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 ACONTECEU UMA MUDANÇA NO BRASIL DOMINGO PASSADO

Pastor Whitson Ribeiro da Rocha

 

            Penso eu que o Brasil mudou no dia 25 de outubro de 2026, dia do 2º turno das eleições. Mas para falar desta mudança de agora, preciso falar da anterior que aconteceu em 2013 e 2014.

Era 2013 e, na cidade de São Paulo, a Prefeitura reajustou as passagens de ônibus de R$ 3,00 para 3,20. Vinte centavos de aumento. Os estudantes secundaristas saíram às ruas para protestar. Eles criaram o Movimento Passe Livre. Estes protestos cresceram e envolveram toda a juventude e se espalhou por muitas capitais do País. A pauta se ampliou e saiu da mão dos estudantes: protestou-se contra a má qualidade dos serviços públicos, especialmente transporte; contra os bilhões gastos na construção de estádios para a Copa do Mundo; o fim da corrupção estrutural, especialmente no meio político e o fim da violência policial.

            Neste movimento aconteceu um lance importante e que modificaria a sociedade brasileira: eles não aceitavam a participação de nenhum partido político, fosse de direita, fosse de esquerda. Ali começou uma certa ojeriza por políticos e partidos políticos, vistos como corruptos. O movimento foi diminuindo e terminou, mas deixou um legado de mudanças na visão do povo em relação à política, como se esta fosse algo ruim, ligado a corrupções. Naquele ano, houve eleição presidencial entre Dilma Rousseff pela reeleição e Aécio Neves. Dilma venceu, mas sobre ela recaiu toda a carga deste movimento.

            Em 2014, começou a Operação Lavajato em Curitiba. O juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol prenderam muitos empresários envolvidos no caso que ficou conhecido como Petrolão, um esquema corrupto de desviar dinheiro da Petrobrás. Eles conseguiram repatriar milhões de reais através da Lavajato para os cofres brasileiros. Mas, na Lavajato, Moro e Dallagnol cometeram 3 erros graves. O primeiro foi acabar com a indústria pesada de construção do Brasil trazendo muito desemprego para os trabalhadores. Eles poderiam ter prendido empresários corruptos, mas mantidas as empresas funcionando. O segundo erro foi que os dois combinavam o que iam fazer. Num processo judicial criminal, juiz, promotor e advogado de defesa atuam separadamente, porque o juiz vai dar ganho de causa para um dos dois. Não aconteceu isto na Lavajato. Juiz e promotor se uniram secretamente para condenar, sem provas nos autos, o ex-presidente Lula a 9 anos de prisão. Eles não encontraram nenhuma prova de que Lula fosse ladrão ou corrupto e tivesse se beneficiado do Petrolão. Posteriormente, em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou o processo por conter vários erros judiciais e libertou Lula. O terceiro erro foi passar para a sociedade a ideia de que a Política é intrinsecamente ruim e todos os políticos são corruptos. Isto abriu caminho para que um político inexpressivo e falastrão, que passou 28 anos como deputado federal apresentando tão somente dois projetos de lei em toda sua carreira, chamado Jair Bolsonaro, aparecesse dizendo que ele não era do sistema. Tal mentiroso foi eleito presidente da República.

            A mudança em 2013/2014, com o movimento dos estudantes e a Lavajato, foi a de um povo que passou a demonizar a Política. Não havia nada de bom na política e cada um que se virasse sozinho, sem ajuda de governo. Os dois principais partidos políticos da época, PT e PSDB, foram demonizados. O PT conseguiu se levantar posteriormente e o PSDB virou partido nanico. Se a política ficou sendo vista como o lugar da roubalheira generalizada a partir de 2013/2014, isto deve ser demonstrado na abstenção das urnas. Fiz uma pesquisa usando o Chatgpt, com dados do TSE, sobre os índices de abstenção das eleições presidenciais de 2010 até aqui. Veja como o percentual de abstenção cresce nas eleições de 14 e 18: 2010 – 19,81%; 2014 – 20,25%; 2018 – 20,82%; 2022 – 20,77% e 2026 – 20,15.

Aí, na eleição de 2022, um milagre acontece. Lula vence e derrota o ex-presidente Jair Bolsonaro. De 2023 a 2026, o presidente Lula tira o Brasil do atoleiro econômico, faz o País crescer beneficiando a todos (a taxa de desemprego é a menor da história) e governa mirando sempre a melhoria de vida dos pobres (o Brasil sai do mapa da fome, pobres não pagam mais Imposto de Renda e é aprovada a escala 5x2). Observe a questão da corrupção: você encontra, nos jornais, notícias de corrupção envolvendo o Congresso com as tais emendas parlamentares e com um senador pedindo R$ 134 milhões a banqueiro corrupto; notícia de corrupção no STJ e STF; mas não encontra um único caso de corrupção neste último mandato do governo Lula, nem um sequer.

            Quatro de outubro, 1º turno, um balde de água gelada para a candidatura Lula. Ele obteve 53 milhões 880 mil votos. Ficou atrás de Flávio por cerca de 2 milhões e 200 mil votos. Nocauteados, o presidente e sua equipe eleitoral não sabiam o que fazer. Foi neste momento que teve início a mudança que se confirmou em 25 de outubro. Sem liderança alguma do PT, o povo começou a se movimentar para virar o jogo eleitoral. Primeiro foram os jovens universitários do Rio de Janeiro, Recife e outras cidades que começaram a sair pelas ruas. Depois foram os jovens deputados eleitos de esquerda que ocuparam as redes sociais e orientaram o presidente. Depois veio o Exército do Lula comandado pelo deputado Janones que tomou as redes sociais e fizeram a propaganda do presidente chegar a milhões de pessoas, como nunca antes. Aí se ajuntaram os artistas e os esportistas. Em todas as cidades que Lula ia, o ajuntamento do povo era gigantesco. Até em cidades onde ele não estava presente, as passeatas eram gigantes. A passagem dele na Av. Paulista, em São Paulo, no dia 24 de outubro ocupou 14 quarteirões lotados e cálculo de cerca de 2 milhões de pessoas. Em todo o lugar que fui neste período, todos falavam e agiam para que a virada acontecesse. As pessoas perceberam como a política é importante para a vida de uma nação, porque ela define a maneira como um País é conduzido e quem são os beneficiados nesta condução: se o povo ou os poderosos.

            Aí chegamos em 25 de outubro, 2º turno. A maior mobilização popular da história do Brasil. Pelas redes sociais e por informação de meus amigos, vi muitas caravanas se deslocando para votar, os pontos de ônibus lotados, inúmeros casos de filhos e netos que levavam seus pais e avós para votar, cadeirantes e pessoas com deficiência sendo auxiliadas para chegar até as urnas, jovens de 16 anos indo votar pela primeira vez, a música do Lula sendo cantada pelas pessoas nas ruas. Ali, a geração dos jovens estava junta com a dos idosos, todos para o bem comum da virada. E tudo isso feito com alegria, disposição e voluntariedade. As pessoas iam votar com o sentimento de que seu voto mudaria o Brasil. Para todos estes, o voto era uma preciosidade da qual não se podia abrir mão. Apertar o 13 na urna foi um momento de redenção social. A abstenção foi a menor em 20 anos de votação e a diferença de gente a mais que foi votar no 2º turno e que não foi no 1º foi de quase 3 milhões de pessoas. A votação de Lula foi a maior de todos os tempos: 64 milhões e 250 mil. Foram quase 10 milhões de votos a mais do que no 1º turno e isto no prazo de 21 dias.

            Lula é uma pessoa com suas qualidades e seus defeitos. Como presidente, também tem suas qualidades e defeitos. Mas, nestas eleições, ele virou um símbolo, um ícone, como aconteceu com Bolsonaro em 2018 e permanece como símbolo de seus seguidores até hoje. A diferença entre eles, neste aspecto, é que Bolsonaro só pensa nele e em sua família, enquanto Lula pensa no povo. As pessoas sentem-se felizes em se esforçar por Lula, porque veem nele um símbolo de amor, de compaixão, de ajudador, de alguém que se importa com elas. E, quando ele as chamar, elas comparecerão por gratidão e por respeito.

            A meu ver, que mudança aconteceu no Brasil domingo passado? Diferente da mudança 2013/2014, os brasileiros perceberam que política é algo importante para a vida deles. Não por acaso, tantos jovens youtubers foram eleitos. Não por acaso, milhões se envolveram na eleição de um político. Perceberam que a ação política deles, manifestada nesta virada histórica, pode mudar o rumo das coisas. Ao invés de manter distância da política como algo sujo, os brasileiros resolveram fazer as pazes com a política e participar dela. Se tivermos um outro Congresso “inimigo do povo”, basta chamar este povo para as ruas e para as redes, que eles irão e vão modificar votações no Congresso. As ruas e as redes vão determinar o futuro do País.

