Gálatas 3.28 onde, em Cristo, não há homem, nem mulher; nem escravo, nem livre; nem judeu, nem grego. Este é um princípio da nova era de Cristo, do Reino de Deus, e isto é fácil de perceber: no céu (a consumação plena da nova era de Cristo), nenhuma destas diferenciações fará sentido, pois “todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 3.26). Cabe à Igreja perseguir estes princípios na sua prática de vida, os quais são superiores a qualquer cultura que o homem crie.
                   A segunda grande tarefa da Igreja consiste em, tendo estes princípios superiores como objetivos, viver na sua cultura separando o que é bom e o que é mal dentro dela. Diz Paulo em I Tessalonicenses 5.21-22: “mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom; abstende-vos de toda espécie de mal” e em Filipenses 4.8: “quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo que é honesto, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, se há alguma virtude, se há algum louvor, nisso pensai”. Estes dois textos, entre outros, servem para demonstrar que Paulo entendia que há coisas boas e más nas culturas e competia aos cristãos usar as Escrituras e a razão para discernir e, tanto aprovar como rejeitar, pois “não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12.2).
                   Um problema difícil para a Igreja na execução destas duas tarefas é que o evangelho geralmente chega depois da cultura. As sociedades estão formadas com seus valores próprios, distantes de Deus e de sua vontade. O evangelho produz mudanças nos que creem (Efésios 2.11-13; Filipenses 1.5,6; I Tessalonicenses 1.5,6), mas em muitos aspectos, a noção de certo e errado, bem e mal, está atrelada àquilo que são os costumes de cada sociedade. Assuntos como alimentação, vestuário, formas de tratamento, diferenciação social, papéis do homem e da mulher, relacionamento familiar, entre outros, são parte da formação cultural de cada povo em cada época específica. O homem forma a cultura e é formado por ela. Assim, muito do que seja bem ou mal para um cristão estará atrelado ao que a sua sociedade lhe ensinou. Em contato com os princípios da nova era em Cristo, tensões aparecerão e a Igreja precisa da orientação inspirada dos escritores da Bíblia. Nem sempre, em toda a cultura, a Igreja conseguirá viver plenamente os princípios básicos da fé, mas terá de se amoldar até que a situação permita vivê-los.
                   A dificuldade em cumprir as duas tarefas da Igreja (viver os princípios bíblicos principais e separar, na cultura, o que é bem e mal) pode ser observado em três assuntos culturais sobre os quais Paulo fala: subordinação da mulher ao homem na igreja e na sociedade, a monogamia/poligamia e a escravidão. Todos estes assuntos faziam parte da vida das sociedades greco-romanas e judaicas da época do apóstolo Paulo.
                   Acerca da questão da monogamia/poligamia, Rega (2009, p. 66-70) apresenta o que ele chama de “situações críticas fronteiriças” (2009, p. 66). São situações cujo comportamento da sociedade destoa da ética do evangelho e, temporariamente, aceita-se aquele comportamento, mas tomando ações que visem uma futura mudança. Ele cita como situações assim, da época de Paulo, a poligamia e a escravidão. Acerca da poligamia, Rega afirma que
Paulo, por exemplo, teve que lidar com situações complexas para a cultura da época. Ao tratar da questão do incesto (I Coríntios 5.1-5), sua resposta foi radical: expulsão do incestuoso da comunhão da igreja. Em outra ocasião, no entanto, Paulo teve de encontrar uma alternativa diferente. Foi o caso dos homens que, embora casados, tinham outra mulher. Essa situação era tolerável na cultura da época, mas esses homens estavam se convertendo e se integrando às igrejas. [...] No primeiro caso, Paulo procurou estabelecer uma liderança que servisse de modelo para as gerações futuras. A situação dos que se convertiam não podia ser imediata e radicalmente alterada – ainda que de natureza complexa à luz da compreensão matrimonial e familiar bíblica – sob pena de gerar sérias dificuldades à sobrevivência familiar. A abordagem de Paulo para esta situação está descrita nos critérios para a escolha dos presbíteros e diáconos da igreja. Paulo enfatiza que o líder deveria ser marido de uma só mulher (v. 1 Tm 3.2,12; Tt 1.6).[...] Por que Paulo teria mencionado este critério ao descrever o perfil para os líderes das igrejas? Será que a igreja abrigava entre os membros pessoas que praticavam a poligamia ou que viviam a forma disfarçada de concubinato? Embora não haja registros de situações como essas, D. A. Carson lembra que a poligamia era praticada especialmente pela aristocracia, e em algumas províncias. [...] Outra possibilidade dentro deste raciocínio é que a proposta de Paulo visava formar uma liderança que seguisse o padrão bíblico de vida, inclusive nas relações matrimoniais, ou seja, a liderança abandonaria práticas culturais que conflitassem com padrões bíblicos. Isso quer dizer que os convertidos em estado matrimonial aceito social e legalmente (poligamia ou concubinato, p. ex.) poderiam mantê-lo (1 Co 7.17-24), mas não lhes seria permitido ocupar função de liderança. Com isso podemos deduzir que Paulo possuía um ideal ético a ser perseguido: monogamia como padrão para o matrimônio. No entanto, havia uma situação real vivida (ou pelo menos hipotética): a poligamia (real ou disfarçada em concubinato), que se desejava eliminar, objetivando atingir, mais tarde, o ideal ético. Paulo levanta uma liderança modelo para ser seguida pelas gerações futuras. Ou seja, tolerou-se provisoriamente uma situação enquanto as bases para conquistar o ideal ético bíblico eram lançadas. (2009, p. 66-70) (grifos do autor).
                  
