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Análise da Carta de Achamento do Brasil

Meu nome é Whitson Ribeiro da Rocha (licenciado em Português, bacharel em Filosofia e Mestre em Teologia) e me proponho a fazer a análise de documentos e livros escritos no Brasil e no mundo. Meu escrito resume o texto com observações pessoais. Meu texto não contém IA, pois eu li o texto todo e fiz minha análise a partir do que li. Meu texto contém spoiler, pois o analiso completamente. Quem desejar acessar a íntegra do texto de Pero Vaz de Caminha procure em https://objdigital.bn.br/objdigital2/Acervo_Digital/livros_eletronicos/bndigital0009/bndigital0009.pdf .

Carta do achamento do Brasil: este é o primeiro documento na língua portuguesa escrito a partir do Brasil. Ele foi escrito pelo português Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal Dom Manuel I, o Venturoso, acerca do achamento do Brasil em 22/04/1500 pela frota de Pedro Álvares Cabral. Uso a palavra “achamento” em lugar de “descoberta” porque é assim que o autor se refere no texto.

Pero Vaz de Caminha recebe ordem do capitão para que escreva uma carta ao rei comunicando o achamento de uma nova terra. Ele não se julga a melhor pessoa para escrever, mas humildemente vai obedecer ao capitão. Ele vai dar seu parecer honesto, sem embelezar ou enfear. Ao falar do assunto, Caminha escreve: “A nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou” (p. 5). Observe neste início que, ao falar do achamento, ele diz “desta vossa terra nova”. A carta foi escrita 9 dias depois do achamento; neste tempo, eles tiveram contato com os indígenas, trocaram coisas, realizaram 2 missas e ele diz que a terra pertence ao rei de Portugal.

A partida da esquadra de Cabral se deu do Porto de Belém, em Lisboa, no dia 9 de março de 1500. Em 14 de março, chegaram nas ilhas Canárias e em 22 de março chegaram no arquipélago de Cabo Verde. Segundo Caminha, a nau de Vasco de Ataíde se perdeu da frota em 23 de março e não mais se achou.

Em 21 de abril (terça-feira), perceberam sinais de terra porque viram galhos de árvore boiando no Oceano Atlântico. Em 22 de abril (quarta-feira), viram terra com muito arvoredo e um monte alto e redondo chamado, pelo capitão, Monte Pascoal e a terra de Terra de Vera Cruz.

No dia 23 de abril (quinta-feira) às 10h, eles ancoraram perto de um rio e aí desceram à terra. Neste momento, se deu o encontro entre dois mundos, totalmente estranhos. Conta Caminha: “Quando o batel chegou à boca do rio, eram ali 18 ou 20 homens, pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas” (p.9). No primeiro encontro com os indígenas, o que sobressai para os portugueses é a cor da pele, pardos, e o fato de que estavam completamente nus, subvertendo o que eles julgavam decente. Era o primeiro encontro de dois mundos totalmente diferentes. Você, leitor, pode imaginar esta cena? De um lado os portugueses, brancos e totalmente vestidos e do outro, os indígenas, pardos e completamente nus? O que você acha que os portugueses sentiram? O que você acha que os indígenas sentiram? Eram duas civilizações se encontrando. Neste primeiro encontro, não houve fala por causa do barulho do mar, apenas troca de presentes.

Em 24 de abril (sexta-feira), tinha chovido muito à noite e às 8h eles levantaram âncora e saíram dali. Encontraram um outro lugar para ancorar as naus, já no por do sol. Onde eles pararam, avistaram 60 a 70 homens sentado perto do rio. Tentaram comunicação com estes indígenas e trouxeram dois mancebos para dentro da nau. Na descrição deles, Caminha fala da cor da pele (pardos avermelhados), da nudez, dos lábios com botoque labial, os cabelos escorridos e um cocar de penas que usavam: “Andam nus, nem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto” (p.12). O Caminha chama os genitais de “vergonhas” e fica abismado com “tanta inocência em mostrar”. A nudez dos indígenas é o que mais causa estranheza entre os portugueses. Segundo Caminha, o encontro dos dois indígenas com os portugueses, dentro da nau, foi assim: o capitão sentado e paramentado, os demais sentados no carpete, os dois indígenas fizeram gestos para ouro, prata e papagaio (os portugueses não conheciam este tipo de ave) como se estas coisas existissem na terra. Foram oferecidas comidas aos indígenas que provaram, mas rejeitaram todas as comidas dos portugueses. Durante o encontro, Caminha conta que: “Porém um deles pôs olho no colar do capitão (de ouro) e começou de acenar a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata” (p. 14). Os portugueses queriam acreditar que os indígenas estavam falando de ouro e prata, coisas que não conheciam. A ganância dos portugueses já estava em ação. Continua Caminha: “Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera” (p. 15). Caminha confessa que era desejo deles que o aceno significasse ouro. Mas na hora de dar alguma coisa preciosa, os portugueses não queriam. Como falavam línguas totalmente diferentes, os acenos eram entendidos pelos portugueses como significando ouro ou prata, mas não para os indígenas. Estes eram tão sem maldade que dormiram no próprio barco a vista dos portugueses.