            Estas eleições não foram sobre Lula, foram sobre o povo brasileiro. Lula foi o catalisador da mudança, mas quem fez (e fará) toda mudança foi o povo brasileiro. Palmas para a “brava gente brasileira”!

 

PORQUE GOSTO DE CORRER!

Whitson Ribeiro da Rocha

 

         Hoje participei, pela primeira vez em 66 anos de vida, da minha primeira meia maratona. Corri 21 Km em 2 horas e 28 minutos. Foi minha primeira corrida nesta linda cidade de Natal/RN. Minhas participações em corridas começaram cerca de 10 anos atrás na cidade de Presidente Prudente/SP. Sempre que possível participo de corridas de rua. Eu amo correr!

         Amo correr porque tem uma energia enorme entre todos nós corredores. É lindo demais, antes da largada, ver as pessoas preparadas e aguardando o momento de começar. A grande maioria é composta de jovens, mas tem uma ótima participação de gente de meia-idade e idosos como eu. Quando começa a largada, que emoção quando eu olho para frente e vejo aquele mar de gente, olho para trás e tem muita gente ainda. Isto me dá um sentimento de unidade e comunhão com todos os meus amigos corredores. Ninguém está ali para chegar na frente do outro, para provar que é melhor que o outro. Um ajuda o outro, quando acontece de alguém parar ou sentir-se mal, os outros param e incentivam ou ajudam. Para nós que corremos, é muito importante que todos cheguem e ninguém fique para trás, sem chegar. Quando cruzamos a linha de chegada, sabemos que os outros ou já chegaram ou chegarão e isto dá uma profunda alegria. Se você já participou de uma corrida sabe dos sentimentos que estou falando.

         Amo correr porque nas corridas eu vejo o esforço das pessoas em desafiar seus limites. O que eu vi na corrida de hoje? Vi pessoas obesas correndo e se esforçando por chegar lá. Lembra que a corrida de hoje era de 21 Km. Vi um senhor aleijado, sem uma das pernas, correndo com suas muletas. Eu o passei e fiquei admirado pelo seu esforço (o pessoal PCD largou antes do meu pelotão). Em um momento da corrida, quem já tinha alcançado a metade, voltava e se encontrava com quem estava indo, na mesma rua. Aquele senhor era o último corredor, e quando ele passou por nós, todos o aplaudimos e falamos palavras de ânimo. Vi algumas pessoas com câimbras que paravam, mas logo outras a ajudavam ou levavam ao pessoal médico. Esforço e solidariedade: quer coisa melhor?

Amo correr porque naquele grupo de pessoas que correm, somos todos iguais. Nossas diferenças não fazem nenhum sentido na corrida. Não sei quem é médico, advogado, estudante, dona de casa, gari, pedreiro ou desempregado. Ali não importa. Não sei se a pessoa vota em Lula, Bolsonaro ou vai anular o voto. Ali isto não importa. Não sei se é evangélico, católico, muçulmano, ateu, do candomblé ou da umbanda. Ali isto não tem valor nenhum. Nenhuma diferença tem importância na corrida. O único valor ali é que é um amigo fazendo o mesmo esforço que eu faço e procurando atingir o mesmo objetivo que eu também quero. Ah, se o mundo fosse assim sempre!

Agora quero falar de mim. Amo correr porque, na corrida, eu me encontro comigo mesmo. Ao correr, penso na minha vida e no que preciso fazer ou melhorar. Ao correr, observo a natureza e também tudo aquilo que o ser humano criou, como a rua, os edifícios, os parques e penso que sou parte de tudo isto. Que sou beneficiado por viver neste tempo e neste país e que tenho de contribuir para melhorar tudo. Eu sou daqui. Ao correr, também converso com Deus e aí só sou gratidão. Sou grato porque ele me deu saúde para chegar ali com a minha idade, me deu condições de vida, inclusive financeira para desfrutar estes momentos. Ele me deu uma família que me ama e sempre me incentiva na vida. No meu caso, ele me fez conhecer Jesus de uma forma tão íntima que não consigo viver sem amá-lo. Nas minha corridas, sempre digo a Jesus que o amo.

Quero fazer um desafio a você que tem condições físicas para isto. Comece a correr. Comece sozinho correndo um, dois, três Km. Daqui a pouco você está correndo cinco. Aí você nunca mais para. Participe destas corridas de rua. Você vai entender meu texto dentro de você. Se não gosta de correr, ou não pode, faça outra atividade física: musculação, natação, bicicleta, caminhada. Talvez você diga: “meu trabalho já exige muito de mim”. Pode ser. Mas a atividade física melhora o seu corpo de uma forma que o trabalho diário não consegue. Também não diga que está velho demais para correr. Corrida ou outra atividade física não tem idade. Você vai ver que fica mais jovem na sua vivência.

Termino com duas frases que eu ouço sempre. Uma é quando estamos contando os segundos para o início: “Vamos correr, pessoal”. A outra é no meio da prova, quando alguém sempre diz: “Meu Deus, falta muito ainda?”

Outro golaço do governo Lula: os pobres estão isentos de pagar Imposto de Renda

OUTRO GOLAÇO DO GOVERNO LULA: OS POBRES ESTÃO ISENTOS DE PAGAR IMPOSTO DE RENDA

Pastor Whitson Ribeiro da Rocha

 

            Primeiro foi o relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) que, no dia 28/07, retirou o Brasil do Mapa da Fome. Isto significou que, de 2023 até hoje, cerca de 24 milhões de pessoas começaram a ter alimentação suficiente para suas necessidades. Depois foi a reação positiva da economia brasileira, liderada pelo governo, que continuou exportando seus produtos apesar do “tarifaço” imposto ao Brasil pelo governo Trump dos Estados Unidos. Não houve perda de exportação em relação ao mundo e nem demissões em massa por causa disto.

O último golaço do governo Lula foi a aprovação na Câmara Federal do projeto do governo de isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5.000,00 e descontos para quem ganha até R$ 7.300,00. Cerca de 16 milhões de brasileiros serão beneficiados diretamente. Estes brasileiros têm famílias e dependentes o que vai beneficiar dezenas de milhões de pessoas no final. Fora o fato de que estas pessoas vão investir seu dinheiro comprando conforme suas necessidades, o que vai movimentar o comércio e a indústria. Estes 16 milhões são as pessoas mais pobres entre os trabalhadores, os que ganham menos. Esta é uma forma de valorizar e melhorar a vida desta gente que tanto precisa.

Agora este projeto de lei deve ser aprovado pelo Senado Federal. Não há dúvidas de que isto ocorrerá até porque o Senado já está debatendo o assunto e é amplamente favorável. Além do mais o placar da Câmara não deixa dúvidas do que acontecerá no Senado. Depois disto, o presidente Lula vai sancionar a lei e ela passará a valer.

Ao aprovar esta lei, o governo deixará de arrecadar R$ 25,8 bilhões para os cofres públicos. Para compensar esta perda, “o projeto prevê tributação das pessoas com rendimentos acima de R$ 600 mil por ano, com uma alíquota progressiva de até 10%” (Agência Brasil-EBC). Veja: 16 milhões não vão mais pagar imposto de renda e cerca de 140 mil pessoas que ganham acima de R$ 600 mil por ano vão ter uma pequena elevação e estará compensada a perda. Nosso Brasil é muito desigual mesmo: 16 milhões x 140 mil.

            O projeto demorou a ser aprovado na Câmara por dois motivos: porque o centrão e os bolsonaristas não queriam taxar os ricos em até 10% e eles não queriam dar ao governo Lula o argumento de que isentou os pobres do Imposto de Renda. Mas a derrota da PEC da blindagem no Senado e as manifestações de rua em 21/09 forçaram a oposição a colocar em votação e votar a favor, pois o placar foi de 493 x 0.

Quanto um trabalhador vai ganhar com esta isenção? O cálculo “prevê uma economia mensal de R$ 312,89 para quem recebe R$ 5 mil e hoje paga IR. Com a isenção, a poupança anual é estimada em R$ 4.067,60” (CNN Brasil). Para quem ganha pouco, este é um valor importante.

Mais uma vez, o governo Lula se preocupa com a situação dos mais pobres em nossa sociedade e toma atitudes para que o País melhore sua justiça social. Que prossiga neste caminho e cumprirá o mandamento bíblico de que um bom governo deve cuidar dos que estão à margem da sociedade e dos pobres. Isto é cuidar dos “órfãos e das viúvas”. 

A saída do Brasil do mapa da fome

 A SAÍDA DO BRASIL DO MAPA DA FOME

Pastor Whitson Ribeiro da Rocha

 

            Uma das melhores notícias nestes últimos dias foi a decisão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) que, no dia 28/07, retirou o Brasil do Mapa da Fome. Esta é uma grande notícia e uma grande realização do governo do presidente Lula.

            Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, “O Mapa da Fome é um indicador global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) que identifica países onde mais de 2,5% da população sofre de subalimentação grave (insegurança alimentar crônica). Estar no Mapa da Fome significa que uma parcela significativa da população não tem acesso regular a alimentos suficientes para uma vida saudável”. Esta é a segunda vez que o Brasil saiu do Mapa da Fome: a primeira vez foi em 2014, voltou a entrar no Mapa em 2018 e saiu novamente agora. Isto significa que, de 2023 até hoje cerca de 24 milhões de pessoas começaram a ter alimentação suficiente para suas necessidades. A fome ainda atinge muitas famílias brasileiras, mas a saída de 24 milhões de pessoas é algo para ser comemorado.

A saída de tanta gente se deve a algumas ações do governo. Os principais foram o   investimento no Bolsa Família, fazendo um saneamento e melhorando os valores que as famílias recebem e outro foi o menor índice de desemprego da história, ou seja, muita gente está empregada. Outros motivos foram: o aumento do salário mínimo acima da inflação; a diminuição da desigualdade social; a melhoria da economia conduzida pelo ministro Hadadd e a disposição do governo Lula em não diminuir as verbas da área social.

A Bíblia ensina que um governo bom e aprovado por Deus é aquele que se preocupa com a justiça social e o cuidado com os pobres. Veja estes textos: Provérbios 28.15-16: “O governante perverso é tão perigoso para os pobres quanto o leão que ruge ou o urso que ataca. O governante que não tem entendimento oprime seu povo, mas o que odeia a corrupção tem longa vida”; Provérbios 14.31 “O que oprime ao pobre, insulta o seu Criador; mas honra-o o que se compadece do necessitado”. Veja o que diz o profeta Amós sobre os poderosos e governantes de seu tempo: “Portanto, visto que pisais o pobre e dele exigis tributo de trigo, embora tenhais edificado casas de pedras lavradas (mansões) ... Pois sei que são muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados: afligis o justo, aceitais subornos e na porta negais o direito aos necessitados” (Amós 5.11-12). O Novo Testamento não fala de governantes, mas fala da atitude o povo de Deus em relação aos pobres. Jesus disse aos discípulos em relação ao povo pobre que o ouvia: “Dai-lhe vós de comer” (Mateus 14.16); Paulo: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres; o que também procurei fazer com diligência” (Gálatas 2.10); Tiago: “Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: "Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se", sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? (2.15-16); João: “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade” (3.17-18).

            Passar fome e saber que nada tem para amanhã é a pior situação para uma pessoa. Se tiver filhos e estiver nesta situação, a pessoa entra em estado de desespero. Quem já passou fome na vida, sabe o que isto significa. Portanto, tirar milhões da situação de fome é a mais cristã das ações de um governo. Portanto, parabéns ao governo Lula pela sua escolha de governar para os pobres. Continue neste propósito. Quem se compadece do que tem fome, honra o seu Criador!

Conto: O espanto dos anjos

 Conto: O ESPANTO DOS ANJOS

Whitson Ribeiro da Rocha

 

Gabriel, Generoso e Altivo conversavam antes de seguir para suas missões. Eram anjos para o louvor e o serviço do glorioso Deus.  Gabriel iria proteger uma família numa favela no lugar que os humanos chamavam de Brasil. Segundo informações recebidas por ele, a família estava numa situação de perigo e eles iriam conhecer a graça salvadora de Deus num futuro próximo. Generoso estava acompanhando uma criança no interior da Nigéria. Ela era uma criança especial, pois  tinha as pernas atrofiadas e não conseguia andar. Altivo iria acompanhar o culto numa igreja subterrânea no interior da China. Antes de partir, conversavam:

- Gabriel, disse Altivo, qual foi a missão mais importante para você que Deus lhe deu?

- Olha amigos, respondeu Gabriel, foi quando Deus me enviou a uma pobre mulher chamada Maria para dizer-lhe que ela seria a mãe do Filho Amado. Quando eu recebi a notícia de que o Filho Amado iria se tornar um humano, eu fiquei simplesmente maravilhado.

- Nós também, disseram Generoso e Altivo, achamos fantástico que o Pai de Amor, o Filho Amado e o Espírito tivessem decidido por esta solução. Nenhum dos anjos jamais imaginou que o Filho Amado pudesse se tornar humano para salvá-los.

- E, desta forma, completou Gabriel, nosso Deus que é estas três pessoas divinas, resolveu todos os problemas que os humanos criaram no pecado deles.

- Sim, disse Generoso, mas a que preço hem? Jesus, o Filho Amado humanizado teve de morrer naquela cruz para consertar tudo.

            Neste momento, os três anjos fizeram um silêncio e depois glorificaram Yahweh com as seguintes palavras: “Nós te bendizemos Senhor de tudo que há nos céus, na terra e no espaço celeste, porque por tua vontade e sabedoria tudo foi consertado pela cruz de Jesus, o Filho Amado. Nós te damos louvor, honra, glória e dignidade para sempre”.

- Mais uma coisa amigos, disse Altivo, através da cruz de Jesus, toda a criação que estava sofrendo debaixo pecado e maldade da humanidade, se libertou para glorificar o Pai de Amor. Foi um resgate não apenas dos humanos, mas de toda a criação e isto inclui nós anjos também.

- Sem dúvida, disse Generoso, a morte de Jesus na cruz nos beneficiou. Mas Gabriel, me responda, por que o pecado humano estava arruinando a criação do nosso Deus?

- Porque quando criou a humanidade, Generoso, Yahweh colocou a sua imagem nos humanos e disse que eles dominariam todas as coisas. Quando o ser humano pecou, inicialmente em Adão, mas depois em todos os outros, eles desorganizaram toda a criação de Deus. Em Jesus, tudo foi consertado e um dia, nós anjos, veremos os humanos como a perfeita imagem de Deus e serão eles que reinarão e trarão a vontade amorosa do Pai de Amor a toda a criação.  Isto não espanta vocês? Os seres pecadores mais desprezíveis do Universo sendo transformados em filhos de Deus?

- Sim, espanta a nós também. Grande é a graça de Yahweh, disseram os dois.

            Generoso então falou aos outros dois:

- Sabe outra coisa que me espanta na cruz de Jesus, meus amigos? É que, através dela, Jesus, o Filho amado uniu todos os povos da Terra em um só povo, que é o que eles sempre foram e negaram. Já que os humanos começam a existir quando um homem e uma mulher se unem, eles entendem que são aparentados porque são de um povo só. E começam a guerrear e se antipatizar com outros povos. Como estes humanos gostam de rótulos para se separarem. Cada um cuida só do seu grupo, do seu povo e não se importa com os outros povos. Mas, através da sua cruz, Jesus uniu os diferentes povos em torno dele e os transformou em um só povo: os filhos de Deus, irmãos entre eles.

- Generoso, este Jesus, disse Gabriel, se transformou no mais maravilhoso e belo ser de toda criação pelo sacrifício que ele fez. O Pai de Amor o exaltou acima de todo poder e de toda majestade que existe. O Espírito Santo lhe glorifica em tudo que faz.

            Mais uma vez, os três anjos deram louvor a Jesus Cristo, a quem serviam com toda a devoção e honra.

Após isto, Altivo disse:

- vamos amigos, cumprir nossas missões. Glória e louvor ao nosso Criador.

            E cada anjo partiu, alegres por aquela conversa, pela amizade que os unia e pela missão a cumprir.

Conto "A escolha de Marcos"

 Conto: A ESCOLHA DE MARCOS

Whitson Ribeiro da Rocha

 

Marcos era um homem negro. Era o caçula de quatro irmãos. Em comparação com seus irmãos, ele era o mais preto. Quando tinha 4 anos, seu pai morrera em um acidente no qual estava de carona. Sua mãe, uma mulher muito firme, ficou sozinha com a decisão de criar os filhos. Trabalhou anos como empregada doméstica e, com ajuda de familiares, conseguiu educá-los para que se tornassem pessoas de bem. Os quatro filhos, agora com suas famílias, amavam muito a mãe.

            Marcos cresceu em um bairro muito pobre da periferia de sua cidade. Naquele lugar sujo, onde o esgoto corria a céu aberto, sempre estava presente a criminalidade, principalmente o tráfico. Cresceu aprendendo a lidar com o medo e a coragem, e a ter de se virar para não cair em armadilhas.  Quando adolescente, o convite para o tráfico sempre estivera presente. Alguns de seus amigos entraram nessa e não conseguiram sair mais. Ele e seus irmãos nunca se meteram com isto, graças às orientações e o pulso forte da mãe. Vivia no meio da violência. Sempre lembrava de um fato que aconteceu com ele e seu amigo Vitor. Os dois vinham de uma festa e foram parados pela polícia. Depois de revistados, um policial perguntou de onde vinham e para onde iam. O Vitor respondeu que era problema deles. Levou um baita tapa do policial, que o desequilibrou. Os policiais mandaram-nos embora. Os dois sairam dali com muita raiva pela humilhação que passaram. Era sempre assim com gente negra e parda como eles.