O texto de Rega demonstra que Paulo foi capaz de tolerar a possibilidade da poligamia para os novos cristãos devido à cultura deles, trabalhando para que, no futuro, a monogamia fosse o ideal matrimonial de todos.
                   Muitos autores, quando falam da submissão da mulher ao homem, buscam nos textos da criação (Gênesis 1 e 2) a razão para que seja assim para sempre. Nestes mesmos textos, há a ordem de Deus para a monogamia (Gn 2.24). Este sempre foi o ideal de Deus para o matrimônio. Os homens construíram sociedades onde a poligamia imperava (basta ler o livro de Gênesis). No entanto, apesar de ter dado seu ideal no Éden, Deus tolerou este “desrespeito” ao seu padrão, respeitou as culturas e, ainda por cima, usou para sua revelação homens polígamos, como foi o caso de Abraão, Jacó, Davi e Salomão, entre outros. É de se destacar que o povo eleito de Israel foi formado de um homem chamado Jacó que tinha duas esposas e duas concubinas e, com elas, formou as 12 tribos da nação através da qual Deus se revelaria ao mundo (Gênesis 35.23-26). Na época de Paulo, havia a poligamia como algo natural em algumas sociedades e grupos. Paulo trabalhou para mudar esta situação em favor da monogamia (I Coríntios 7.2; Efésios 5.22,24; I Timóteo 3.2), mas sabia que estava “lançando as bases para conquistar o ideal ético bíblico”.
                   Outra questão cultural que conflitava com o ensino bíblico era a escravidão. Ao passo que a poligamia era exceção no mundo greco-romano e judaico, a escravidão era endêmica, pois “a escravidão era universal e inseparável da textura da sociedade. Tem-se estimado que, no tempo de Paulo, havia tantos escravos, quanto homens livres em Roma e a proporção de escravos para homens livres, na Itália, era de três para um” (LADD, 1985, p. 490). Qual o princípio bíblico pressuposto nos textos da criação? A de que todo ser humano é livre porque cada um foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1.27). Além disso, a ordem divina é que homem e mulher deveriam dominar a natureza e os demais seres: “enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” (Gênesis 1.28). Em nenhum lugar é dito que eles deveriam dominar outros seres humanos. As sociedades formadas pelos homens produziram culturas favoráveis à escravidão. Assim, a escravidão tornou-se um costume cultural do mundo antigo e o era na época de Paulo.
                   Em I Coríntios 7.21-24, Paulo assim se manifesta com respeito ao assunto:
foste chamado sendo escravo? Não te dê cuidado; mas se ainda podes tornar-te livre, aproveita a oportunidade. Pois aquele que foi chamado no Senhor, mesmo sendo escravo, é um liberto do Senhor; e assim também o que foi chamado sendo livre, escravo é de Cristo. Por preço fostes comprados; não vos façais escravos de homens. Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado.