No dia 25 de abril (sábado), todas as naus ancoraram numa baía e os portugueses levaram os dois indígenas para a terra, na qual esperavam 200 deles: “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha” (p. 21). Os portugueses não se cansavam de olhar para as vergonhas das indígenas. Para os indígenas, sua nudez não lhes chamava nenhuma atenção. Quem eram os bárbaros ali? Quem eram os luxuriosos?

Na esquadra de Cabral, haviam alguns degredados. Estas pessoas eram condenadas pelo rei, geralmente ao exílio, ou seja, teriam de ser deixadas em algum lugar da jornada. O capitão dá uma ordem em relação a um destes degredados: “E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras'. (p. 16-17). Afonso Ribeiro é o primeiro português que vai viver entre os indígenas. Isto porque ele é um degredado. Mas sua função é ser um espião para outras frotas. No entanto, no final do dia, os indígenas devolvem o moço nu aos portugueses.

No dia 26 de abril (domingo de Pascoela), o capitão manda ouvir missa e pregação num ilhéu bem seguro: “Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos” (p. 22). Na visão dos portugueses, a presença deles com toda a cultura católica e o aparato militar era o evangelho.

O capitão fez uma reunião com os demais capitães e líderes para saber se deviam escrever logo uma carta de achamento desta nova terra ao rei e todos concordaram. Perguntou também o capitão se deviam enviar dois nativos para o rei e não concordaram. Acharam melhor deixar dois degredados com os indígenas e depois levá-los para Portugal a fim de informar o rei.

No contato externo com os indígenas, um velho com bodó (madeira ou pedra que colocavam nos lábios) de pedra ruim deu-a para o capitão e houve conversa que ninguém entendia; dois dos portugueses (um era gaiteiro) foram dançar com eles e riram muito, mas alguns indígenas, com desconfiança, se afastavam. A conclusão de Caminha sobre os indígenas era “do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isto tão esquiva. Porém, e com tudo isto, andam muito bem curados e muito limpos” (p. 33). O capitão mandou um homem para ficar com eles, mas o devolveram à tarde. Deram-lhe arcos e flechas, mas não tomaram nada dele. Ele reclamou de umas contas que algum indígena tinha levado. Os demais foram atrás e devolveram as contas para ele. Observe que os indígenas se mostram honestos em relação aos bens dos portugueses, mesmo sendo contas.

Em 27 de abril (segunda-feira) houve outro contato com os indígenas e troca de coisas, folguedos e abraços. Um grupo dos portugueses foi à noite até a casa onde moravam. A casa dos indígenas era bem grande do tamanho de uma nau e dormiam e se aqueciam uns 40 por casa. Dentro dela, haviam mastros e dormiam em redes. Comiam inhame e outras sementes. Mas os indígenas não permitiram que os portugueses dormissem lá.

Em 28 de abril (terça-feira), os portugueses foram pegar lenha e lavar roupas e os indígenas os ajudaram. Eles ficaram admirados com o machado porque não conheciam o ferro. O capitão mandou três ficarem com eles e deu ordem que não voltassem à noite.

Em 29 de abril (quarta-feira) não foram em terra. Os degredados voltaram à noite com dois indígenas que dormiram nas naus e comeram lá.

Em 30 de abril (quinta-feira) de manhã, deram comida aos dois indígenas. Em terra, cerca de 450 deles trocavam coisas e comidas com os portugueses. Segundo Caminha: “Andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles” (p. 40).

