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Vídeo "As relações na Trindade e nós"


Palavra do Pastor Whitson Rocha sobre o tema: "As relações na Trindade e nós"


https://youtu.be/qZ7r8FGoQCY

TEOLOGIA SISTEMÁTICA 02-03 A TRINDADE

A TRINDADE

Professor Whitson Ribeiro da Rocha

 

INTRODUÇÃO

            A palavra “Trindade” não se encontra na Bíblia, mas é a única fórmula que respeita os dados bíblicos. Estudaremos aqui primeiramente como esta doutrina está arraigada nas Escrituras e depois como ela se desenvolveu historicamente na Igreja.

A TRINDADE CONFORME REVELADA NAS ESCRITURAS
1)      DEFINIÇÃO
A definição clássica de Trindade é: Deus é um em sua essência (ousia/substantia) e três em personalidade (hipóstases/persona).

2)      O PARADOXO DA TRINDADE
Há duas verdades ensinadas de modo paralelo na Bíblia:
1º) Há um único Deus: Dt 6.4; 4.39; Is 43.10-13; 44.6; 41.4; 45.5; Mc 12.29,30; Jd 25.
-          Israel era o único povo monoteísta no meio de tantos povos politeístas;
-          a igreja sempre se viu como a continuadora da fé do Antigo Testamento: ela adora o único Deus de Israel.

2º) Há três pessoas na condição de Deus:
-          a divindade do Pai: Jo 1.14; 5.17,18; 8.54;
-          a divindade do Filho: Jo 1.1; 20.28; 8.58,59; Rm 9.5; Fl 2.6,10 cp. Is 45.21,23; Tt 2.13; I Jo 5.20;
-          a divindade do Espírito Santo: At 5.3,4; I Co 3.16; II Tm 3.16 cp. II Pe 1.21.

3)      A TRINDADE NO ANTIGO TESTAMENTO
Por que não há esta clareza sobre o ensino da Trindade no Antigo Testamento?
-          por causa do politeísmo da época;
-          revelação progressiva do simples ao complexo;
-          Deus não se revelou de forma abstrata, mas através de atos redentores;
-          a vinda de Jesus Cristo ao mundo é que trouxe a revelação clara do Deus trino.
Mesmo assim observe no Antigo Testamento:
-          Deus cria por meio da Palavra e do Espírito: Gn 1.1-3; Jó 33.6;
-          quando vai colocar sua imagem no homem, Deus dialoga em forma plural: Gn 1.26;
-          o Anjo do Senhor é identificado com Javé e recebe adoração: Gn 16.7,9,13; 31.11-13; 48.15,16; Ex 3.2-4; Jz 13.21,22;
-          personificação da Sabedoria e Palavra divina: Pv 8.22-31; Jó 28.20-27; Sl 119.89;
-          referências ao Messias: Is 9.6; Mq 5.2; Sl 110.1; 45.6,7; Ml 3.1;
-          referências ao Espírito Santo: Gn 1.2; 6.3; Ex 31.3; Nm 11.24-29; Jz 3.10; Is 11.2; 32.14-17; 42.1; 48.16; 61.1; Ez 36.26,27; Jl 2.28,29;

4)      A TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO
A verdade sobre a Trindade está mais fácil de ser percebida no Novo Testamento. Por quê? Sem dúvida é a pessoa e presença de Jesus Cristo que traz à tona toda a construção do conceito de Trindade. Esta doutrina é plenamente escrita pela Igreja para responder à seguinte pergunta: Jesus Cristo é Deus? Se ele é Deus como entender que há um Pai com quem ele fala e a quem serve e um Espírito que o guia e que depois ele o envia?
Por causa disso há alguns textos no Novo Testamento que não se entendem sem a formulação da doutrina da Trindade.
A Trindade é apresentada de forma clara no NT:
-          Fórmulas trinitárias no NT: nascimento (Lc 1.35), batismo (Mt 3.16,17; Lc 3.21,22), a grande comissão (Mt 28.19), a bênção apostólica (II Co 13.13).
-          Textos trinitários no NT: Jo 1.1, 2, 18, 32-34; 8.58,59;  10.30-33; 14.9-11,16; 16.13-15; 17.5,11,21,22; I Co 8.4-6; Fl 2.5,6; Ap 1.4-8.
-          Distinção entre as pessoas divinas:
-          entre o Pai e o Filho: Jo 5.32,36,37; 1.14; 3.16; 10.36; Mc 15.34; Gl 4.4
-          o Espírito Santo distinto do Pai e do Filho: Jo 14.16,17,26; 15.26

A FORMULAÇÃO DA DOUTRINA NA HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA
      A formulação da doutrina da Trindade foi uma necessidade na história da igreja pois começaram a aparecer heresias que negavam a divindade de Jesus Cristo. A igreja começa a se perguntar acerca de como é o Deus revelado em Cristo e nas Escrituras.
A definição que a igreja deu com relação à Trindade no Concílio de Nicéia em 325 d.C. permanece até hoje como a declaração da fé da igreja cristã acerca de seu Deus.

1)      OS PAIS APOSTÓLICOS (século II d.C.)
Os pais apostólicos não discutiram a questão da Trindade até porque não houve necessidade visto o seu ensino estar muito próximo no tempo ao dos apóstolos. Eles criam: em um único Deus; empregavam a fórmula trinitária, especialmente no batismo; Jesus é chamado de Deus (Inácio).

2)      OS PAIS APOLOGISTAS (século II d.C.)
Os pais apologistas também não entraram nesta discussão, mas tinham a visão de Cristo como o Logos de Deus que é a razão pela qual Deus faz e dá estrutura a este universo.

3)      TERTULIANO DE CARTAGO (fim do século II d.C.)
-          foi o primeiro teólogo a usar o termo “Trindade”;
-          Cristo é o Logos, é um com Deus, mas distinto do Pai (ex.: sol, raio, calor)
-          ensinou o “subordinacionismo”: o Filho está subordinado ao Pai, o Pai é sempre maior, o Pai gera;
-          uso dos termos latinos: “persona” (indicava independência) e “substantia” (essência), desta forma ele usa a fórmula: uma substância e três pessoas;
-          rejeitou a idéia do “patripassionismo”: o Pai sofreu na cruz.

4)      MONARQUIANISMO (fim do século II d.C.)
Os mestre monarquistas rejeitavam o conceito trinitário de Deus. Havia apenas um Deus que era apenas uma pessoa. O monarquianismo foi de dois tipos diferentes.
-          Dinamista (Teodoto de Bizâncio)
sobre o homem Jesus veio, por ocasião de seu batismo, o poder (dynamis) de Deus e ele se torna o Cristo, um ser divinizado.
-          Modalismo (Paulo de Samosata e Sabélio)
-          Pai, Filho e Espírito Santo são de uma só substância e não podem ser diferenciados;
-          as três pessoas são modos do único Ser Divino se apresentar na história.