O chamado ao qual ele se refere é a conversão a Jesus Cristo. O que a pessoa era na sociedade, devia continuar a ser. Apesar de saber que a liberdade é um valor superior provindo do próprio Deus, Paulo nunca falou contra a escravidão e nunca incitou os escravos cristãos a se rebelarem. Pelo contrário, quando o escravo fugitivo Onésimo se converteu através de sua pregação, Paulo o mandou de volta ao seu senhor (Filemom v. 12). A ordem é: se você se converteu sendo escravo, continue escravo e não se preocupe com isto (v. 21). No entanto, como a liberdade é uma forma superior e melhor de vida, ele diz que, se o escravo tem uma oportunidade, legal e cultural, de tornar-se livre, deve aproveitá-la (v. 21). Para Paulo, um cristão tornar-se um escravo de homens, era inaceitável, pois já havia sido comprado por preço (v. 23): deveria permanecer livre. No v. 22, Paulo faz a compensação ao escravo cristão que se mantém como tal: “pois aquele que foi chamado no Senhor, mesmo sendo escravo, é um liberto do Senhor; e assim também o que foi chamado sendo livre, escravo é de Cristo”. No Senhor, o escravo não é mais escravo, é um homem livre. A sociedade ainda o acorrenta, mas em Cristo tudo é conforme os mais altos princípios de Deus. Mesmo não rompendo, naquele momento, com a escravidão, Paulo lança uma base que iria fermentar a Igreja e a sociedade em relação a este fenômeno.
                   Outro momento em que Paulo fala mais detidamente sobre o assunto é em sua carta a Filemom. Paulo estava em uma prisão em Roma (v. 9,13). Paulo evangelizou e converteu um escravo fugitivo chamado Onésimo (v. 10). Paulo soube que o senhor de Onésimo era Filemom, outro discípulo que ele havia ganho para Cristo (v. 19). Escreve uma carta a Filemom para dizer que envia Onésimo de volta, agora como um escravo útil (v. 11). São preciosas as palavras que Paulo usa acerca da forma como Filemom deve receber seu escravo Onésimo:
porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o recobrasses para sempre, não já como escravo, antes, mais do que escravo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, tanto na carne como também no Senhor (v. 15,16).

É certo que Paulo não falou contra a escravidão, mas o que ele estava fazendo ao dizer a um senhor de escravos que deveria tratar um escravo fugitivo “não já como escravo, antes, mais do que escravo, como irmão amado” senão destruir toda a base ideológica cultural da escravidão? No entanto, quando apela neste sentido a Filemom, o argumento de Paulo é que Onésimo é agora um “irmão amado”, ou seja, todos eles estão “em Cristo”. A salvação de Jesus trouxe um nivelamento de todas as pessoas como irmãos (a nova era de Cristo), embora eles continuassem a ser senhor e escravo na sociedade (a velha era), pois “
a fé cristã é para ser vivida dentro dos contextos das estruturas sociais existentes, pois elas pertencem à forma deste mundo, que passará (I Cor. 7.31) [...] Não há nenhuma palavra para libertar o escravo. No entanto, dentro do relacionamento da Igreja, tais distinções sociais foram ultrapassadas (I Cor. 12.13; Gál. 3.28), embora não pudessem ser evitadas na sociedade (LADD, 1985, p. 491).