Marcos era muito estudioso e inteligente. Sempre estudou em escola pública e era aprovado como um dos melhores da classe. Quando terminou o segundo grau, conseguiu passar em um curso de tecnólogo de mecânica de automóvel. Sua mãe e seus irmãos ajudaram nas despesas. Ele se formou com excelente avaliação. Começou então a procurar emprego com sua nova formação. Participou de várias seleções e, apesar de seu desempenho, nunca conseguia ser efetivado. Sempre uma pessoa de cor branca ganhava a vaga. Com uma profunda tristeza percebeu que a cor de sua pele nunca ajudava. Passou cinco meses nestas tentativas e nada, começou a ficar deprimido. Não ria mais, não era mais brincalhão. Até que um dia sua mãe chegou em casa e disse que ele fosse em determinada oficina. Ela tinha conversado com o dono, para quem trabalhou por vários anos como empregada doméstica, e havia pedido que ele desse uma oportunidade para seu filho. O dono, seu Antonio, tinha pedido que ele fosse lá no dia seguinte.

            Logo cedo, lá estava ele na oficina do seu Antonio. O dono lhe disse que, naquele momento, não estava precisando de ninguém, mas por causa da consideração que tinha pela mãe dele, iria fazer um período de teste com ele e, se saísse bem, iria contratá-lo. Marcos agradeceu à mãe em pensamento e começou a trabalhar. Mostrou-se apto e foi contratado. Com o passar do tempo, foi assumindo cada vez mais responsabilidades. A oficina tinha uma boa reputação e muito trabalho. Seu Antonio gostava muito do trabalho dele. Passado alguns anos, seu Antonio começou a ter problemas de saúde que o afastavam do dia a dia da oficina. Ele escolheu Marcos para gerenciar tudo ali e compartilhasse com ele acerca das principais decisões. Com Marcos na gerência, a empresa melhorava cada dia mais. Na sua vida pessoal, Marcos se casou e tinha uma filha de três anos.

            Marcos informou seu Antonio que o volume de trabalho exigia a contratação de mais um mecânico. Seu Antonio disse que ele fizesse a seleção e lhe apresentasse um nome. Viu o currículo de vários candidatos e escolheu dois para um teste. Jeferson, um rapaz branco, tinha curso de mecânico e uma boa experiência. Valdir, um rapaz tão escuro quanto ele, também era mecânico, mas parava pouco tempo nos empregos. Fez um teste prático com os dois e também perguntas acerca de como eles lidariam com problemas mecânicos. Os dois tinham família. Avaliou então o desempenho deles. Jeferson, o rapaz branco, se saíra melhor tanto na parte prática quanto na teórica. Valdir, o rapaz negro, não ficava muito atrás mas não alcançava o mesmo nível do Jeferson. Marcos pensou que, se fosse exclusivamente por mérito, o escolhido deveria ser o Jeferson. Mas, Marcos olhou sua própria história de vida e percebeu que o mérito não deveria se apegar tão somente àqueles testes. Embora o Jeferson tivesse passado por dificuldades até chegar ali, o Valdir, por ser negro, tinha começado num patamar muito mais baixo que o outro, passado por muitas situações de rejeição e, se chegou ali, o esforço dele tinha sido muito maior. Para Jeferson seria fácil encontrar algum emprego na área pelo seu conhecimento, mas não para Valdir. Este ficava pouco nos empregos porque era sempre o primeiro a ser demitido quando a situação apertava. Valdir, como ele no início, teria dificuldade em encontrar algo porque a cor de sua pele não ajudava nesta sociedade ainda preconceituosa.

            No dia seguinte, chegou para seu Antonio e lhe disse que já tinha feito sua escolha do novo mecânico. Seu Antonio perguntou quem era. “O Valdir, o rapaz negro”, respondeu Marcos. “Está bem”, disse seu Antonio, “pede para ele passar no contador amanhã”.

            Marcos se sentiu feliz com sua decisão. Mas assumiu alguns propósitos. Ia encaminhar sua filhinha a ter uma vida de estudos até que se formasse, pois ele entendeu que só pelo conhecimento ela poderia superar os desafios de um mundo ainda racista em relação à cor da pele. Também ia se associar a algum grupo que lutasse em favor das pessoas marginalizadas da sociedade, em especial seus irmãos de cor. Lembrou-se que seu amigo Vitor, que se tornara um líder comunitário no mesmo bairro pobre onde crescera, poderia se tornar um excelente vereador e iria conversar com ele sobre isto. Marcos percebeu que a ação política também era necessária para mudar a realidade. Queria que sua família fosse diferente, mas queria que a sociedade se transformasse também.

Lucas 22.66-71 Um julgamento injusto e uma revelação surpreendente

 

UM JULGAMENTO INJUSTO E UMA REVELAÇÃO SURPREENDENTE

 

“Absolver o ímpio e condenar o justo são coisas que o Senhor odeia” (Provérbios 17.15 NVI).  Não só ao Senhor, também aos seres humanos, a prática de um julgamento injusto causa indignação. Dói na alma humana que gosta da justiça ver uma pessoa claramente culpada ser solta. Pior ainda é quando um inocente é condenado injustamente. Um julgamento injusto é a antítese daquilo que chamamos de justiça. O texto de Lucas 22.66-71 fala do julgamento que condenou à morte um homem justo, mas no qual apareceu uma revelação surpreendente até mesmo para aqueles que o julgaram.

Nossa sociedade começa um novo dia à zero hora, que também indica o fim, à meia-noite. Na sociedade da época de Jesus, o dia começava com o pôr do sol. Jesus foi preso no início da sexta-feira, logo que a noite começou. Foi levado pela polícia do Sinédrio (a alta Corte dos judeus) para a casa de Caifás (sumo-sacerdote na época). Segundo o evangelista Marcos, houve um julgamento ilegal à noite (Marcos 14.55-64), a polícia do Sinédrio torturou Jesus depois (Lucas 22.63-65) e, quando amanheceu, foi feito o julgamento formal (Lucas 22.66-71) a fim de encaminhar Jesus ao governador romano Pilatos, único que podia determinar sua morte. O evangelista Lucas nos fala tão somente deste segundo julgamento de manhã: “Logo que amanheceu reuniu-se a assembleia dos líderes do povo, tanto os principais sacerdotes como os escribas. E o conduziram ao Sinédrio deles, onde lhe disseram: ‘Dize-nos se tu és o Cristo’. Ele respondeu: ‘Se eu disser, não crereis: e, se eu vos perguntar, não me respondereis’” (v. 66-68). Foi uma reunião oficial do Sinédrio. Ali estava a liderança político-religiosa que representava o povo de Israel: os homens mais respeitáveis e considerados santos de toda a nação. A decisão oficial de Israel sobre Jesus viria deles. Fizeram a Jesus a única pergunta que lhes interessava saber: “Dize-nos se tu és o Cristo”. Cristo é a versão grega para Messias. Não perguntaram a Jesus quantos milagres ele fez, quantas pregações fez ao povo, quantas vidas ele restaurou. Não. Só interessava a eles saber se era o Messias. Naquela época, Messias era um conceito político-religioso de um líder político com grande poder militar, pois seria um descendente do rei Davi, que iria tornar Israel livre do domínio romano e iria expandir o território até se tornar uma potência internacional. Este líder obrigaria os povos subjugados a adorar Yahweh, o Deus de Israel. Os religiosos do Sinédrio têm a absoluta certeza de que Jesus não é esta pessoa. Um fraco como Jesus que só anda com a ralé do povo não pode ser Messias, pensavam eles. Jesus respondeu assim: “Se eu disser, não crereis; e, se eu vos perguntar, não me respondereis”. Ele diz inicialmente que aquele julgamento é de cartas marcadas, porque eles estão impossibilitados de crer. Já endureceram seus corações. O que o Sinédrio quer é apenas um pretexto para o acusar. Mesmo que Jesus perguntasse a eles se achavam que ele era o Messias, eles não responderiam porque o desprezavam. Mas, ao dar esta resposta, indiretamente Jesus estava afirmando ser o Messias.

Mas a grande surpresa neste julgamento vem com esta declaração de Jesus que está no v. 69: “Mas, a partir de agora, o Filho do Homem estará assentado à direita do poder de Deus”. O único interesse do Sinédrio era saber se Jesus era o Messias. Jesus sempre usou a expressão “Filho do homem” para referir-se a si mesmo. Esta expressão não tinha conotações políticas. Porém, no v. 69, ele dá uma informação que vai muito além de qualquer coisa imaginada por todos os judeus. Ele afirma que a partir de agora, ele estará sentado à direita de Deus. Ou seja, ele se coloca ao lado da própria divindade. Estar à direita de uma autoridade significa ser seu conselheiro e a pessoa mais prezada por ela. Jesus se apresenta aos seus juízes como o único ser humano numa relação direta com Yahweh. Ele já tem esta posição e um dia todos os seus julgadores verão isto. Neste dia, o que será deles? Ou seja, Jesus se apresenta como muito, mas muito mais que um Messias: ele é o companheiro de Deus, seu conselheiro, o exaltado, o igual a Deus. E mais: quando ele diz “a partir de agora”, ele está dizendo que a cruz onde morrerá fará isto acontecer. O evento que parece ser a total derrota humana de Jesus será aquele que o engrandecerá acima de tudo e de todos.

