O APAGÃO DA FÉ
Jesus havia
nomeado seus discípulos para ser os líderes do reino de Deus. O problema é que
eles ainda pensavam em um reino político-militar. Como Jesus sabia que o reino
envolvia cruz e sofrimento, ele começa a preparar Pedro e os demais para o que
virá. Os discípulos de Jesus são pessoas de fé. Mas na vida de cada um, ocorrem
situações em que a fé parece terminar e a pessoa vive numa incredulidade
temporária. É o apagão da fé que pode durar horas ou anos. Pedro, como exemplo
de todos os cristãos, vai ter de enfrentar seu apagão em Lucas 22.31-34.
Jesus falou de
coisas gloriosas futuras como a liderança do reino de Deus. Agora ele fala do
difícil presente. Assim ocorre na vida de todos os discípulos: um futuro
glorioso e um presente de fraqueza. Todos são indignos do futuro que Deus dará.
Jesus escolhe o líder natural do grupo para servir como exemplo: “Simão, Simão, Satanás vos pediu para peneira-los como trigo”
(v. 31). Simão era o nome natural dele. Jesus trocou seu nome para Pedro. A
troca tinha a ver com a liderança que ele teria na nascente igreja. Mas aqui,
Jesus se dirige a ele pelo seu nome Simão duas vezes a fim de chamar a atenção
para o que vai dizer. É sério e importante. Satanás é o inimigo de Deus e do
seu povo. Um ser angelical que se devotou ao mal. Segundo Jesus, todos os
apóstolos seriam alvos da tentação deste ser. Satanás queria destruir o grupo
todo, testando a força espiritual de cada um, como fez com Jó. Jesus usa a
figura tão comum de sua época de peneirar o trigo. Faziam isto para separar o
grão bom da palha e dos grãos ruins. O objetivo de Satanás era que abandonassem
a fé em Jesus e, desta forma, mostrar quão indignos estes homens eram. Satanás
não conhece a graça, ele só trabalha com os conceitos de mérito e fraqueza.
Mas agora Jesus se
contrapõe ao Satanás e intercede especificamente pelo Simão, tendo em vista que
ele era o líder do grupo e teria a pior desilusão: “Mas
eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça” (v. 32). Seguindo o
desejo do Pai, Jesus implorou por ele. O objetivo da intercessão de Jesus era
que a fé de Simão não se apagasse para sempre na sua existência. Isto nos dá um
duplo recado: como humanos, podemos abandonar de vez a fé em Jesus; se
permanecemos nela, é graças à Trindade divina (o Pai que ouve intercessão e o
Filho e o Espírito que intercedem). Permanecer na fé em Jesus é um paradoxo
incompreensível: por um lado, tudo depende de nós e do nosso esforço em
permanecer; por outro lado, tudo depende exclusivamente de Deus, que nos guarda
de tropeçar. Jesus aparece aqui como o grande intercessor do seu povo. Nenhum
discípulo, por menor que seja, fica sem esta proteção dele. Ele cuida das suas
ovelhas. Ele cuida de você! Quando o Simão voltar do apagão da fé, Jesus lhe dá
a missão de ser o suporte, o fortalecedor dos seus irmãos. A igreja de Jesus é
família, todos são irmãos e irmãs e compete a cada um fortalecer os outros na
fé e no amor. Mas Simão só pode fazer isto porque passou pelo seu próprio
apagão e retornou, ou seja, aprendeu com a vida.
Agora é Pedro quem
responde. A humildade de Simão dá lugar à tolice do Pedro: “Respondeu-lhe Pedro: ‘Senhor, estou pronto a ir contigo tanto
para a prisão como para a morte” (v. 33). Pedro responde que Jesus é o
Senhor dele. Isto é bom, mas depois desanda. Ele se arroga uma força incrível
como discípulo: seria capaz até de ser preso e morrer por Jesus. O que acontece
com Pedro é o mesmo de muitos cristãos: enquanto a situação está boa, todos são
corajosos e destemidos em nome de Cristo. Quando a situação fica difícil, o
normal é fugir e entrar em desespero e ansiedade.
Mas Jesus, que
conhece suas ovelhas, diz a ele: “Tornou-lhe Jesus:
‘Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes tenhas negado
que me conheces’” (v. 34). Jesus faz uma predição acerca de pessoas e
situações. O Pedro vai negar enfaticamente que conhece Jesus. Não é ser preso
ou morrer, é negar que o conhece! O canto do galo é o sinal para a lembrança do
que Jesus falou. Na iminência de sua morte, Jesus controla detalhes ínfimos, mas
de grandes significados.
Todo este texto
sobre Simão Pedro lança uma pergunta existencial importante para todos os
discípulos de Jesus: quem de nós é apto para seguir Jesus pelas suas próprias
forças? Quem de nós está livre de sofrer apagão da fé? Quem de nós pode dizer
que conseguirá chegar ao fim desta jornada de discípulo? Jesus ensina aos seus
que alguém só pode vencer pela intercessão dele e por sua ajuda durante toda a
vida. É Jesus quem nos ajuda a acabar a carreira e guardar a fé. “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou
a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1.6).
Nenhum comentário:
Postar um comentário