                   Para quem lê literalmente o Novo Testamento, Paulo é a favor da escravidão e quer que os escravos continuem nesta condição: “foste chamado sendo escravo? Não te dê cuidado” (I Coríntios 7.21); “porque bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o recobrasses para sempre” (Filemom 15); “vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo” (Efésios 6.5); “vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne” (Colossenses 3.23). Este é o perigo de ler literalmente as Escrituras sem aprofundar-se nos conceitos que ela expressa. Aquele que percebe que Jesus Cristo veio para inaugurar o seu Reino (que é uma nova era onde habita a justiça, o amor, a paz, a misericórdia, a solidariedade, o respeito, a liberdade), e que este se sobrepõe às culturas humanas, perceberá que determinados mandamentos bíblicos estão atrelados a suas épocas e sociedades e devem ser interpretados de acordo com os princípios maiores do Reino. Ridderbos assim se manifesta sobre o tratamento que Paulo dá à escravidão:
por certo, fica aparente aqui que Paulo não pensava na abolição da escravatura como instituição por motivos cristãos. [...] Pode-se observar pelo simples fato de Paulo dirigir-se sucessivamente aos escravos e senhores como membros iguais da igreja e descrever o relacionamento entre eles como sendo de responsabilidade mútua, o quanto esta postura significou uma revolução. De maneira alguma ela podia ser conciliada  com a posição do escravo no mundo daquela época e nem dentro do judaísmo. [...] Não se pode negar que, ao mesmo tempo, foi introduzida uma enorme tensão na escravidão como sistema social, mas ainda assim, isso deve ser visto, tanto quanto podemos entender, mais como uma consequência do que como um objetivo deliberado das admoestações de Paulo (RIDDERBOS, 2014, p. 348).

                   A questão da subordinação da mulher nos escritos de Paulo segue a mesma linha do que foi dito acerca da poligamia e da escravidão. Ele segue a ideia básica de que os cristãos (a Igreja) vivem em duas eras ao mesmo tempo: a nova era inaugurada por Cristo, o seu Reino, e a antiga era dominada pelos efeitos da queda no Éden. Em Romanos 5.12-21, ele denomina esta situação entre os que estão “em Cristo” e os que estão “em Adão”. Adão aqui não é apresentado como o homem da criação no Éden, mas aquele através de quem o pecado entrou no mundo e passou esta condição a todos os homens (v. 12). Estar em Adão é ser pecador e estar debaixo dos efeitos da queda. Estar em Cristo é ser constituído justo por ele (v. 19) e reinar em vida por meio dele (v. 17).
                   Em primeiro lugar, Paulo estabelece o princípio de igualdade das mulheres em relação aos homens, decorrente da nova era da salvação. Textos como Gálatas 3.28 e I Coríntios 13, são emblemáticos neste sentido. Da mesma forma como Jesus estabeleceu uma hierarquia de valores colocando o amor e o respeito ao próximo em primeiro lugar (Mateus 22.35-40; 7.12), Paulo mostra os valores do Reino de Deus como importantes para a vivência da Igreja. Ela já vive na salvação de Deus e julga a cultura de acordo com estes padrões. Por conta de também viver na presente era, a Igreja tanto se adaptará à sociedade onde se encontra como também promoverá mudanças dentro dela.
                        A quebra de todas as diferenças sociais em Cristo tem um profundo impacto nesta mesma sociedade. Como já foi dito, os papéis sociais de Gálatas 3.28 continuam os mesmos, mas aconteceu uma mudança interna, tanto nas pessoas que participam desta fé, quanto no grupo que elas passam a integrar dentro da sociedade, que é a Igreja cristã. A fé em Jesus vai dizer que judeus e gentios são iguais neste Reino que pertence ao Senhor. Vai dizer que, em Cristo, todos são livres, embora temporalmente, alguns continuem escravos. Vai dizer que, embora continuem com a sexualidade que a natureza lhes deu, são agora iguais e não há mais superioridade de uns em relação a outras. Com o crescimento da Igreja cristã e sua influência, chegou o tempo em que as próprias sociedades humanas se apegariam aos princípios advindos desta doutrina e fariam uma declaração universal dos direitos humanos, aboliriam a escravatura, instituiriam o voto universal e a democracia, nivelariam a mulher ao homem com todos os direitos inerentes, etc. Não é à toa que todas estas conquistas se deram em países de tradição cristã. O princípio de Paulo diz respeito à Igreja, mas sem dúvida seria um avanço também para as sociedades por ela influenciadas. Esta visão de Paulo mudaria as sociedades. A grande tragédia para o cristianismo é que sua Igreja, na prática, aceitaria as consequências destes princípios de Paulo depois da sociedade, como foi o caso da escravidão e agora, da igualdade de homens e mulheres.
                   Em segundo lugar, Paulo respeita as culturas onde os cristãos estão inseridos. A cultura da época paulina é patriarcal. O marido/pai tinha todo o poder dentro da família, pois “as relações familiares eram de dominação pelo chefe da casa e de subordinação por parte da esposa, dos filhos e escravos e isso constituía a célula básica da construção do Estado, uma estrutura que se refletia nas classes e no status social” (MATOS, 2004, p. 79). Quando fala em I Coríntios 14 e em I Timóteo 2, acerca das reuniões da igreja, qual não seria a vergonha, dentro de uma sociedade deste tipo, que as mulheres não trariam para a igreja e seus maridos se começassem a exercer autoridade sobre os homens e tomassem a liderança em todas as reuniões. A igreja seria imediatamente mal vista por toda a sociedade e isto poderia implicar em perseguição contra ela por parte da sociedade e do Estado. O princípio que Paulo tem em mente é o não impedimento, por conta de desrespeitos à cultura local, da salvação de todos conforme I Coríntios 10.32-33:
não vos torneis causa de tropeço nem a judeus, nem a gregos, nem a igreja de Deus; assim como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos.