Os principais sacerdotes e demais membros do Sinédrio não querem acreditar no que ouviram e fazem uma pergunta de confirmação a Jesus: “Então todos perguntaram: ‘Logo, tu és o Filho de Deus?’ E ele lhes respondeu: ‘Vós dizeis que eu sou’” (v. 70). A pergunta inicial era se Jesus é o Messias. Agora todos, sem excessão, espantados, perguntam se ele é o Filho de Deus. Eles entenderam muito bem o que Jesus falou. Para eles, Jesus passou do político (Messias) para o divino (Filho de Deus) quando disse que iria se assentar à direita de Yahweh. Para os líderes de Israel chamar Jesus de Messias era de uma loucura sem tamanho; agora, chamar Jesus de Filho de Deus era ir ao extremo da arrogância e da blasfêmia a que um ser humano desprezível podia chegar. Isto era intolerável. Eles tinham de tirar a dúvida sobre esta afirmação e fizeram a pergunta clara: “Tu és o Filho de Deus?”. A resposta de Jesus foi mais uma de suas respostas desconcertantes. Ao afirmar: “Vós dizeis que eu sou”, Jesus, ao mesmo tempo, afirmava que era como colocava a responsabilidade pela frase na conta deles. Ele tinha dito ser “o filho do homem”, eles diziam que ele era “o filho de Deus”. Mesmo naquela situação de muita tortura, a sabedoria e a verdade de Jesus brilhavam como o sol.

“Então disseram: ‘Para que precisamos ainda de testemunhas? Pois nós mesmos o ouvimos de sua própria boca’” (v. 71). Julgamento encerrado. Para os juízes do Sinédrio judaico, Jesus era culpado de blasfêmia e merecia a morte, conforme a lei de Moisés. Não havia nem necessidade de testemunhas arrumadas. Jesus era um escândalo ambulante: torturado, sangrando e afirmando ser igual a Yahweh. Finalmente, depois de mais de dois anos de hostilidades com este galileu, os principais líderes de Israel o levariam ao que tanto desejavam: sua morte. No entanto, a sentença só podia ser dada pelo governador romano. Era para lá que levariam Jesus imediatamente.

Jesus foi julgado injustamente. Todo ser humano tem direito a um julgamento justo, no qual ele não seja vítima de violência, nem antes e nem depois. Esta é a exigência que o julgamento de Jesus faz a qualquer sistema de justiça de qualquer nação.

Quem se tornar um discípulo de Jesus, segue alguém paradoxal: fraco, torturado e sangrando e afirmando ser o companheiro do próprio Deus. Como seu mestre, qualquer seguidor dele será paradoxal também: carrega sua própria cruz, sofre, geme e sangra enquanto faz o bem e ama os outros agora, para ver o Filho de Deus sentado à direita do Pai.

Conto: Bia e Mamom

 Conto: BIA E MAMOM

Whitson Ribeiro da Rocha

 

Bia dirigia apreensiva até o endereço que seu filho lhe havia passado. Pedrinho lhe dissera que tinha passado mal no jogo de futebol, quase desmaiou, mas que seu colega João o levou para a casa dele e que a mãe do João, que trabalhava num hospital, estava cuidando dele. Mas que já estava bem. Apreensiva pela saúde do filho e também pelo endereço, pois ficava num dos bairros mais pobre da cidade e também mal falado. Nunca tinha andado por aquele lugar e temia que alguma coisa de mal lhe acontecesse.

            Bia crescera em uma família rica. Tivera todas as facilidades que seus pais puderam lhe dar. Quando estudava administração numa universidade pública, conheceu o Roberto que estudava engenharia. Apaixonaram-se e se casaram. Roberto vinha de uma família de classe média e tinha lutado bastante para chegar naquela condição. Decidiram que iam viver por eles, sem a ajuda o pai dela, que queria dar tudo para eles. Quem bateu pé nesta decisão foi o Roberto. Ela aceitou. Os dois se empregaram bem: ela era secretária numa multinacional e ele, engenheiro numa grande empresa. A vida dos dois era muito boa e depois nasceu o Pedro que agora já contava com 13 anos.

            Bia gostava da sua vida. Dava muito valor ao que tinha. Um dia abriu seu guarda-roupa e contou 36 pares de sapato, 7 bolsas e um número grande de vestidos e outras roupas que nem se atreveu a contar. Tudo de marcas famosas no mercado. “Aqui tem uma pequena fortuna”, pensou ela, “mas preciso disso para trabalhar e viver”. Olhou a parte de Roberto e, mais uma vez, ficou decepcionada. Ele não dava valor para roupas e as comprava de marcas populares. O Roberto era desprovido deste sentimento de valor, qualquer coisa para ele estava bom. O pior é que o Pedrinho seguia no mesmo caminho do pai. O menino vestia qualquer coisa, se dava bem com todo mundo; ao invés de ir jogar bola na quadra do condomínio, onde era seguro, ia jogar com os amigos da igreja, num lugar que ela achava perigoso. Já tinha conversado com ele sobre o assunto, mas o menino era teimoso como o pai.

            Quando ainda namorava o Roberto, Bia passou a frequentar a igreja dele. Teve uma experiência pessoal com Jesus ali, se converteu e se batizou. Como era uma líder nata e tinha uma bela voz, depois de algum tempo passou a fazer parte do grupo de louvor. A igreja tinha cerca de 200 membros, ficava num bairro de classe média, mas havia muito subúrbio por perto e gente pobre também frequentava a igreja, como eles faziam regularmente.

            No domingo da semana em que foi socorrer seu filho, o pastor havia pregado sobre Deus e Mamom. Mamom era conhecido como o deus das riquezas e que era o deus das pessoas que colocavam sua fé no dinheiro que tinham e que passavam a vida toda lutando para ter sempre mais, sem considerar as pessoas à sua volta, num egoísmo crescente. Bia pensou que este não era o caso de sua família, pois todo domingo estavam na igreja e, no seu caso, cantando no louvor.

            Estava começando a anoitecer, quando, com muito medo de ser assaltada, estacionou o carro numa rua estreita em frente ao endereço que seu filho lhe dera. Quem abriu a porta foi o João, o amigo de futebol do Pedro. Entrou naquela casa, que consistia de uma cozinha com um quarto ao lado e um banheiro. Lá estava o Pedrinho sentado à mesa comendo um pedaço de pão com margarina, o João e o irmão menor. Quem a recebeu com um sorriso foi a Dalva, a mãe deles. “O seu filho levou uma bolada no estômago e teve vertigens”, disse Dalva, “Joãozinho trouxe ele para casa porque trabalho num hospital e o campo fica aqui perto; mas ele já está melhor”. Bia tinha uma vaga lembrança da Dalva na igreja. “Eu não vou muito na igreja por causa do meu serviço”, disse Dalva. Ela então contou que quando teve seu segundo filho, o marido sumiu com outra mulher. Então teve que se virar para sustentar os filhos. Conseguiu este emprego no hospital, mas a vida era muito difícil ainda. Mas dava graças a Deus porque, embora pobre, conseguia viver e educar os filhos. Participar da igreja era muito bom para eles e o pastor os ajudava.

            À noite, em sua cama, enquanto seu marido roncava ao lado, Bia não conseguia dormir. Pensava na Dalva e nas suas dificuldades. E pensou nela própria. Sempre tivera do bom e do melhor, acumulava coisas que raramente ia usar e dava muito valor para isto. Suas amigas eram pessoas iguais a ela. Nunca se preocupou com a sorte de pessoas como a Dalva. Cada um que trabalhasse e cuidasse de si, ela pensava. Uma ideia então lhe passou pela cabeça como um raio: será que ela, com seu estilo de vida, apesar de cantar no louvor todos os domingos, não estava servindo ao deus Mamom, o deus das riquezas, e se esquecendo de andar de uma forma menos consumista e mais ativa em ajudar as pessoas que precisavam? Ao pensar nisto, Bia chorou silenciosamente.

Lucas 22.63-65 A violência da polícia dos sacerdotes contra Jesus

 A VIOLÊNCIA DA POLÍCIA DOS SACERDOTES CONTRA JESUS

 

Os evangélicos no Brasil não gostam de mensagens de cunho social. Preferem as mensagens de cunho intimista, especialmente aquelas de autoajuda. Além da preferência, há outro motivo importante: os evangélicos foram ensinados a olhar a sociedade como o domínio do mal, no qual eles não devem se meter ou ajudar. Já que “o mundo jaz no maligno”, melhor ficar longe dele. Com esta atitude, eles se alienam dos graves problemas sociais. Tanto a Bíblia como a Reforma Protestante que gerou o atual movimento evangélico são contrários a esta atitude de alienação. O texto de Lucas 22.63-65 nos fala da violência policial (qualquer polícia) contra a pessoa de Jesus (qualquer pessoa).