5)      A IGREJA (fim do século II e início do século III d.C.)
Neste tempo a maioria da igreja cristã aceita os princípios trinitários:
-          consubstancialidade do Filho com o Pai (uma “ousia” ou “substantia”);
-          três pessoas independentes (três “hypóstases” ou “personas”)



6)      ÁRIO DE ALEXANDRIA (século III d.C.)
-          Deus é uno, indivisível e não comunica nada de seu Ser a ninguém, logo o Filho é parte da criação;
-          Cristo é menor do que Deus e maior que o homem;
-          negava a pré-existência de Cristo: “houve tempo em que ele não existia”;
-          os atributos divinos dados a Cristo nas Escrituras eram funcionais, como honra que Deus lhe dava.

7)      ATANÁSIO (século III d.C.)
O diácono Atanásio foi ferrenho opositor de Ário e o grande defensor da Trindade. Seus argumentos contra o ensino de Ário é que isso levava a:
-          idéias politeístas e adoração à criatura (Jesus Cristo);
-          destrói a base da salvação por negar a divindade de Cristo.

8)      O CONCÍLIO DE NICÉIA (325 d.C.)
Cerca de 300 bispos compareceram a este concílio convocado pelo imperador Constantino. As decisões deste concílio definiram a fé da igreja até hoje sobre a Trindade e a divindade de Jesus Cristo. O credo do Concílio de Nicéia ficou assim:

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis;
e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substancia do Pai (ek tes oysías toy patrós), Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai (homooysion tô patrí), pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou (sarkôthenta) e se fez homem (enanthrôpésanta), e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos;
e no Espírito Santo.
E a quantos dizem: “Ele era quando não era”, e “Antes de nascer, Ele não era” ou que “foi feito do não existente (eks ouk óntôn)”, bem como a quantos alegam ser o Filho de Deus “de outra substância ou essência”, ou “feito”, ou “mutável” ou “alterável” a todos estes a Igreja Católica e Apostólica anatematiza.
(citação de Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. ASTE. p. 62)

9)      OS TEÓLOGOS CAPADÓCIOS
Os teólogos capadócios são: Basílio Magno, Gregório Nazianzo e Gregório de Nissa. Eles aceitaram o credo de Nicéia e apresentaram as seguintes idéias sobre a Trindade:
-          a relação entre as pessoas da Trindade não é subordinacionista: é horizontal, ou seja, as relações são eternas e não possuem inferioridade entre as pessoas;
-          corrigem o exemplo de Tertuliano: três sóis que dão o mesmo raio.

O SIGNIFICADO DA DOUTRINA
1)      Deus é um só em seu ser essencial (ele é um em essência). Não há divisão de essência (substantia/ousia).

2)      No Ser divino há três pessoas ou subsistências pessoais ou centros de consciência: Pai, Filho, Espírito Santo:
-          Deus subsiste em três pessoas, há distinções reais na Trindade;
-          cada pessoa é autoconsciente e autodeterminante.

3)      A essência de Deus, plena, não fragmentada, pertence por igual a cada uma das três Pessoas: Deus não está dividido em pedaços.

4)      As três pessoas da Trindade, embora distintas, não formam indivíduos separados:
-          o cuidado com o uso do termo “pessoa”;
-          não se trata de triteísmo.

5)      Não há subordinação das pessoas em termos de sua natureza ou dignidade pessoal:
-          contra o subordinacionismo.

6)      Embora não haja na sua natureza diferentes graus de divindade entre os três, há distinção de funções dentro da própria Trindade:
-          o Pai não é gerado e nem procede;
-          o Filho é eternamente gerado do Pai e junto com ele envia o Espírito Santo;
-          o Espírito Santo exala (procede) do Pai e do Filho por toda a eternidade.

7)      As obras de Deus são realizadas pelas três pessoas conjuntamente (acordo absoluto em pensamentos e propósitos) embora alguns aspectos dessas obras se atenham a uma pessoa em particular.


8)      A Igreja confessa que a doutrina transcende a nossa limitada compreensão humana e é assumida por fé na revelação de Deus conforme mostrada na Bíblia e auxiliada pela razão humana.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA 02.02 O SER DE DEUS: SEUS ATRIBUTOS

O SER DE DEUS: SEUS ATRIBUTOS

Professor Whitson Ribeiro da Rocha

 

DEUS E SEUS ATRIBUTOS

Deus é espírito (Jo 4.24). Ele se chama Yahweh (transliterado: Javé) “eu sou o que sou” ou “eu serei o que serei” (Ex 3.14; ver também Rm 1.20; Cl 1.15; Jo 1.18). Estas definições dadas pela própria Bíblia nos fazem ver um Deus que é totalmente diferente do que vemos e totalmente diferente do tempo, era em que estamos. Ele é superior às nossas matrizes de conhecimento e vida denominadas tempo/espaço.
O Deus bíblico conjuga, em seu ser, duas características que nos são logicamente contrárias:
-          ele é infinito (não tem limites);
-          ele é pessoal (possui inteligência, emoção e volição).
Só podemos conhecer o Deus bíblico através de seus atributos.

Os atributos de Deus:
-          não são “acidentais”;
-          pertencem à sua natureza à qual são idênticos;
-          são inseparáveis entre si.

São compreendidos analogicamente:
-          se fossem unívocos aos nossos, levaria ao panteísmo;
-          se fossem equívocos aos nossos, levaria ao agnosticismo;
-          são analógicos (semelhantes) aos nossos e aos da criação.

Um atributo divino é uma propriedade essencial de Deus. Uma propriedade é essencial para algum ser se, e somente se, a perda desta propriedade significa que este ser cessa de existir. Um atributo divino é uma propriedade que Deus não pode perder e continuar a ser Deus.
Propriedades relacionais não são propriedades essenciais. Exemplo: criador, juiz, preservador, Senhor de Israel, etc.
Os atributos não são meros nomes para uso humano sem referência ao Espírito divino. Nem estão separados e em conflitos entre si.
Os atributos são predicados de Deus: Deus é amor, justiça, sabedoria, etc.

 

 

OS ATRIBUTOS MAIS LIGADOS À INFINITUDE DE DEUS

Auto-existência
Deus existe sem causa: Jo 5.26; Ex 3.14 (Javé); Jr 10.10; Hb 11.6; At 17.24,25.
Todas as outras coisas existem por causa de Deus.