Não tornar causa de tropeço significa não afrontar os costumes que a sociedade da época pratica. Como o costume da submissão da mulher era generalizado em todo o Império Romano, essa era uma regra que deveria ser seguida. Por esta razão, Paulo não permitia que a mulher ensinasse na igreja ou exercesse domínio sobre os homens e dizia que ficassem caladas na igreja. Por esta razão também, ele diz que os bispos devem ser maridos de uma só mulher e “que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito” (I Timóteo 3.2,4). Na compreensão paulina, a Igreja ainda está nesta velha era, e participa da situação humana decorrente da queda.
                   No entanto, todas as vezes em que Paulo subordina a mulher ao homem por questão cultural, ele compensa ensinando os princípios da nova era em Cristo. No texto de I Coríntios 11, acerca do véu das mulheres, ele insere os v. 11,12. Ele começa o v. 11 dizendo: “no Senhor”, a indicar que antes estava falando da questão cultural local, mas agora fala da nova era. Sua argumentação é que homens e mulheres não são independentes e ambos vêm de Deus. Em I Coríntios 14.34,35, as mulheres devem ficar caladas na igreja não podendo ensinar, mas podem profetizar e orar (11.5; 14.29-31). Em I Timóteo 2.9-15, onde a mulher não pode ensinar e nem exercer autoridade sobre homem, ele insere o v. 15 que diz respeito à “salvação” da mulher, ou seja, acerca da nova era em Cristo e que a faz ser protagonista no Reino de Deus. Até mesmo no texto acerca da família (Efésios 5.22-33), onde Paulo advoga claramente a liderança masculina, há compensações às mulheres. Se elas devem submissão aos maridos (v. 22), eles devem amá-las como Cristo amou a Igreja, ou seja, a ponto de se auto sacrificar em favor dela. Os maridos devem ter  igual cuidado por elas como a seus próprios corpos (v. 28,29) por qual motivo? “Porque somos membros do seu corpo” (v. 30). Paulo apresenta estas compensações em relação à mulher e diz que a relação marido/mulher deve ser diferente daquele que é o costume usual praticado pela sua sociedade simplesmente porque fazemos parte do Corpo de Cristo, a Igreja. É no âmbito da nova era do Senhor que os comportamentos culturais vão sendo mudados.
                   Outra observação é que Paulo, sempre que não houvesse “pedra de tropeço”, procurava, na prática da vida, igualar homens e mulheres. Em Romanos 16, quando saúda muitos irmãos que estão em Roma, ele fala de várias mulheres que trabalharam tanto quanto os homens no Reino de Deus e algumas em posição de liderança. Temos Febe (v. 1,2) que é diaconisa (grego: diáconos) e patrona, líder (grego: prostatis, v. 2)
Febe é também a única em Romanos 16 a quem a palavra prostatis é empregada. Prostatis é a forma feminina de um substantivo que significa “líder, pessoa que preside, que fica à frente, patrono”. Este substantivo provém da raiz verbal proistemi, que significa “governar e cuidar” como vemos em quatro passagens (I Timóteo 3.4,5,12; 5.17) (MICKELSEN, 1996, p. 231-232).