Jesus foi preso no jardim do Gethsêmane pela polícia dos sacerdotes, a mando destes. Ele é amarrado e levado para a casa do sumo sacerdote Caifás. Antes de ser apresentado ao Sinédrio (grupo governante político-religioso de Israel), ele fica sob os cuidados da polícia deles. Neste momento, começa a se manifestar toda a bestialidade e violência da polícia contra Jesus. “Os homens que detinham Jesus zombavam dele e feriam-no” (v. 63). Os policiais começam a sessão de tortura zombando dele. Zombar significa humilhar, rebaixar o outro como ser humano, considerá-lo pior que um animal. Jesus, que tantas vezes foi elogiado, agora era alguém que não valia nada. Toda vez que alguém resolve ser violento contra uma pessoa, a primeira atitude no seu coração é considerar o outro como sub-humano. Já que o outro é um sub-humano, posso fazer com ele o que eu quiser. Nisto consiste a zombaria: o outro não é humano como nós, então está justificado bater nele. Este foi o primeiro tipo de violência contra Jesus aplicado pelos policiais: o rebaixamento de sua humanidade. Logo se seguiram os outros.

O segundo tipo foi a violência física. O texto diz que bateram muito nele, que o feriram. Ferir é atacar alguém a ponto de sair sangue, ou seja, bateram muito em Jesus com socos, pontapés e até pedaços de pau. Em toda sua vida, Jesus nunca apanhou de ninguém. Escapou algumas vezes de ser apedrejado, uma vez foi arrastado para um monte, mas ninguém nunca bateu nele. Agora apanha para valer. Você pode imaginar a cena? Jesus em pé e amarrado recebendo socos em seu rosto e corpo, o sangue escorrendo pelo nariz e pela boca, a dor que ele sentiu. De repente, Jesus cai ao chão pela força dos golpes, mas eles continuam batendo, dando socos e pontapés.

Mas eles o colocam de pé e passam para outro tipo de violência: “E, vendando-lhe os olhos, perguntavam, dizendo: ‘Profetiza, quem foi que te bateu?’ E, blasfemando, diziam muitas outras coisas contra ele” (v. 64-65). A sessão de tortura continua. Eles cobrem os olhos de Jesus com um pedaço de pano ou com um capuz e um deles dá um forte soco ou tapa no rosto dele. Quando alguém vê que outra pessoa vai lhe golpear, prepara-se para receber o golpe. Mas se está de olhos vendados, não tem como se preparar e aí a dor é muito mais forte. Após um deles dar o golpe, de forma cínica, eles perguntam para Jesus: “Já que você é um profeta, adivinhe quem de nós lhe bateu”. Faziam isto porque Jesus tinha a fama de ser um profeta de Deus. Veja a diferença de tratamento quando, em conversa com ele, a mulher samaritana diz em determinado momento: “Senhor, vejo que és profeta” (João 4.19). Naquela ocasião, uma mulher do povo acusada de ser imoral, trata Jesus com o máximo respeito e o reconhece como um enviado de Deus. Aqui, aqueles homens da polícia usam este título para humilhar, ferir e desmerecer Jesus.

Começou um outro tipo de tortura: a psicológica. Os que batiam agora começavam a blasfemar dele, ou seja, dizer mentiras para rebaixá-lo em seu autoconceito. A violência psicológica fere tanto como a física e produz efeitos nocivos mais duradouro na vida de uma pessoa. Mulheres que sofrem este tipo de violência por parte de seus maridos ou companheiros desenvolvem uma autoestima muito baixa. O casamento vira um inferno e, em muitos casos, o divórcio torna-se uma libertação para a mulher.

A quais conclusões este texto nos ensina? Acerca de Jesus podemos dizer que ele apanhou muito da polícia dos sacerdotes. Também foi agredido de forma psicológica. Ele foi tratado como uma pessoa sem valor algum, da qual os homens poderiam fazer qualquer coisa. Começava a se cumprir Isaías 53.3 “Era desprezado e rejeitado dos homens; homem de dores e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado e não fizemos dele caso algum”. Acerca de nós, há dois ensinos importantes. O primeiro diz respeito à polícia. Foi a polícia dos sacerdotes que bateu em Jesus, só para se divertir. Não é correto que a polícia, após ter dominado um suspeito, bata nele e o machuque. Não se pode tolerar que a polícia leve alguém que já está sob os seus cuidados para um beco escuro e execute-o, forjando depois que houve um tiroteio. Não é aceitável que a polícia entre em confronto com bandidos numa situação em que há pessoas do povo, inclusive crianças, na linha de tiro. A polícia deve usar da violência quando é confrontada por bandidos ou suspeitos. Mas, tendo a situação dominada, o seu dever é entregar a pessoa íntegra à justiça. Assim como não gostamos do fato de que a polícia da época bateu pesado em Jesus sem necessidade alguma, assim também não desejamos que a polícia bata em ninguém que já esteja sob seu controle hoje. O segundo ensino é que Jesus apanhou por nossa causa. Ele enfrentou a violência humana injusta por nós. Recebeu cada soco, tapa, chute ou batida porque nos amou. Seu sangue começou a correr bem antes da cruz. Seu sofrimento foi vicário.

Lucas 22.54-62 Nós somos Pedro na tentação

 

NÓS SOMOS PEDRO NA TENTAÇÃO

 

O ser humano gosta de apontar o dedo para os erros dos outros, mas não percebe que, ao fazer isto, está se condenando a si próprio. Isto porque cada um age de forma idêntica e a única coisa que muda é o nome do erro e olhe lá se não é o mesmo. O texto bíblico da negação de Pedro é muito conhecido para quem lê a Bíblia. Reprova-se veementemente a atitude dele. As pessoas pensam: “Se fosse eu no lugar do Pedro, jamais teria negado Jesus”. Será? Veja esta narrativa em Lucas 22.54-62 e os ensinos dela para nós hoje.

A polícia dos sacerdotes prende Jesus, apesar de sua fala perguntando por qual motivo estava sendo preso. “Então prendendo-o, o levaram e o introduziram na casa do sumo sacerdote; e Pedro seguia-o de longe” (v. 54). Era noite e levaram Jesus para a casa do sumo sacerdote. Não levaram Jesus para uma prisão a fim de ser julgado durante o dia como determinava a regra. O Sinédrio (grupo de 70 homens judeus que governavam o povo de Israel na ocupação romana) ia se reunir ilegalmente à noite com o propósito de condenar Jesus à morte. A casa do sumo sacerdote Caifás era grande, um palácio para a época, e tinha um pátio onde se juntara algumas pessoas sob o comando dos sacerdotes e com curiosidade para ver o resultado daquele julgamento noturno. Pedro conseguiu acesso àquela área. Pedro já não se lembrava mais de um diálogo entre ele e Jesus que aconteceu algumas horas antes: “(Disse Jesus) ‘Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos’. Respondeu-lhe Pedro: ‘Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte’. Tornou-lhe Jesus: ‘Digo-te Pedro que não cantará hoje o galo antes que três vezes tenhas negado que me conheces’” (Lucas 22.31-34). Sim, Pedro era o único corajoso dentre os onze para ver o que aconteceria com seu mestre. Mas estava morrendo de medo com a possibilidade de ser reconhecido e preso naquele lugar,

“E tendo eles acendido uma fogueira no meio do pátio e havendo-se sentado à roda, sentou-se Pedro entre eles” (v. 55). Fazia frio naquela noite e fizeram uma fogueira para se aquecer. Todos se sentaram em volta da fogueira e Pedro também se sentou como se fosse um deles. Ele não conhecia ninguém ali e era um alívio ser anônimo. “Uma criada, vendo-o sentado ao lume, fixou os olhos nele e disse: ‘Esse também estava com ele’. Mas Pedro o negou dizendo: ‘Não o conheço, mulher’” (v. 56-57). Na medida em que a jovem criada se assenta na fogueira e olha bem para Pedro através da luz da fogueira, logo o identifica e faz a denúncia de que Pedro era um que estava com Jesus. Pedro nega dizendo que nunca conheceu este tal Jesus. O que era honra, agora era vergonha. Perceba o tom machista e de desprezo pela criada quando Pedro usa o vocativo “mulher” no final da frase. É como se ele dissesse: “Você é uma desqualificada, primeiro por ser mulher, e segundo por ser criada, para fazer esta acusação mentirosa a meu respeito”. “Daí a pouco, outro o viu e disse: ‘Tu também és um deles’. Mas Pedro disse: ‘Homem, não sou’” (v. 58). Logo em seguida, um homem ficava afirmando que Pedro era um deles, do grupo que seguia de perto Jesus. No mesmo tom, mas agora mais respeitoso, porque era um homem, o Pedro diz que nunca participou do grupo de discípulos de Jesus. “E tendo passado quase uma hora, outro afirmava dizendo: ‘Certamente este também estava com ele, pois é galileu’. Mas Pedro respondeu: ‘Homem, não sei o que dizes’. E imediatamente, estando ele ainda a falar, cantou o galo” (v. 59-60). Durante uma hora, Pedro pode se aquecer em paz. Mas novamente a situação azedou para ele, pois um outro homem se encarnou nele. Esta pessoa afirmava insistentemente que Pedro era de Jesus e deu um motivo forte: Pedro era galileu. Todos ali sabiam que Jesus era da Galiléia (região norte de Israel), a grande maioria de seus seguidores vinha de lá e dava para perceber pelo sotaque, gestos e roupas que Pedro era galileu também. Pela terceira vez, Pedro nega a acusação dizendo que ele não sabia do que o homem falava. Enquanto ele respondia, o galo cantou bem forte.