Onipotência
Um Deus onipotente pode fazer tudo? Não! Hb 6.18; Tg 1.13; Gn 18.14.
Deus pode fazer qualquer coisa que não seja inconsistente com seus atributos: Is 45.7; Lc 1.37.
Deus não pode:
-          ser supra-lógico: ex.: criar um círculo quadrado, determinar que 2+2=5, criar uma pedra tão pesada que ele não consiga levantar. Por quê? Isto feriria alguns de seus atributos tais como a imutabilidade, a fidelidade e a vontade. Além disto, se Deus for supra-lógico tudo passa a ser incerto;
-          mudar o passado: se mudasse o passado cairíamos no mesmo problema anterior em relação a seus atributos. Imagine se Deus mudasse o passado deixando de realizar o sacrifício de Cristo na cruz? Sendo assim não é correto orar para que Deus mude o passado;
-          fazer algo que seja imperfeito: pecar, mentir, etc.
O fato de que Deus não pode fazer estas coisas não é por alguma imposição externa a si tal como o destino, o tempo, a lógica, o fatalismo, as orações, etc., mas devido a seus próprios atributos.
Deus pode fazer tudo quanto determinar, a seu modo, conforme seus atributos.

Onisciência
Deus conhece todas as coisas e tudo que ele conhece é verdadeiro: Sl 139.1-6; Hb 4.13; Is 46.9-11; 44.7,8; Mt 10.29,30; At 15.8.
Deus conhece o necessário (o que era, o que é e o que será) e o contingente (as possibilidades do que poderia ser e não foi, é ou será) (ex.: I Sm 23.11-13; Mt 11.21-23).
Os objetos do conhecimento de Deus: ele mesmo (I Co 2.10,11) e sua criação (I Jo 3.20).
Textos que falam de seu esquecimento têm a ver com a não imputação da culpa: o perdão: Mq 7.18; Is 43.25.

Onipresença
Deus está igualmente presente em todas as partes do universo: Sl 139.7-10; Jr 23.24; At 17.28.
Onipresença não significa:
-          panteísmo: Deus é o todo;
-          universo é parte de Deus;
-          Deus se multiplique ou divida-se para estar em todo lugar.
A presença de Deus não é física e sim espiritual: Sl 139.11,12; I Rs 8.27.

Eternidade
Conceito mais simples: sem início e sem fim e sem sucessão de momentos em si mesmo: Sl 90.2; Dt 32.40; Ap 1.8; Ex 3.14.
Deus está fora do tempo: o tempo é um eterno presente para ele II Pe 3.8; Sl 90.4; I Tm 6.16; 1.17.
Deus criou o tempo, percebe os acontecimentos no tempo e age no tempo: Sl 48.14; Gl 4.4,5.

Imutabilidade
Deus é perfeito, qualquer mudança implicaria em imperfeição.
Por outro lado, faz alguma diferença em Deus a existência de suas criaturas.
Deus é imutável em alguns sentidos:
-          natureza e caráter (atributos), desejo e propósito (ação dos seus atributos): Tg 1.17; Sl 102.25-27; Nm 23.19; Ml 3.6; I Sm 15.29; Sl 33.11; Mt 5.18;  24.35; Rm 11.29; Is 46.9-11;
-          personalidade (porém com relações mutáveis).
As relações pessoais de Deus com suas criaturas são mutáveis: Deus não é nem imóvel e nem impassível (não sujeito a emoções), mas sente e age de forma diferente conforme a reação de suas criaturas: I Sm 2.30; Jn 3.10; Rm 8.32; Ef 4.30. As relações são mutáveis porque Deus é pessoal.
O arrependimento (por ex.: Gn 6.6) é um antropomorfismo, mas que reflete as relações pessoais.


OS ATRIBUTOS MAIS LIGADOS À PESSOALIDADE DE DEUS

Deus é um Espírito Pessoal
Como Espírito pessoal ele:
-          é Espírito: Jo 4.24;
-          ele não está dentro das categorias tempo/espaço da criação e, por isto, não é e nem pode ser representado por nada da criação: Ex 20.4-6;


-          “dizer que o Ser Divino é Espírito é dizer que ele existe como um Ser que  não é feito de matéria, que não tem partes nem dimensões, incapaz de ser percebido pelos nossos sentidos corpóreos e mais excelente do que qualquer outro tipo de existência” (Grudem, W. Teologia Sistemática. p. 134);
Como Espírito Pessoal ele tem:
-          inteligência: Rm 11.33,34; I Co 2.16;
-          emoções: Jo 3.16; Na 1.2,8; I Co 10.22;
-          volição: Ef 1.9; Rm 12.2; Sl 40.8; Mc 3.35.
Este é o modo mais elevado de existência que há. Nada se lhe compara: Is 40.25,26.

Santidade
Absoluta distinção de todas as suas criaturas: Ex 15.11; Is 57.15;
Distinção e transcendência no aspecto moral: Hc 1.13;
Pureza e integridade de caráter moral: Is 6.3; Sl 99.9; Hb 12.29;
Deus está fora de qualquer desejo, palavra e ação maligna: Sl 5.4; Tg 1.13.

Justiça
Capacidade de distinção entre seu modo de ser moral (o bem) e seu oposto (o mal): Is 30.18; Dt 32.4.
Deus mantém o governo moral do universo outorgando a todos o que merecem: Sl 99.4; Sl 33.22; Gn 18.25; Is 45.19.
Seu julgamento não é arbitrário nem caprichoso, mas com princípios e sem acepção: Sl 33.5; Hb 12.23; Rm 2.11.
A ira de Deus
É a sua justiça em ação para punir culpados: Rm 2.5-11; Na 1.2,3.
Sua ira não é igual à nossa: não é caprichosa e age sem acepção de pessoas.

Bondade
Característica da perfeição moral de Deus que o torna admirável, atraente e digno de louvor: Sl 100.5; 106.1; 34.8; Lc 18.19.
Deus é a fonte de todo bem do mundo: Tg 1.17; Sl 84.11.

Amor
O atributo mais extraordinário do Deus cristão.
Desejo de Deus de doar-se a outros seres, de dar todo bem a eles e possui-los para sua própria comunhão pessoal: I Jo 4.8,16; Jo 3.16; Sf 3.17.
Disposição firme da vontade que procura o bem do outro: Ef 1.4,5.
Graça
Característica de dar aquilo que os homens não merecem. É o amor manifestado a pessoas que não merecem: Sl 119.132; Ef 2.7-9; 1.6,7; Tt 2.11.
Misericórdia
Característica de reter ou modificar o julgamento merecido: Ex 34.6; Dt 4.31; Ne 9.17; Sl 103.8; Lc 6.35,36.

Fidelidade
A perfeição de seu ser no qual não muda a si próprio em relação a suas qualidades morais e cumpre tudo que promete: Nm 23.19; Hb 10.23; I Jo 1.9; II Tm 2.13.
Além de ser o único Deus verdadeiro, tudo que ele diz é verdade: Tt 1.2; Hb 6.18; Jo 17.17.

Sabedoria
Capacidade de Deus de selecionar os melhores fins e os melhores meios: Jó 12.13; Dn 2.20-22; Rm 11.33; 16.27; Sl 104.24; Rm 8.28-30.