Encontramos o casal Priscila e Áquila (v. 3) que ele qualifica de “meus cooperadores” (interessante é o fato de Paulo citar a mulher antes do marido, incomum para a época). Maria (v. 6) “muito trabalhou por vós”. No v. 12: “saudai a Trifena e a Trifosa, que trabalham no Senhor. Saudai a amada Pérside, que muito trabalhou no Senhor”. No v. 7, ele diz: “saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros de prisão, os quais são bem conceituados entre os apóstolos, e que estavam em Cristo antes de mim”. Andrônico e Júnias são chamados de “apóstolos”. Há uma grande discussão se “Júnia” é um nome feminino ou masculino (ver para nome feminino: MICKELSEN, 1996, p. 232-233; SILVA, 2013, p. 139; autores que manifestam incerteza: BRUCE, 1979, p. 219; LOPES, 2015, p. 4). Segundo Silva, “vale ressaltar que 9 mulheres são mencionadas ao lado de 17 homens na lista de saudação de Romanos 16.1-16 proporção numérica admirável para o contexto das relações patriarcais” (2013, p. 139). Richardson (apud MICKELSEN, 1996, p. 233) afirma: “o que esta relação demonstra é que num simples ambiente (Rm 16), numa lista coerente de saudações, as mulheres recebem mais honrarias do que os homens, a despeito do número destes ser superior e a elas se atribuem papéis mais influentes!”. Em Filipenses 4.2,3, Paulo cita Evódia e Síntique e diz que “trabalharam comigo no evangelho”. Em I Timóteo 3.8-13 ao falar acerca dos diáconos, Paulo diz no v. 11: “da mesma sorte as mulheres sejam sérias, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo”. As mulheres eram diaconisas na Igreja Primitiva, posição de destaque e liderança, mesmo num mundo patriarcal.


3.3 A POSSIBILIDADE PAULINA DO MINISTÉRIO PASTORAL FEMININO


                   Quando se trata especificamente da mulher assumir o pastoreio de uma igreja nos tempos atuais, a que conclusões chegamos dos escritos de Paulo? Será possível retirar princípios que, aplicados ao tempo e à cultura atual, permitam o exercício do ministério pastoral feminino? Teólogos divergem acerca desta possibilidade no ensino de Paulo.
                   Lopes, comentando os textos de Coríntios e Timóteo, manifesta-se contrário, argumentando que
o princípio por detrás desta ordem (mulheres usarem o véu), conforme vimos acima, é o de apresentarem no culto em plena submissão à liderança masculina cristã. O uso do véu é a forma contextualizada pelo qual esse princípio se expressava. Hoje em dia, nas culturas ocidentais, o uso do véu não é uma expressão apropriada deste princípio. O princípio permanente que está subjacente em 1 Coríntios 11.2-16, 14.34-35 e 1 Tm 2.11,12 é o de que se mantenham as distinções e os papéis intrínsecos ao homem e à mulher na igreja e na família. Assim, a mulher não deve inverter os papéis, e ocupar posição de autoridade sobre os homens, quer seja para governá-los ou para ensiná-los. (2015, p. 20-21) (grifos do autor).

Grudem também se manifesta contrário a essa possibilidade:
essas (ensino e exercício de autoridade) eram as funções dos presbíteros da igreja e especialmente dos que conhecemos como pastor na igreja atual. São especificamente estas funções singulares de um presbítero que Paulo proíbe que as mulheres exerçam na igreja (1999, p. 787).
Foh também se posiciona contrariamente: “com respeito aos cargos da igreja, as mulheres não podem ser presbíteras (nem pastoras-mestras, nem evangelistas, nem ministras, como às vezes são designadas), porque esses cargos envolvem o ensino e o governo” (1996, p. 122).
                   Por outro lado, Mickelsen mostra-se favorável, pois:
homens e mulheres cristãos não devem enredar-se e prender-se sob um jugo escravizador. Homens e mulheres devem pregar. Mulheres e homens devem fazer discípulos. Devem ministrar com os dons do Espírito. Cristo libertou homens e mulheres para que sirvam, amem, fortaleçam e apoiem as pessoas e delas cuidem. [...] O ensino de Gênesis, a vida e os ensinos de Jesus, o escopo e dos escritos e da prática de Paulo – tudo isso aponta para a completa dignidade das mulheres que têm sido chamadas e dotadas de talentos pelo próprio Deus, a fim de que sirvam à igreja e ao mundo (1996, p. 250) (grifo do autor).