Mas outro acontecimento marcaria profundamente os sentimentos de Pedro. Somente o evangelista Lucas narra este acontecimento ocorrido na casa de Caifás. “Virando-se o Senhor, olhou para Pedro; e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: ‘Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás’. E, havendo saído, chorou amargamente” (v. 61-62). De dentro da casa, Jesus amarrado virou-se e seu olhar encontrou o olhar de Pedro exatamente na hora em que o galo cantou. Você pode imaginar a intensidade daquela troca de olhares? O olhar de Jesus penetrou o interior de Pedro. O olhar de Jesus nos desvenda, revela, nos encontra. Não foi e nem é um olhar de condenação e reprovação, antes um de empatia, cheio de compaixão. O olhar de Jesus trouxe à mente de Pedro a profecia sobre a negação. Por que Jesus fez a profecia acerca da negação de Pedro com antecedência? Creio que dois motivos básicos: o primeiro era quebrar o orgulho de Pedro, pois se considerava o máximo no discipulado e Jesus queria mostrar que ele era tão fraco como os outros e precisava depender de seu Mestre para que sua fé permanecesse viva. A segunda razão foi dar suporte a Pedro para que continuasse no discipulado com a seguinte exclamação: “Ah! Ele já sabia que eu o negaria. Este acontecimento não foi novidade para ele, portanto vou continuar; ele orou por mim”. Quando os olhares se cruzaram e a lembrança da profecia veio à tona, aí foi demais para Pedro. Saiu rapidamente daquele lugar e teve uma reação de dor interior insuportável: chorou amargamente. Naquele choro estava tudo o que era dor misturado com sua impotência, pecado e amargura de alma.

Nós somos idênticos a Pedro em sua negação. Temos a tendência exagerada de nos achar ótimos discípulos do Senhor. Sempre que pensamos em nós como crentes fíéis pensamos em nossas qualidades e, se enxergamos algum defeito, arrumamos uma desculpa. Mas o olhar de Jesus sempre nos atravessa. É um olhar incômodo para nós, porque nos desnuda e revela nossa fraqueza interior; ao mesmo tempo, seu olhar é tão confortador e cheio de compaixão que faz com que possamos assumir nossa fraqueza e simplesmente continuar seguindo-o, sabendo que ele nos levará à maturidade. Como ele fez com Pedro, fará com cada um de nós. Ele continua rogando por nós para que nossa fé não desfaleça. Bendito Jesus!

Lucas 22.49-53 Jesus dá a outra face

 JESUS DÁ A OUTRA FACE

 

Um dos ensinos mais incompreensíveis de Jesus é quando ele disse que quando alguém batesse em sua face do rosto, você deveria dar a outra. Numa interpretação literal, parece que Jesus incentiva a violência do opressor e a subserviência do oprimido. Quando se examina melhor o texto e seu contexto, o ensino de Jesus vai no sentido de que o cristão deve ser um ativo praticante do bem como forma de vencer o mal. Ele não responde ao mal com o mal ou a vingança. Ele responde com o bem. Jesus viveu este ensino no texto de Lucas 22.49-53, o qual fala de sua prisão.

Uma multidão fora designada pelos principais sacerdotes dos judeus para prender Jesus. Combinados com Judas Iscariotes, eles se dirigem até Jesus de noite. Lá estão os apóstolos. “Quando os que estavam com ele viram o que ia suceder, disseram: ‘Senhor, feri-los-emos à espada?’” (v. 49). Os apóstolos viram a chegada da multidão armada. Com grande surpresa, viram Judas beijar Jesus. Perceberam que se tratava de uma prisão, só não sabiam se era de Jesus ou de todos eles. Diferentemente de Judas, eles se colocaram em defesa de seu mestre. Eles estavam em número menor, tinham tão somente duas espadas que tinham pego na casa onde celebraram a Ceia (v. 37-38) e eram amadores no manuseio delas. Em desvantagem no número de pessoas e armas, eles perguntam a Jesus se devem atacar a multidão. Eles pensam com a lógica bélica, da luta, do confronto.

Naquela tensão de confronto entre os dois grupos, imediatamente ocorre uma insensatez que poderia gerar um massacre: “Então um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita” (v. 50). Um deles não teve nem mesmo a paciência de esperar a resposta de Jesus. Saca de sua espada e dá na cabeça de alguém do grupo inimigo.  Este alguém era o principal escravo do sumo sacerdote, aquele que administrava sua casa. O apóstolo usa a espada para matar, mas por inabilidade, a espada corta a orelha direita. Naquele confronto que facilmente poderia se tornar um massacre, quem inicia a briga é o grupo de Jesus. Uma das mais perturbadoras situações do mundo atual é que vários países têm bombas nucleares que facilmente poderiam matar cidades inteiras. No século XX, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram varridas do mapa com cerca de 110 mil mortos na hora, fora os demais que morreram posteriormente aos seus efeitos. Hoje há milhares de bombas nucleares que são muito mais destruidoras do que aquelas lançadas nas cidades japonesas. Basta que um líder insano, com medo de perder o poder, acione uma só bomba nuclear para que a destruição do planeta ocorra. E líderes insanos não faltam neste mundo, tal como aconteceu com aquele apóstolo de Jesus que saca sua arma.

Quando a situação corria para um confronto sangrento, Jesus dá a outra face aos que vieram prendê-lo. E ele vai dar a outra face por duas atitudes diferentes. A primeira está no v. 51: “Mas Jesus disse: ‘Deixai-os; basta’. E tocando-lhe a orelha, o curou”. Jesus ordena aos seus apóstolos que eles permitam tudo o que a multidão quiser fazer. O ataque com a espada daquele apóstolo específico deveria parar imediatamente. Com esta atitude, Jesus evitava um banho de sangue que poderia ocorrer e, ao mesmo tempo, entregava-se pacificamente aos que vieram prendê-lo. Em Mateus 5.39, Jesus ensinou o seguinte: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. Na sua prisão, Jesus cumpre este ensinamento. Ele não permite o confronto que seria a seu favor e, ao mesmo tempo, usa seu poder para curar a orelha decepada daquele que era o administrador do sumo sacerdote e estava ali justamente para prendê-lo. A multidão lhe faz o mal, Jesus responde com o bem. Este gesto de Jesus é tão chocante e tão fora do comum que marcou a vida de todos que ali estiveram como um grande susto do bem. Todos ficaram paralisados e pasmados, vendo Jesus efetuar a cura. Ao curar, Jesus vê face a face aquele servo, olho no olho. Você pode imaginar o olhar que os dois trocaram? A cena é tão marcante que o evangelho de João chega a dar o nome do servo (João 18.10). Estes evangelhos foram escritos 30-50 depois destes eventos. Para o evangelista João dar o nome dele, é porque ele ficou conhecido na comunidade cristã. Teria ele se convertido posteriormente a partir deste acontecimento? Teria sido uma testemunha do amor de Jesus? Não sabemos, mas, ao dar a outra face, Jesus mostra que, na maldade geral, o amor triunfa através de atitudes simples de fazer o bem. E você, está disposto a fazer o bem de forma amorosa a quem lhe pratica o mal?

A segunda maneira de Jesus dar a outra face parece ser oposta à primeira, mas não é. “Então disse Jesus aos principais sacerdotes, oficiais do templo e anciãos que tinham ido contra ele: ‘Saístes como a um ladrão com espadas e paus? Todos os dias estava eu convosco no templo e não estendestes as mãos contra mim. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas’” (v. 52-53). Se na primeira fala, Jesus dá a outra face retribuindo ao mal com o bem, nesta segunda fala, ele reivindica a justiça para seu caso! A justiça lhe será negada, mas nem por isto ele deixa de exigir que ela se cumpra. Na multidão, havia o pessoal braçal que prenderia Jesus e estaria na linha de frente caso acontecesse alguma briga. Também estavam ali, autoridades que supervisionavam toda a operação de prisão. Jesus fala com este segundo grupo: principais sacerdotes, oficiais do templo e anciãos, ou seja, com quem mandava. Diz a esta gente importante que eles o estão tratando como se ele fosse um ladrão, logo ele que nunca pegou nada de ninguém, pelo contrário só doou de si para os outros; vão a ele com armas de guerra, logo ele que era o mais pacífico dos homens. Diz a eles que estava todos os dias no templo de Jerusalém, à vista de todo mundo, e não quiseram prendê-lo ali (Jesus sabia que não o prenderam quando estava no templo porque tinham medo do povo que gostava dele). Mas, naquela noite, Jesus estava apenas com onze homens em um lugar ermo. Jesus então diz que esta é a hora e a autoridade das trevas. O fato de Jesus ser preso era a demonstração clara de que o mal estava vencendo e a injustiça começava a ser feita. Um homem inocente começava um calvário de prisão, tortura e morte; toda esta armação foi perpetrada por autoridades que se consideravam santas e puras. Quando qualquer injustiça acontece, é a hora e autoridade das trevas!