O capitão mandou erguer uma cruz de madeira que haviam feito no dia 28 e ordenou que os portugueses a beijassem e exortou os indígenas, cerca de uns dez deles, a fazer o mesmo e eles fizeram. Conta Caminha: “Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não tem, nem entendem em nenhuma crença. E portanto, se os degredados que aqui hão de ficar, aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão-de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar. E pois, Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa. Portanto, Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim” (p. 41-42). Veja que Caminha considera que a conversão ao cristianismo será muito fácil porque eles são gente boa e simples; ele considera ainda que os indígenas não têm crença alguma. Naquela noite, levaram quatro indígenas para dormir nas naus.

No dia 1º de maio (sexta-feira) num lugar alto, o capitão mandou chantar (fixar com estacas) a cruz. Foi rezada missa e cerca de 80 indígenas acompanharam a comitiva portuguesa com joelhos no chão. Terminada a missa, os portugueses deram crucifixos aos indígenas, fazendo-os beijar e colocar no pescoço. Caminha escreve: “E, segundo a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm” (p. 46-47). “Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação.” (p. 47-48). Deixaram, na terra, dois degredados e dois grumetes que fugiram para a terra de madrugada.

De onde ficaram, percebeu-se que a terra é muito longa para o sertão. Ela possui ares bons, água em abundância e uma floresta exuberante. Não encontraram ouro, prata ou ferro, mas a terra é muito boa. Neste dia, a esquadra parte para a Índia.

Em conclusão, diz Caminha: “Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar” (p. 49).

Na carta de Pero Vaz de Caminha, é preponderante a ideia colonialista, pois os europeus poderosos, encontraram uma terra exuberante da qual nada sabiam, um bando de índios inocentes e, pelo simples fato de se acharem mais desenvolvidos e católicos, o rei deles é dono de tudo aqui. Na visão dele, os indígenas não tinham direito a nada. A terra era do rei só porque eles a acharam e pisaram nela. Outro aspecto é a visão dos portugueses acerca dos indígenas com quem se encontraram, pois os veem como pessoas inocentes, fáceis de enganar, sem religiosidade e fáceis de serem convertidas ao cristianismo deles. Apesar da ótica de superioridade, dá para perceber na carta que os indígenas são limpos, organizados, amigáveis, honestos (há uma parte em que um indígena leva um objeto reclamado por um português, e eles vão atrás deste indígena e devolvem o objeto reclamado), não são traiçoeiros (os portugueses eram em seus pensamentos) e se comportam com igualdade e dignidade para com os portugueses. Não há tempo para aprendizagem das línguas entre eles, mas há comunicação precária. O português Caminha enumera, em sua carta, algumas certezas dele: o rei de Portugal é o legítimo dono de tudo que eles acharam; que o rei deve tomar posse de tudo; que deve haver muito ouro e prata naquela terra; que o rei de Portugal deve cristianizar os indígenas e torna-los servos dele.

Dois mundos completamente estranhos se encontraram entre 22 de abril a 1º de maio de 1500. Só temos a narrativa do lado português. A história mostra que este lado usurpou, pela força, violência e massacre, toda a terra que pertencia aos indígenas e os dizimou. Os estudiosos estimam que existia no que hoje é o território brasileiro, cerca de 2 a 5 milhões de indígenas e, em 2022, o Censo revelou que existem cerca de 1 milhão e 700 mil, o que corresponde hoje a 0,83% da população brasileira. Mesmo com este massacre histórico, ainda hoje há autoridades e indivíduos que acham que não deve haver reservas de terras para os indígenas e que suas atuais terras podem ser invadidas por garimpeiros, madeireiros e grileiros brancos.

A Constituição de 1988 garante a demarcação de terras para os indígenas que pertencem apenas a eles e não podem ser invadidas por mais ninguém. Um grupo de deputados e senadores do centrão e da extrema-direita (bolsonaristas) quer aprovar a tese de que a demarcação deve ocorrer tão somente para as terras que eles ocupavam em 05/10/1988, data da promulgação da Constituição. Os indígenas reinvidicam todas as terras que tradicionalmente eles ocupavam antes desta data. O Supremo Tribunal Federal (STF) analisando o caso, julgou que os indígenas estão certos e derrubou a tese do centrão e extrema-direita. Mas eles continuam tentando fazer leis para conseguir estas terras. A tese deles ficou conhecida como “Projeto de Lei do Marco Temporal” e tem a PEC 48/2023 que tenta inserir o marco temporal na Constituição. Pelo visto, o massacre dos povos originários continua! Não à PEC 48/2023! Sim ao direito dos povos indígenas às suas terras demarcadas!

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