Liberdade
Deus faz o que quer, condicionando-se apenas a si próprio: Sl 115.3; Dn 4.35; Pv 21.1.
Deus tudo faz conforme sua vontade: aprovação e execução do que ele acha necessário: Ef 1.11; Ap 4.11.

Glória

Capacidade que Deus tem de ser honrado e digno de admiração e louvor: Sl 24.10; 104.1,2; Jo 17.5.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA 02.01 A EXISTÊNCIA DE DEUS

SEMINÁRIO TEOLÓGICO BATISTA DE PRESIDENTE PRUDENTE

 

A EXISTÊNCIA DE DEUS

Professor Whitson Ribeiro da Rocha

 

Em nenhum momento discute-se na Bíblia a questão da existência de Deus. Ela é tomada como certa pela Palavra. Observe Gn 1.1: a) há um Deus; b) ele é criador; c) ele é diferente da criação. Mesmo os textos em que se menciona a opinião da inexistência de Deus, esta é entendida como falta da ação de Deus (Sl  14, 53).
A existência de Deus é dada como certa tanto pela criação como por seus atos redentores na história de seu povo: Gn 1.1; Js 3.10; Sl 90.53; Is 40.12-26; Jr 10.10-16; At 17.24-31.
Mesmo este pressuposto (a da existência de Deus) é um ato de fé (Hb 11.6) que o pecado humano tenta encobrir (Rm 1.18-23).

 


ARGUMENTOS RACIONAIS EM PROL DA EXISTÊNCIA DE DEUS


1) ARGUMENTO ONTOLÓGICO (Anselmo de Cantuária –  séc. XI)
            O argumento é apresentado da seguinte forma:
-          Deus é concebido como o Ser perfeito (isto inclui a existência);
-          não pode ser concebido nada maior, senão este não seria Deus;
-          Deus tem de existir, tanto no entendimento quanto na realidade.
Refutação deste argumento:
-          Galeano imagina uma ilha perfeita, ela pode não existir;
-          Kant (séc. XVIII): “a necessidade incondicional de um julgamento não forma a necessidade absoluta de uma coisa”.

2) ARGUMENTO COSMOLÓGICO (Tomás de Aquino – séc. XIII)
            O argumento é apresentado da seguinte forma:
-          todo efeito tem uma causa;
-          como existem coisas no mundo, deve existir uma primeira causa de tudo, que não foi causada.
3) ARGUMENTO TELEOLÓGICO (Tomás de Aquino – séc. XIII)
-          a ordem e regularidade do universo exigem um Deus que tudo planejou para sua finalidade.
Refutação destes argumentos:
-          Kant diz que os dois argumentos se reduzem, pois usam, no final das contas, o argumento ontológico a fim de converter a mera noção de um ser necessário em um ser realmente necessário;
-          Hume (séc. XVII) coloca em dúvida o princípio da relação causa-efeito;
-          da causa só pode ser dito que produz o efeito;
-          o criador e o projetista podem não ser os mesmos;
-          através do que o universo demonstra uma finalidade?;
-          este Deus-causador não é o que conhecemos como o Deus cristão.

4) ARGUMENTO MORAL (Kant – séc. XVIII)
-          a necessidade de um Deus para conciliar o “sumo bem” com a felicidade neste mundo.
Refutação deste argumento:
-          a moralidade é um longo desenvolvimento a partir de instintos animais;
-          não dá a ideia de um Criador;
-          forma Deus à imagem do homem.



5) ARGUMENTO ETNOLÓGICO
-          todos os povos têm a ideia de Deus.
Refutação deste argumento:
-          alguns argumentam que foi um erro dos ancestrais;
-          outros dizem que desaparecerá com a evolução da humanidade;
-          em si não prova que há um Deus.

A VALIDADE DESSES ARGUMENTOS

1)      Os argumentos racionalistas tradicionais para a existência de Deus não são convincentes.
2)      Igualmente não existem argumentos racionalistas tradicionais contra a existência de Deus que consigam provar sua inexistência.
3)      O fato de que os argumentos tradicionais não provem a existência de Deus não é nenhuma perda para o cristianismo.
4)      O homem deve ser confrontado com sua escolha: ou há um Deus que cria, dirige e dá desígnio ao Universo ou então tudo é obra do acaso e não há nenhum sentido último na realidade humana.
5)      Nossa prova da existência de Deus deve derivar de nossa experiência de Deus através da totalidade do evangelho: sua revelação e nossa experiência pessoal com ele por meio de Jesus Cristo.

6)      Embora não possamos provar racionalmente a existência de Deus o ser humano continua a ter uma certa consciência de Deus. Este é o ponto de contato para a mensagem cristã.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA 01.06 PARADOXOS BÍBLICOS

PARADOXOS BÍBLICOS

Robert D. Brinsmead

[Este artigo é da década de 70 do século passado que retirei de uma revista chamada “Pregoneros de Justicia” em espanhol. Fiz a tradução para o português. Seu autor é um teólogo australiano chamado Robert D. Brinsmead]


As verdades da revelação divina estão repletas de paradoxos. Parece que a Bíblia está cheia de contradições. Isto se deve a que, freqüentemente, a verdade deve apresentar-se à mente humana mediante duas declarações que aparentam estar em contradição.
Faz-se um grande dano à sã doutrina quando o homem se inclina para um só lado do paradoxo e ensina esta parte como a suma total da verdade. Outros pretendem ter o poder de “harmonizar” com facilidade estas aparentes contradições. Errando ao não perceber que a verdade é um paradoxo em si mesmo, torcem um lado do paradoxo para fazê-lo “harmonizar-se” com o outro. Finalmente, isto se converte em uma distorção da Palavra de Deus. Alguma vez você já se viu em um espelho que reflete sua imagem distorcida? A imagem retém todas as suas características essenciais, mas fora de proporção.
A teologia sistemática tem seu lugar correspondente, porém existe o perigo de reduzir os aspectos paradoxais e variados da verdade infinita a um sistema de lógica humana.
Ilustremos estes princípios com alguns exemplos da Palavra de Deus.

