A PRIMEIRA CEIA DO
SENHOR
É interessante
como o escritor Lucas narra a Páscoa de Jesus no texto de 22.14-20. Nos v.
14-18, ele narra a Páscoa judaica. Ali está o cordeiro assado, pão sem
fermento, ervas amargas e vinho. Celebravam a libertação do povo de Israel do
Egito. Eles comem e bebem e Jesus mesmo diz que celebrava a Páscoa (v. 15). Mas
eis que nos v. 19-20, Jesus repete a comida, agora apenas com o pão e o vinho. Muitos
estudiosos dizem que Lucas tão somente repete a mesma cena de v. 14-18. Mas penso
que Lucas está distinguindo deliberadamente os dois textos. Em 14-18, Lucas nos
fala da celebração da última Páscoa de Jesus e em 19-20 Lucas fala da primeira
Ceia do Senhor. É a transição da Páscoa judaica para a Páscoa cristã, do Antigo
para o Novo Testamento, da velha para a nova aliança. O relato da primeira Ceia
do Senhor está no texto de Lucas
22.19-20.
“E, tomando pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho
dizendo, dizendo: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória
de mim’” (v. 19). Jesus agora inicia um novo momento só com pão e vinho.
O pão era a comida comum naqueles tempos, como o nosso arroz com feijão hoje.
Ele primeiramente agradece a Deus, não pelo pão em si, mas pelo que ele
representa na salvação dos homens. No texto original grego, a palavra dar
graças é “eucaristia” e este nome ficou consagrado na Igreja Católica. Jesus
compreendia que tudo vinha da boa mão de Deus, inclusive sua morte. O texto
original diz que Jesus “quebrou” o pão e é este o significado de “partir o
pão”. Quebrar o pão tinha a ver com sua morte violenta no dia seguinte. Após
partir, ele dá o pão a todos os presentes. O pão é dado gratuitamente e, ao ser
dado, passa a ser deles. A salvação que Jesus realizou na cruz é entregue
gratuitamente a todos que nele creem e, a partir da fé, passa a ser deles
verdadeiramente. O dar tem o sentido de que algo que pertence a alguém passa a
ser do outro, para desfrute daquele que recebeu.
Jesus então passa
a informar o seu significado para o que ele está fazendo naquela Ceia. O “isto”
abrange toda a cena (pegar o pão, agradecer, quebrar, dar e comer) e não
somente o pão. Toda a cena é o corpo dele oferecido, é sua vida. Neste ato de
oferecimento, Jesus valoriza o corpo humano como corpo de ações que valem por
toda a eternidade. Seu corpo vivo/morto vai trazer salvação eterna a todos:
corpo por corpos, vida por vidas. O sacrifício dele é totalmente em favor deles.
Tudo é para eles. Tudo sai de graça para eles. Cristo tem todo o ônus do
sacrifício e eles têm toda a bem-aventurança do recebimento.
A ordem de Jesus é
que seus discípulos repitam a cena e realizem constantemente esta Ceia. O
objetivo de Jesus é que eles jamais percam a memória de que, neste sacrifício,
foram salvos. Ao celebrar a Ceia do Senhor, nunca se esqueça que Jesus morreu
na cruz por você e pelos seus irmãos. Ah! E quando celebrar, ele mesmo estará
presente.
“Semelhantemente, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: ‘Este
cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (v. 20).
Jesus bebe do vinho num cálice comum, como era costume naquela época. O vinho
está no lugar do sangue de Jesus tal como o pão simbolizava seu corpo. E por
que simbolizar o sangue? Porque o sangue representa a vida! Em Levítico 17.11
lemos “Porque a vida da carne está no sangue; e eu
o tenho dado a vós sobre o altar, para fazer expiação por vós, porque é o
sangue que faz expiação pela vida”. A velha aliança que Deus fez com o
povo de Israel através de Moisés era baseada no sangue de animais. Esta velha
aliança acabou! A nova aliança de Deus com a humanidade é feita no sangue de
Jesus Cristo. A primeira foi temporária, a nova é eterna e vale para todos os
tempos. Este sangue é derramado “por vós”. É o sangue de Jesus derramado na
cruz que autentica e garante a nova aliança entre os seres humanos e Deus.
Por que Jesus
instituiu esta Ceia composta de pão e vinho? O pão da Ceia do Senhor está em
contraposição a uma outra ceia que se encontra em Gênesis 3.6: “Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer,
agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu
fruto, comeu e deu a seu marido, e ele também comeu”. Ela tomou do fruto,
deu e comeu junto com seu marido. Na Ceia de Jesus, ele tomou do pão, deu e
comeram. A Ceia do Senhor corrige a de Adão e Eva. A ceia de Adão foi a do
pecado, da rebelião e da desgraça de toda a raça humana. A Ceia de Jesus foi a
da morte pelos pecados humanos, da reconciliação entre Deus e os seres humanos
e da graça da salvação. O vinho, que representa o sangue de Jesus, está em
contraposição à morte de animais da velha aliança de Moisés: “(Levará o animal perante o Senhor) porá a sua mão sobre a
cabeça do holocausto, e este será aceito em favor dele, para sua expiação.
Depois sacrificará o novilho perante o Senhor; e os sacerdotes, filhos de Arão,
oferecerão o sangue (...)” (Levítico 1.3,4). O sangue de animais foi
aceito por Deus até que viesse o sangue precioso de Jesus, o Cordeiro que tira
o pecado do mundo. A ênfase em toda a Ceia de Jesus é a expressão “por vós, em
favor de vós”. Na cruz, Jesus nos assumiu com toda a vilania de nossos pecados,
resolveu nossa condenação perante seu Pai e nos deu a vida eterna. Como não
amar tão grande Salvador?
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