Liefeld aponta para princípios, extraídos dos textos de Paulo, que permitem, hoje em dia, aceitar a liderança da mulher na igreja:
Paulo tinha um princípio básico que requeria a subordinação temporária dos demais princípios. Em Gálatas, Paulo estabeleceu o princípio de que o crente está “morto” para a lei. A salvação não é obtida mediante fazer-se as obras da lei do Antigo Testamento. Paulo insiste em sua autoridade de apóstolo. Como vimos, ele também estabeleceu um princípio concernente ao homem e à mulher em Cristo. Mas em I Coríntios, Paulo diz que ele, o apóstolo da liberdade da lei, está disposto a tornar-se “como sob a lei” a fim de ganhar os que estão sob a lei. O fato de assumir esta notável posição como que para remover as barreiras do evangelho, sem mudar sua posição sobre a salvação, à parte das obras da lei, deveria alertar-nos para a realidade de que ele também pode acomodar as normas sociais dos judeus e outras, concernentes às atividades públicas das mulheres, sem mudar sua posição, que é a da igualdade entre homens e mulheres. Se algumas pessoas do tempo de Paulo consideravam vergonhoso que a mulher falasse em público, ou aparecesse em público sem um véu facial, ou usasse o cabelo solto caindo sobre os ombros, quais são as implicações do fato de que, em nossos dias, e em nossa sociedade, é vergonhoso restringir as mulheres, tirando-lhes a igualdade com os homens, e a total oportunidade de expressão?  (1996, p. 172-173).

Ladd, discutindo a aplicação da ética social de Paulo, conclui:
a situação cultural e a estrutura da Igreja são bem diferentes do cristianismo do primeiro século, e o crente moderno não pode aplicar os ensinamentos da Escritura num relacionamento de igual para igual, mas deve buscar a verdade básica que subjaz às formulações particulares em o Novo Testamento (1985, p. 489).
                  
                   Os tempos passaram-se e as culturas e sociedades se transformaram. O Ocidente sofreu modificações nestes 21 séculos que o separam do Novo Testamento. Nas três questões éticas discutidas, o Ocidente firmou a monogamia, aboliu a escravidão e deu plenos direitos às mulheres ao ponto de algumas delas tornarem-se chefes de Estado. Todos estes avanços sociais foram conquistados exatamente pela tradição cristã de suas sociedades. Estes avanços não ocorreram nos países de tradição muçulmana, hinduísta, budista e de outras religiões. Se alguns países destas tradições assumiram estes avanços foi por conta da influência do Ocidente. É neste novo contexto que deve-se entender os ensinamentos de Paulo e de toda a Bíblia acerca do ministério pastoral feminino.
Precisamos entender que nos dias de Paulo o fato de uma mulher falar em público e ensinar na igreja constituía um problema moral que trazia vergonha à igreja e ao Senhor, impedindo as pessoas de virem a Cristo. Mas isto não constitui um problema na maior parte das sociedades de hoje, pelo menos no mundo ocidental. Na verdade, a situação sofreu uma reversão: proibir uma mulher de ter a mesma dignidade e oportunidade na Igreja de que ela desfruta na sociedade constitui uma pedra de tropeço para muitas pessoas. Portanto, ao tentar honestamente fazer a mesma aplicação (o silêncio das mulheres) em vez de seguir o mesmo princípio (evitar a vergonha e a desonra sobre o marido), cometemos hoje o mesmo erro que Paulo procurou evitar, isto é, ofender as sensibilidades morais das pessoas e impedi-las de aceitar o Evangelho (LIEFELD, 1996, p. 170-171).