1)      Temor e Confiança

Os escritores da Bíblia aprovam o espírito que teme a Deus e treme ante a sua Palavra (veja Is. 66.5; Fl 2.12; Hb 4.1; Ap 14.7). Eles também nos exortam a que nos acheguemos a Deus sem temor: “cheguemo-nos pois confiadamente ao trono da graça ... tendo liberdade para entrar” (Hb 4.16; 10.19).
Aqui temos um paradoxo. Admoestam-nos a viver diante de Deus com temor e sem temor; temendo e confiando. Percebendo a verdade deste paradoxo, Lutero disse que o cristão deve viver com certo tipo de “confiança desesperada”.
Consideremos agora a seria distorção que resultaria em enfatizar só um dos dois lados do paradoxo. A alma tímida e desconfiada de si mesmo necessita da segurança de que o grande Rei, que está sentado sobre o trono da eternidade, abra de par em par os portais eternos de seu Reino ao toque singelo de uma criança. Por outro lado, o presunçoso da “Revolução de Jesus” deve confrontar-se com a verdade de que a reverência e o temor piedoso compõem a primeira lei da adoração. Nosso Deus é um Deus terrível em majestade, em santidade, em pureza e em ódio contra o pecado. Não devemos nos atrever a aproximarmo-nos dele com uma familiaridade descuidada, nem tão pouco fazer dele um personagem qualquer. Vem agora, à nossa memória, o que disse Lutero acerca de alguns dos espíritos radicais de Wittenberg. O reformador queixou-se de que eles “falavam a Deus como se ele fosse o aprendiz de um sapateiro”. Nós também protestamos contra a familiaridade irreverente que caracteriza grande parte do avivalismo popular de hoje em dia. Não temos necessidade de líderes jovens que meramente aconselham outros jovens a chegar-se a Deus com confiança temerária. Isto os faria cair no erro da presunção irreverente. A juventude necessita de toda a Palavra de Deus. Quando aprenderem a temer à Majestade do Céu e a tremer ante o assento de seu juízo, então compreenderão apropriadamente o que significa ter plena confiança na presença de Cristo e no nome de Jesus.

2)      Repouso e atividade

O Evangelho é um chamado ao repouso. O Senhor nos convida: “vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados e eu os aliviarei” (Mt 11.28). E o apóstolo Paulo diz: “porque o que entrou em seu repouso, também tem repousado de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4.10). No entanto, o crente em Jesus é chamado ao trabalho árduo. Jesus continua: “tomai sobre vós meu jugo (um instrumento de trabalho árduo e de serviço pesado)” (Mt 11.29). O apóstolo Pedro admoesta aos crentes: “vós também, pondo toda a diligência, ajuntai à vossa fé ... procurai tanto mais fazer firme vossa vocação e eleição” (I Pe 1.5,10). E, em outro lugar diz: “cingindo os lombos do vosso entendimento” (I Pe 1.13).
Tanto Jesus como seus apóstolos chamam-nos repetidamente a uma luta, a um labor, a um trabalho, a cuidar de permanecer nas boas obras, a levar a cruz, a sofrer tribulação, a lutar a boa peleja e correr a carreira cristã com paciência.
Aquele que mais plenamente descansa em Cristo e sua salvação gratuita será o mais fervoroso em seu serviço a Deus. Por outra parte, uma ênfase contínua sobre o descanso em Cristo e em esperar confiadamente no Senhor, excluindo uma ênfase adequada sobre o lado oposto, conduz até o quietismo. Uma ênfase exagerada sobre o dever da atividade cristã conduz a um ativismo pietista. Pelo visto, a verdadeira mensagem da justificação pela fé está no meio de duas distorções.

3)      Fé e Obras

Foi Melancton quem disse: “somos justificados somente pela fé mas a fé que nos justifica nunca está só”. O grande apóstolo Paulo se destaca por sua insistência sobre a fé como único instrumento necessário para receber a graça de Deus que justifica. Contudo, Paulo pode ser igualmente enfático sobre a questão da necessidade do serviço de amor. Ninguém se salvará por suas boas obras; no entanto, é igualmente certo que nenhuma alma que permaneça na ausência de boas obras será salva.
As pessoas podem tornar-se indolentes quando se dá uma ênfase unilateral sobre a fé. Lutero se viu obrigado a queixar-se disto. Certamente, ele também estava completamente consciente do erro oposto. O reformador comparou seus esforços em favor das pessoas de seu povo com a tarefa de montar um cavaleiro alemão embriagado sobre um cavalo: quando se suspende ele por um lado do cavalo, cai pelo outro lado. Alguns mestres seguiram dizendo: “você não tem nada que fazer. Tudo que tem que fazer é crer”. Não negamos que haja algo de verdadeiro nesta declaração. Se se toma a fé em seu sentido bíblico mais amplo e completo, a fé é a única coisa necessária. A pregação da cruz de Cristo cria fé e esta fé permanece ativa no serviço a Deus e aos homens. A fé não é um ópio para colocar as pessoas para dormirem. A fé é um estimulante que desperta toda a energia da alma. Nunca se deve deixar a impressão entre as pessoas de que as boas obras não são necessárias ou que não têm importância. Ninguém pode ler as lições práticas de Jesus Cristo e obter esta impressão distorcida.
Os escritos de Paulo ensinam claramente duas coisas: a justificação pela fé e um juízo final de acordo com as obras. Pode ser que estas duas grandes verdades pareçam paradoxais mas é necessário ensinar ambas. Santiago Buchanan, em seu grande clássico sobre a doutrina da justificação pela fé, registra as palavras que ouvia de seu professor Dr. Chalmers: “desejo que todo pregador enfatize veementemente sobre estas duas doutrinas: uma justificação presente por graça, pela fé somente; e um juízo futuro, de acordo com as obras”. A isto, Buchanan acrescenta: “todo ministro fiel tem feito uso de ambas para se guardar, por um lado do perigo do legalismo da justiça própria e, por outro lado do antinomianismo prático” (The Doctrine of Justification, pg. 252,253).

