A ÉTICA DOS ARREPENDIDOS
Hoje em dia, há uma distância entre o
que se fala e o que se faz. Por exemplo, há médicos que fumam, há psicólogos
que vivem na ansiedade e com sérios transtornos, há líderes religiosos que se
aproveitam das pessoas de seu rebanho. Quando uma pessoa se arrepende, ou seja,
abandona uma vida de pecado e volta-se verdadeiramente para Deus, que tipo de
ética ou comportamento ele desenvolve? Esta é a pergunta que João Batista
responde no texto bíblico de Lucas
3.10-14.
No v. 10, as
multidões creem na mensagem de João Batista e, arrependidas, perguntam a ele
qual deve ser o seu comportamento dali para frente. João Batista responde,
primeiramente, que quem tem duas roupas divida com quem não tem nenhuma e, da
mesma forma, os alimentos (v. 11). Quem se arrepende, não volta-se apenas para
Deus mas, por causa disto, para as pessoas. Engana-se quem pensa que é possível
ter uma espiritualidade e nem se preocupar com o sofrimento e a dor do seu
próximo. A pessoa arrependida passa a ter o repartir como estilo de vida. A atitude
constante de repartir o que se tem com o outro, chama-se amor: “porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho...” (João 3.16). Mas,
observe: o repartir aqui não é anulação. João não disse: “dê as duas roupas”.
Quando amamos alguém não precisamos nos anular em favor desta pessoa. Aliás,
anulação não é amor. Há cônjuges que se anulam em favor do outro, pais
anulam-se em favor dos filhos ou vice-versa. Amar também não é egoísmo: “as
duas roupas são minhas, eu fiz por merecer e não dou a ninguém”. O egoísmo é o
contrário do amor. O amor ao próximo caracteriza a vida daquele que se voltou
para Deus. O repartir (seus bens, dinheiro, tempo, atenção, carinho, dons,
inteligência, etc.) faz parte do seu estilo de vida? Quanto você tem dado de si
mesmo para ajudar os outros?
Nos v. 12 e 13,
os publicanos arrependidos perguntam a João Batista o que devem fazer? Vou
explicar quem eram estes odiados personagens. Israel vivia sob a dominação
romana. Roma cobrava impostos de todas as nações que dominava. Para cobrar os
impostos, Roma recrutava pessoas do próprio país. Roma acertava com estas
pessoas qual era o valor a ser remetido para ela e deixava que uma parte disso
ficasse com o cobrador. Só que, como Roma não controlava a cobrança, o cobrador
cobrava bem acima do estipulado, pois este excedente ele embolsava. Em Israel,
este cobrador recebia o nome de publicano. Imagine você, um cidadão pobre de
Israel, tendo de pagar um imposto alto que iria para a potência estrangeira que
dominava seu povo e o sujeito que cobrava o imposto (e ficava com boa parte
para si), era um conhecido seu que se criou ali e agora ajudava os dominadores.
Eram odiados ou não? Indo contra a maré, João Batista não somente acreditava no
arrependimento deles como os aconselhou. Hoje em dia, até os criminosos (o
grupo mais odiado de nossa sociedade) podem se arrepender verdadeiramente e
voltar-se para Deus, que os aceitará. O conselho de João Batista aos publicanos
é que fossem totalmente honestos e cobrassem tão somente o estipulado. Esta é
outra parte da ética dos arrependidos: eles são totalmente honestos em relação
a dinheiro e não exploram financeiramente o seu próximo. Aquele que se
arrepende e volta-se para Deus não vive passando cheque sem fundo, aplicando
conto-do-vigário, furtando poucas ou grandes somas. O político que se arrepende
trata com honestidade o dinheiro e as verbas públicas. Não se enriquece na base
da corrupção. Você é honesto em relação ao dinheiro? Ou você precisa arrumar
sua vida, neste aspecto?
Outro grupo que faz
perguntas sobre a forma de viver são os soldados/policiais (v. 13,14). Aqui,
João Batista fala da ética do poder. O poder aqui refere-se a qualquer pessoa
que tenha autoridade sobre outros ou sobre instituições (policiais, juízes,
patrões, administradores, diretores, líderes religiosos, políticos, etc.). Os
que se arrependeram e têm algum tipo de poder jamais devem tratar os outros com
violência, acusações falsas ou com extorsão. Quem faz isto geralmente quer
tirar alguma vantagem econômica ou sente prazer em humilhar os outros. Causa
revolta em todos nós, o vídeo onde policiais, tendo dominado os investigados,
passa a bater neles por puro prazer ou ódio. Desprezamos aquelas pessoas que,
imbuídas de autoridade, negociam com traficantes para facilitar o trabalho
maldito deles e faturar um bom dinheiro. Aquele que se arrependeu usa o poder
que tem na justa medida para fazer o bem e proteger os mais fracos. Para evitar
que aqueles que têm qualquer tipo de poder o usem mal, João Batista dá um
conselho: “contentem-se com o seu salário”. É necessário aprender a viver com o
que se ganha honestamente. Se o consumismo ou a ascensão social dominarem sobre
nossas vidas, vai ser difícil não se aproveitar da situação. Quem sabe viver
com o salário que ganha torna-se capaz de proteger os mais fracos ou quem está
debaixo de sua autoridade.
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