As restrições bíblicas que impediam a mulher de ser pastora no período do Novo Testamento acabaram-se com a mudança das culturas das sociedades. As restrições paulinas estavam ligadas exatamente à cultura das sociedades onde ele vivia. Paulo, embora obediente aos costumes culturais de sua época para não “por tropeço” à pregação do evangelho, sabia que, em Cristo, a nova era de Deus havia se iniciado e invadira a velha era de Adão. Em seus ensinos e na sua prática de vida, igualou homens e mulheres no Reino de Deus. Hoje, quando as práticas culturais foram mudadas e as mulheres assumiram seus direitos de igualdade com os homens, caíram por terra as restrições paulinas para o ministério pastoral feminino, mas permanecerão, para sempre, os princípios do Reino de Deus, a nova era de Cristo, pelo qual ele sempre lutou: “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Esta nova era de Cristo, embora aqui e agora tenha invadido a presente era má, não chegou à sua consumação. Perto de sua morte, ao escrever sua segunda carta ao pastor Timóteo, ele assim se expressa sobre esta consumação e sobre a existência aqui e agora: “e o Senhor me livrará de toda má obra, e me levará salvo para o seu reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre. Amém. Saúda a Priscila e a Áquila e à casa de Onesíforo” (II Timóteo 4.18,19).




4    CONSIDERAÇÕES FINAIS


A investigação nos escritos e teologia do apóstolo Paulo acerca da possibilidade do ministério pastoral feminino apontou caminhos para desvendar seu pensamento.
Há três textos relevantes nos escritos paulinos: Gálatas 3.26-29, I Coríntios 11-14 e I Timóteo 2.8-15. No primeiro texto (Gl. 3.26-29), Paulo expressa um princípio bíblico extremamente importante que ultrapassa a área da soteriologia: “em Cristo Jesus, não há homem nem mulher”. Este é um princípio que, pelo seu valor, regerá as demais orientações. Nos outros textos (I Co 11-14 e I Tm 2.8-15), ele restringe a atuação das mulheres na igreja, em especial na área da liderança pastoral. Ele assim o faz com base no respeito à cultura da época que era fortemente patriarcal. Mas, mesmo nestes textos, ele compensa a situação subordinada da mulher, lembrando acerca dos princípios e posição dos que estão “em Cristo”.
A teologia paulina fala de duas eras: a atual que procede da queda de Adão e onde todos estão e a nova era que foi inaugurada por Cristo com sua morte e ressurreição. Esta nova era, também chamada Reino de Deus, escatologicamente invadiu a história e formou um povo: a Igreja, comunidade dos que creem em Jesus Cristo. Ocorre que a Igreja vive em duas eras ao mesmo tempo e deve conciliar estas vivências. Viver na nova era de Cristo significa alcançar os princípios desta nova vida, que é a de Deus. Viver na era antiga significa discernir, dentro de cada sociedade e cultura, o que é bom e o que é mal. Este discernimento leva a Igreja a conformar-se com os costumes locais e temporais, mas com o firme propósito de modificá-los sempre de acordo com os princípios superiores da nova era em Cristo. Três costumes da época de Paulo são apresentados: a poligamia, a escravidão e a subordinação da mulher na sociedade e na Igreja. Para cada um desses problemas, Paulo pode conviver, pois são costumes sociais da presente era. Ele faz isto com o firme propósito de não colocar “pedras de tropeço” na Igreja a fim de que o evangelho possa ser pregado sem restrição e mais pessoas sejam salvas. Mas, ao mesmo tempo, sua orientação provocará uma erosão das bases filosóficas e ideológicas que sustentam estes costumes.
Por fim, os princípios superiores da teologia paulina levam ao entendimento de que a mudança da cultura da sociedade leva a uma nova postura da Igreja. Se, no primeiro século, era vergonhoso para a mulher falar em público e liderar homens, tal vergonha não existe mais. Pelo contrário, hoje é vergonhoso proibir a mulher de fazer tais coisas. Continuam de pé os princípios paulinos de que não devemos colocar “pedras de tropeço culturais” para que as pessoas venham a Cristo e que nele “não há homem, nem mulher”.
Este TCC trabalhou a visão paulina do assunto ministério pastoral feminino. A continuidade dos estudos deste assunto pode seguir dois caminhos: o primeiro é estudar como este assunto é tratado pelos outros escritores da Bíblia, olhando principalmente o pensamento e a ação de Jesus. Um segundo caminho é aprofundar a pesquisa para saber se, no pensamento paulino e bíblico, há diferença na subordinação da mulher ao marido na família e a subordinação feminina na Igreja e na sociedade.



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