4)      Lei e Evangelho

Toda a Bíblia divide-se nestas duas categorias: a lei e o evangelho. A lei requer que ajamos, atuemos e corramos no caminho dos mandamentos de Deus. Qualquer coisa que nos indique o que devemos fazer, como devemos viver e o que temos de ser, é lei. Por exemplo: “amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Lv. 19.18); “amemo-nos uns aos outros com amor fraternal” (Rm 12.10); “não ameis ao mundo” (I Jo 2.15); “tendes paz uns com os outros” (Mc 9.50). A lei não é um ensino só do Antigo Testamento. Aparece também em todos os ensinos de Jesus e de seus apóstolos. Em contraste com isto, o evangelho proclama: “não temais, estai firmes e vede a salvação que Jeová fará” (Ex 14.13); “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Não se diz o que devemos fazer para Deus. Proclama o que o braço poderoso de Deus nos deu gratuitamente. Em Cristo Jesus, Deus nos tem dado tudo o que a lei requer de nós (Rm 10.4), a saber, perfeita justiça para seu cumprimento e perfeita expiação para sua satisfação.
Edmund Schlink diz em seu livro Theology of the Lutheran Confessions que “assim como não se pode pregar a lei sem Cristo, de igual modo não se pode pregar a obra de Cristo sem a lei” (pg. 86). Como podemos conhecer nosso pecado e a magnitude de nossa dívida sem a lei? (Rm 3.20; 7.7-13). Aquele que nunca teve a lei como aio para instruí-lo no tocante a amargura do seu pecado, nunca poderá apreciar a doçura do evangelho da graça salvadora. Mais ainda: dado que o evangelho nos dá tudo o que a lei requer de nós (Rm 10.4), como poderíamos apreciar o que Deus nos há dado sem ter escutado primeiramente a lei?
Deve-se distinguir cuidadosamente entre a lei e o evangelho. Nisto consiste a pedra angular da Reforma. Contudo, ambas as coisas devem ser preservadas em uma tensão apropriada, como diz a Fórmula de Concórdia: “cremos e confessamos que estas duas doutrinas (a lei e o evangelho) devem imiscuir-se na igreja de Deus sempre e sempre, até o fim do mundo” (Book of Concord, pg. 261).
O poder da pregação do evangelho será proporcional à da pregação da lei. Permita-se que a lei caia em desuso e o evangelho se converterá em mero sentimento, em “graça barata”, em uma mensagem que cansa o mundo. Proclame-se e exalte-se a lei de Deus como a expressão de sua santa vontade e os pecadores clamarão: “que devo fazer para ser salvo?”. Por outra parte, quando se põe de lado o evangelho, triunfam o moralismo, o farisaísmo e a justiça própria e os defensores do evangelho social tratam de estabelecer o Reino de Deus mediante a atividade humana.
Se nos mantemos na fé da doutrina da Reforma, no tocante à justificação pela fé, veremos que o evangelho não cancela a lei e nem a lei debilita o dom gratuito do evangelho. Não se pode descuidar de um sem descuidar do outro
Vivemos em uma era em que a autoridade desprezada. Por trás disto, está a hostilidade humana contra a autoridade de Deus, contra seu governo e contra sua lei. Grande parte da pregação atual no tocante à justificação pela fé, entre os chamados protestantes, nada mais é que um sentimentalismo que não leva os ouvintes ao arrependimento por haver transgredido a santa lei de Deus. Nem tampouco produz vidas que mostrem grande respeito por essa lei. Tal pregação, nem de longe, se parece com a mensagem dos puritanos, ou dos reformadores ou ainda dos apóstolos.
A lei e o evangelho constituem um paradoxo. Devem preservar-se em uma tensão adequada. Se não fizermos isto, vamos distorcer o evangelho de Cristo.

5)      A Natureza do Cristão

O cristão é um santo ou um pecador? Lutero lutou com este enigma até que pode dizer a famosa frase que susteve toda a armação teológica da Reforma: simul justus et peccator, ou seja, “simultaneamente, justo e pecador”. Este é um tremendo paradoxo. O partido católico-romano não pode compreendê-lo. Porem, quanto mais examinamos este paradoxo, mais luz irradia dele, aclarando outros mistérios que aparentemente não teriam solução.
O crente em Jesus Cristo é justo ante Deus porque Deus mesmo o declara justo por causa de Cristo. Além disso, mediante o Espírito, torna-se uma nova criatura, e por causa disto, começa a comportar-se retamente. Por outro lado, nunca deve imaginar-se sem pecado (I Jo 1.8). Deve confessar a pecaminosidade de sua natureza (Rm 7.14-25) e rogar constantemente pelo perdão ao dar-se conta que, continuamente, não alcança o ideal de Deus, apesar de seus melhores esforços e deveres mais sagrados (Ec 7.20; Rm 3.23). O crente tem a mesma natureza pecaminosa que têm os demais homens. Por esta razão, é que a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne (Gl 5.17).
A fim de obter uma visão correta da vida cristã, devemos considerar ambos os lados do paradoxo: uma vitória diária sobre o pecado e a natureza pecaminosa mediante o poder do Espírito de Deus e a inevitável maldade da pecaminosidade humana.
O “movimento de santidade” enfatiza a vida vitoriosa como uma possibilidade para o cristão. Centraliza-se em algumas passagens da Escritura, tais como: “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4.13). Enfatiza muitas verdades que a fria ortodoxia formalista necessita escutar. Não obstante, o “movimento de santidade” cai em uma séria distorção, ao prestar pouca atenção ao outro lado do paradoxo. Omite a realidade da inevitável pecaminosidade de todos os santos nesta vida, o qual está registrado em termos inequívocos em Rm 7.14-25.
O movimento pentecostal moderno apela ao desejo humano de escapar do contínuo sentido da pecaminosidade pessoal e da incapacitação humana, que sempre foram imposições hereditárias por causa da natureza pecaminosa que até os santos possuem. Desta forma, muitos são tentados a buscar experiências sobrenaturais “no Espírito”, que os libere da tensão diária de ser “simultaneamente justo e pecador”. Grande parte da ênfase de santificação pentecostal vem de tratar de obter prematuramente a glória porvir, sendo um intento de trazer ao agora do processo histórico, o “ainda não” da eternidade (ver I Jo 3.2).
Por outro lado, uma grande maioria dos que seguem a corrente mais ortodoxa do protestantismo cai na distorção conhecida como negativismo. Isto se depreende do fato de sustentar uma ênfase correta, mas desbalanceada, sobre a pecaminosidade humana. Como conseqüência, um grande número de cristãos professos desculpam com facilidade seu pecado pessoal, abrigam-se na misericórdia de Deus e esperam que a eternidade lhes traga a vitória que devem experimentar aqui no presente.

6)      Segurança e perigo de cair

Um presbiteriano calvinista encontra-se em certa ocasião com um metodista arminiano e lhe diz:
– “Tenho ouvido que vocês, metodistas, crêem que se pode cair da graça”.
– “E eu tenho ouvido que vocês, presbiterianos, crêem que se pode roubar cavalos”, replica o metodista.
– “Claro que não. Nós não cremos em tal coisa”, diz o presbiteriano.
– “Mas, vocês não crêem que é possível que um presbiteriano roube um cavalo?”, argúi o outro.
– “Claro que sim. Isto é possível, porém nós não cremos nisto (em roubar cavalos)”, contesta o presbiteriano.
– “Nem tampouco nós cremos em cair da graça”, diz o metodista.
            A maioria de nossos leitores deve entender dos argumentos que se usam para sustentar tanto o calvinismo quanto o arminianismo nesta área teológica. O calvinista gosta de enfatizar a segurança do crente (as tradições menos sofisticadas do calvinismo reconhecem isto como “uma vez salvo, para sempre salvo”). O arminiano encontra-se bem equipado com uma série de textos que admoestam o crente a respeito do perigo de cair da fé em Cristo.
            Depois de haver feito uma conferência em Nova Zelândia, este editor teve o prazer de atender a um cavalheiro cristão que se aproximou para perguntar. Desejava saber se este escritor estava solidamente fundado sobre o que ele considerava ser a base da Reforma: o “uma vez salvo, para sempre salvo”. A conversa foi semelhante a esta:
– “Você não nega a doutrina da segurança eterna para o homem que aceitou a Cristo, não é?”, perguntou ele.
– “Eu creio na segurança eterna do crente. Porem, recordo que o crer bíblico não é só um ato. No Novo Testamento, a palavra crer escreve-se geralmente em um tempo presente contínuo”, respondi a ele.
– “Então posso presumir que você não é um arminiano?”, ele perguntou.
– “Isso é correto”, respondi.
– “Fico contente de ouvir isto”, ele exclamou.
– “Diga-me, sobre que escrituras você fundamenta sua doutrina da segurança eterna?”, eu lhe perguntei.
– “’Eu lhes dou a vida eterna; não perecerão jamais, nem ninguém as arrebatará das minhas mãos (Jo 10.28). Aos que me deste, eu os guardei e nenhum deles se perdeu (Jo 17.12). E aos que predestinou, a estes chamou; e aos que chamou, a estes justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou (Rm 8.30)’”, respondeu ele.
– “Nós dois podemos ter muita satisfação nestas escrituras que prometem segurança ao crente. Mas você crê nestas outras escrituras? ‘Pois os ramos, dirás, foram quebrados para que eu fosse enxertado. Bem, por sua incredulidade foram quebradas, porém tu, pela tua fé, estás em pé. Não te ensoberbeças mas teme’ (Rm 11.19-20). ‘Todo ramo que, em mim, não dá fruto, ele arrancará’ (Jo 15.2). ‘Golpeio meu corpo e o coloco em servidão, para que não aconteça que, tendo ensinado a outros, eu mesmo venha a ser desqualificado’ (I Co 9.27). ‘Pelo qual, irmãos, tanto mais procurai fazer firmes a vossa vocação e eleição; porque fazendo estas coisas não caireis jamais’ (II Pe 1.10). ‘E a vós outros também, que noutro tempo éreis estranhos e inimigos em vossa mente, fazendo más obras, agora vocês foram reconciliados em seu corpo de carne, por meio da morte, para apresentar-vos santos, sem mancha e irrepreensíveis diante dele; se, em verdade, permaneceis fundados e firmes na fé e sem se moverdes do evangelho que haveis ouvido, o qual se prega a toda a criação que está debaixo do céu; do qual, eu, Paulo, fui feito ministro’ (Cl 1.21-23). ‘Quanto maior castigo pensais que merecerá o que pisar no Filho de Deus e tiver por imundo o sangue do pacto no qual foi santificado e fazer afronta ao Espírito da graça?’ (Hb 10.29). ‘De Cristo vos desligastes, vós que pela lei vos justificais, da graça decaístes’ (Gl 5.4). Muito bem, você crê também nestes textos?”
– “Sim, tenho que crer nestes textos porque estão na Bíblia”, ele respondeu.
– “Porem, você realmente leva a sério estas escrituras tanto quanto você faz com os textos que agora a pouco me citou sobre a segurança do crente?”, perguntei?
– “Suponho que não”, ele me disse.
– “Por este motivo é que Lutero adotou a posição correta a respeito deste assunto. Ele compreendeu plenamente que a verdade, no tocante a este assunto, podia expressar-se somente por dois grupos de declarações que aparentavam opor-se entre si. Sua ênfase não era nem calvinista e nem arminiano. Ele aceitou cada lado do paradoxo com igual seriedade e preservou assim a tensão apropriada entre a confiança na sua segurança em Cristo e o temor que procede da possibilidade de cair da graça. Peço que não tome com menor seriedade os textos que citou. Simplesmente eu lhe exorto a que tome, com igual seriedade, o outro lado do paradoxo. A menos que faça isto, sua visão da verdade será distorcida”, disse eu.
– “Muito obrigado. Quero estudar um pouco mais este assunto”, ele terminou.


7)      Predestinação e expiação para todos

Alguns de meus amigos sustentam que eles devem crer em uma “expiação limitada” a fim de poder ser consistentes com a doutrina da predestinação. Algumas cartas dirigidas a este editor, reclamam que toda a Reforma se fundou sobre os conceitos da predestinação e da expiação limitada. Nós admitimos rapidamente que, humanamente falando, a predestinação e a expiação limitada são idéias consistentes entre si mesmas. Mas, nos apressamos também a dizer o seguinte: “pontos de vista extremistas têm a vantagem de ser surpreendentemente consistentes” (H. Bezzel, Berufung und Beruf, pag. 64). Tal consistência se adquire ignorando ou destruindo a natureza paradoxal da verdade divina.
Além disso, devemos assinalar que o maior reformador cria na predestinação e numa expiação não limitada. Alguns dirão: “desafortunadamente, Lutero não foi consistente”. Se a consistência significa destruir o paradoxo bíblico, Lutero seria o primeiro a admitir que seu ensino não fosse consistente. Porem, ele estava muito consciente que as verdades da revelação divina, em geral, aparentam ser antitéticas e ilógicas para a razão humana.
Paulo não começa sua carta aos romanos com o tema da predestinação. Ele parte da justificação para a fé até chegar à predestinação. Ele faz isto para mostrar que Deus é o único autor de nossa fé e que toda noção que insinue o mérito humano deve ser rechaçado.
Até os reformadores que adotaram o ponto de vista de um determinismo mais rígido, não defenderam seu ponto de vista porque este tivera alguma validade intrínseca. O que eles perseguiam era a exclusão do mérito humano no plano salvador. Lutero achou útil a doutrina da predestinação quando disputava com homens como Erasmo, dado que esta doutrina acabava com toda a iniciativa, no assunto da salvação, das vontades humanas caídas e colocava toda a iniciativa salvadora sobre a vontade divina unicamente.
Olhemos agora o outro lado do paradoxo: o trabalhar e o morrer de Cristo Jesus pelos pecadores do mundo inteiro. Ensina a Bíblia que Jesus morreu por todas as pessoas? “E ele é a propiciação por nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro” (I Jo 2.2); “porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16); “porque Deus encerrou a todos debaixo da incredulidade, para ter misericórdia de todos” (Rm 11.32); “porem, o anjo lhes disse: ‘não temais, pois eis que vos trago novas de grande alegria que será para todo o povo, que nasceu hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.’” (Lc 2.10,11); “porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23); “porque não há acepção de pessoas para com Deus” (Rm 2.11); “assim pois, pela transgressão de um, veio a condenação a todos os homens, assim também, pela justiça de um só homem, veio a justificação da vida a todos os homens” (Rm 5.18); “porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos, do qual se deu testemunho em seu devido tempo” (I Tm 2.5,6); “que por isto mesmo, trabalhamos e sofremos opróbrio, porque esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos que crêem” (I Tm 4.10); “porque a graça de Deus, que traz salvação a todos os homens, se manifestou” (Tt 2.11); “o Senhor não retarda sua promessa, ainda que alguém a tenham por tardia, senão que é paciente para conosco, não querendo que ninguém se perca, mas que todos cheguem ao arrependimento” (II Pe 3.9).
Não faz muito tempo, este escritor leu um livro sobre a predestinação, escrito por um calvinista fervente. Uma grande seção de seu livro estava dedicada a “explicar” e “harmonizar” com seu determinismo rígido, textos tais como os que citamos no parágrafo anterior. Depois de muitas páginas repletas de explicações detalhadas e de trabalho minucioso, expressou sua satisfação de ter um ponto de vista consistente. Porem, “pontos de vista extremistas têm a vantagem de ser surpreendentemente consistentes”.
Em certa ocasião, Martinho Lutero recebeu uma carta de um homem profundamente angustiado pela dúvida de se era ou não um dos predestinados para a salvação. O reformador respondeu assim: “te suplico que olhes para as palavras de João 3.16 para determinar como e de quem é que o texto fala ‘de tal maneira amou Deus o mundo’ e ‘para que todo aquele que nele crê’. Veja bem, ‘o mundo’ não significa Pedro e Paulo somente, mas a raça humana completa. Todos juntos. E aqui não se exclui a ninguém. O Filho de Deus foi entregue por todos. Todos devem crer e todos que crêem não se perdem. Rogo-te que agarres o teu nariz para que determines se és ou não um ser humano (isto é, parte do mundo) e se pertences ou não, como qualquer outro homem, ao número dos que se incluem na palavra ‘todo’” (What Luther says, pag. 608).
Uma das razoes do surpreendente êxito do reavivamento wesleyano foi seu apelo universal de que Cristo morreu por todos. As alegres e gratas novas da graça ilimitada de Deus puseram os corações a cantar, as vozes a soar, os pés a correr. Wesley aborrecia o pensamento de qualquer tipo de frio determinismo. Seus críticos puderam assinalar alguns pontos débeis em sua teologia, porém Wesley tinha um conceito geral no tocante ao caráter de Deus muito melhor do que tinham os seus críticos mais ortodoxos. E poucos negam que ele fez mais bem do que todos eles.
Não distorçamos as declarações simples da Bíblia para acomodá-las a nosso esquema de teologia sistemática.

8)      Justificação e Santificação

Quando tratamos do assunto da relação que existe entre a justificação e a santificação, não podemos deixar de fazê-lo sem falar de paradoxos. Toda a história da igreja é uma luta por sustentar ambas as facetas em uma tensão adequada.
Somos justificados unicamente mediante uma obra efetuada fora de nós mesmos, mas somos santificados mediante o Espírito de Deus que age dentro de nós. A essência do legalismo católico-romano consiste em depender da obra de renovação interna para ser aceito por Deus. No entanto, a essência do antinominianismo protestante consiste em supor que podemos ser santificados e capacitados para viver no céu mediante a obra que Cristo efetuou fora de nós.
Nenhuma quantidade de santificação pode assegurar a entrada de alguém no reino da graça; mas a justificação sempre cai em perigo se alguém não se exercita na santificação. A obediência não pode assegurar-nos a bênção do perdão; porém por uma desobediência persistente e voluntária pode-se vender a primogenitura.
Contudo, agora precisamos dar uma olhada no outro lado do panorama. A santificação cai em perigo se não se baseia na justificação. Deve haver um retorno constante à justificação, à palavra de perdão, se é que se quer preservar a santificação livre do farisaísmo e da justiça própria. As orações e o serviço piedoso são aceitáveis apenas pela graça. A verdade da justificação à responsabilidade tudo o que fazemos. O verdadeiro crescimento cristão existe só aonde o apreço pela justificação vai junto no crescimento. Em nossa santificação progressiva, nunca havemos de chegar a um ponto tal donde nossa aceitação para com Deus não descanse inteiramente sobre o perdão dos pecados.
A necessidade constante da justificação pela fé significa que a pecaminosidade humana é um fato do qual não podemos escapar, porquanto não há homem sobre a terra que não peque (Ec 7.20), e porque todos permanecem longe de alcançar a glória de Deus (Rm 3.23). Porém, a santificação nos instrui em nosso dever positivo de evitar o pecado. Por um lado nos chama a repousar, por outro lado, a uma vida de fervorosa atividade.
A justificação nos dá a perfeição e a santificação nos motiva a dirigir-nos até ela. Mediante a fé que justifica, o coração fica limpo de todo pecado; contudo, Deus nos chama a continuar na purificação de nossas almas mediante a obediência e a verdade. Assim, como estes, podemos mencionar muitos aspectos mais que guardam uma relação paradoxal entre a justificação e a santificação. Esta relação nós também conhecemos como o paradoxo da possessão presente e a esperança futura, o paradoxo de sermos puros e, ao mesmo tempo, impuros, de possuir todas as coisas e de não ter nada (II Co 6.10), a de descansar na fé e trabalhar em amor, de sermos livres pela fé e servos de todos por amor, de sermos consolados e admoestados. Também vem à nossa memória, a experiência paradoxal do grande apóstolo: “somos atribulados em tudo mas não angustiados; em apuros mas não desesperados; perseguidos mas não desamparados; derrubados mas não destruídos; levando no corpo sempre, em todos os lugares, a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos. Porque nós que vivemos estamos sempre sendo entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (II Co 4.8-10).

Como relacionar-se com o paradoxo

Nesta vida, devemos viver aceitando os paradoxos de ter e não ter, de ser justos e injustos, de estar completos e incompletos, de descanso e de atividade, de crer e fazer, de confiar e temer, de ser capaz de fazer todas as coisas mediante Cristo Jesus e de não poder fazer o que queremos, de evitar o pecado e de confessar sua inevitabilidade, de ser vitoriosos sobre o pecado e de lamentar que, ao fazer o bem, o mal está em nós. Devemos aceitar os paradoxos de progresso e arrependimento, de liberdade e sujeição, e assim por diante. Repetimos, é um sinal de imaturidade cristã enfatizar um só lado do paradoxo com o propósito especial de cancelar a verdade do outro lado.
A lei e o evangelho, a fé e as obras, a justificação e a santificação e todos os outros grandes paradoxos da Bíblia devem manter-se em uma tensão adequada. Se proclamamos a glória da graça justificadora de Deus e imaginamos que só isto basta para motivar as pessoas a buscarem uma vigorosa santificação, não vai demorar muito para que compreendamos que a natureza pecaminosa necessita de advertência e admoestação aguda no caminho da obediência. Para que a linguagem da experiência cristã não eleve seu volume e se torne confiada, sempre deve haver um retorno à formidável segurança da justificação; doutro modo, a santificação se transformará em um romantismo místico ou em pretensões de completa santificação.
Pense na forma como os aviões conseguem voar. Existem duas forças antitéticas agindo aí: a gravidade e a velocidade. Uma não deve cancelar a outra porque o segredo da arte de voar está em manter ambas as forças em uma tensão adequada. Se não se mantiver a tensão adequada entre a velocidade e a gravidade, tanto o avião quanto seu piloto vão cair. Se a gravidade cessasse, o avião se perderia no espaço em uma órbita desconhecida.

Que Deus nos ajude a manter uma pregação da verdade bíblica balanceada e sem distorção.