Em sua prisão, Jesus ofereceu a outra face. Primeiro, ele retribuiu o mal que lhe faziam com o bem, ao curar o homem atacado e evitar derramamento de sangue. Em segundo lugar, ele reivindica a prática da justiça, mesmo sabendo que isto não acontecerá no seu caso. Parece-me que os cristãos hoje em dia não seguem nenhuma das atitudes do seu mestre. Quando atacados com o mal, dão o troco com mais maldade ainda. E se a autoridade que pratica a injustiça é do seu próprio grupo ou “queridinho” deles, fazem vistas grossas, concordam com ele e ainda espalham mentiras. Quem é de Jesus, ouve sua palavra, obedece seus mandamentos e segue seu exemplo. O ensino expresso pela sua vida é: retribua com o bem a quem lhe faz o mal e lute para que a justiça prevaleça em todos os casos.

Lucas 22.47-48 O beijo de Judas

 O BEIJO DE JUDAS

 

O beijo é um sinal universal de amor. Se eu encosto uma parte do meu corpo no corpo de outra pessoa, isto geralmente não tem sentido nenhum. Quando eu era jovem, morando na cidade de São Paulo, pegava ônibus que iam superlotados. Eu ia amassado por todos os lados, mas isto não me ligava sentimentalmente a ninguém ali. O simples toque de lábios em um rosto tem um significado sentimental enorme. O beijo expressa amor, cuidado, carinho, amizade, solidariedade; todos sentimentos bons. E quando o beijo é usado para o mal? É esta situação inusitada que temos no texto de Lucas 22.47-48 entre Jesus e um discípulo dele, por nome Judas.

Jesus tinha acabado de celebrar a ceia com seus apóstolos, dera instruções a eles e foi orar no Monte das Oliveiras. Judas participou de parte da ceia e saiu exatamente para entregar Jesus aos chefes dos sacerdotes, com os quais já havia acertado isto. “Enquanto ele ainda falava, veio uma multidão, e aquele que era conhecido como Judas, um dos doze, vinha na frente deles e aproximou-se de Jesus para o beijar” (v. 47). Jesus ainda conversava com seus apóstolos, após a oração no Gethsêmani, quando eles veem uma multidão se aproximando. Eles eram em doze, logo a multidão deveria ter por volta de umas quarenta pessoas. Esta multidão era formada por guardas do templo e pessoas que queriam ajudar a prender um homem. Ela vinha com tochas, espadas e cassetetes de pau, caso encontrassem resistência. Por incrível que pareça aos apóstolos, mas não a Jesus, quem vem liderando a multidão é Judas Iscariotes. Ele agora estava no lado contrário, no lado dos inimigos de Jesus. Imagine o assombro dos demais apóstolos ao ver Judas liderando a turba. Imagine a vergonha de Judas tendo de contemplar Jesus e seus companheiros de apostolado por cerca de três anos. A cena toda é muito dramática e se tornará mais tensa ainda. Judas, ao guiar a multidão, torna-se o líder da turba. Agora era o encontro entre ele, o líder dos guardas, e Jesus, o líder dos apóstolos. A traição estava bem decidida em seu coração. Agora ele se vingava do fato de que seu mestre nunca se tornara o Messias político-militar que libertaria Israel e ganhava uma alta soma em dinheiro que os sacerdotes lhe deram. A vida dele estava feita com aquele dinheiro e seu futuro garantido. Mas a que preço?

Se Judas vai trair Jesus, qual o sinal que ele usará para identificá-lo? É noite, a iluminação de tochas é insuficiente e a multidão que vai prender não conhece Jesus. Qual sinal Judas poderia usar para identificar Jesus para os guardas? Ele poderia indicar com o dedo, amaldiçoar ou mesmo bater em Jesus. Mas o sinal escolhido por Judas é o beijo. Justo o beijo! O beijo é uma ação que demonstra amor, amizade, carinho, querer bem. Judas beijar Jesus naquele momento confunde os sentimentos. O beijo aqui é sinal de traição, ressentimento, desprezo, ódio. Quando Judas vai beijar Jesus, eles ficam cara a cara. Que olhar houve entre os dois? Ou Judas desviou o olhar? Pensemos em nós: quando o beijo em Jesus troca de função, pois ao invés de demonstrar amor, demonstra traição? Toda vez que, em nome dele, eu praticar o mal! Toda vez que, em nome de Jesus, eu maltratar um gay ou uma pessoa trans, eu bater e maltratar minha mulher porque ela tem de ser submissa, eu diminuir alguém porque esta pessoa não pertence ao meu grupo religioso, eu enganar meu chefe ou meu empregado para tirar vantagens pessoais, enfim, toda vez que estabeleço relacionamentos pecaminosos e maus.

 Após ser beijado por Judas Iscariotes, Jesus vai ensinar seu discípulo pela última vez com muita serenidade. Sim, o tempo todo Jesus sabia que Judas iria traí-lo, mas o tratou como discípulo amado sempre. A previsível traição não mudou o amor que Jesus tinha por ele. Jesus Cristo ama seus inimigos, inclusive os traidores! “Jesus, porém, lhe disse: ‘Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?’” (v. 48). A resposta de Jesus ao beijo do traidor é uma pergunta. Várias vezes, ele usava este recurso da pergunta, obrigando seu interlocutor a pensar no que estava fazendo ou dizendo. Jesus fazia uso do mesmo método adotado pelo filósofo Sócrates em seus diálogos. Jesus começa a pergunta citando o nome dele: Judas. Ao citar o nome, Jesus mostra que ele é o responsável único pela traição e, ao mesmo tempo, expressa amor por ele. Ao perguntar pelo sinal da traição, que foi um beijo, Jesus o questiona do porquê usar um sinal do amor para a prática de uma maldade tão abjeta. A intenção era uma, o sinal era o contrário da intenção. Judas tinha se voltado contra aquele que era o Filho do Homem, o Salvador, o Messias. Judas não sabia, mas ao entregar Jesus se tornaria mundialmente conhecido como o protótipo do traidor. Traiu aquele que lhe deu o apostolado, o poder para curar enfermos e expulsar demônios, a distinção entre os seguidores e o amor e o carinho com que sempre o tratou.

Esta pergunta de Jesus a Judas tem o seguinte teor: “Judas, por que você não assumiu sua descrença em relação a mim e não foi embora do meu grupo de seguidores? Por que preferiu ser hipócrita e fazer de conta que me respeitava e me amava?”. Hoje em dia, irmãos, há muitos cristãos que parecem estar seguindo Jesus e fazem cara de piedade, mas o coração deles expressa que já não creem mais em Jesus, estão totalmente incrédulos em relação ao Mestre. Mas permanecem com a pose de cristãos porque eles conseguem vantagens nisso: pode ser o poder numa comunidade ou estrutura eclesiástica, pode ser dinheiro, pode ser conquistas amorosas, pode ser o controle de outras pessoas ou pode ser a compensação de pecados graves. A estes, Jesus estaria dizendo, como disse a Judas: “Por que você não me abandona de vez e segue seu caminho? Deixa este discurso vazio de discípulo falso e vai viver como quiser!” Nestes casos, o abandono deste falso cristianismo seria honesto. Ou alguém, no final de sua existência, gostaria de ouvir Jesus a lhe dizer: “Fulano, com tantos beijos você me traiu a vida inteira?” Não seja você um traidor. Se é para seguir a Jesus, siga-o de todo o seu coração, sem segundas intenções.

Lucas 22.41-44 A mais importante oração da história da humanidade

 A MAIS IMPORTANTE ORAÇÃO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

 

Orações são diálogos ou rezas com a divindade ou com alguém por ela autorizada. Embora não exista qualquer resposta perceptível no momento, o fiel que ora acredita que a divindade está ouvindo o que ele diz. De todas as infinitas orações feitas pelos seres humanos, aquela que se encontra registrada em Lucas 22.41-44 é a mais importante em toda a história da humanidade. E isto por dois motivos: quem a faz e a implicação dela para o destino da própria humanidade e do Universo.

“E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e pondo-se de joelhos, orava ... Então lhe apareceu um anjo do céu que o confortava. E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que caiam sobre o chão” (v. 41,43,44). Jesus está na mais completa angústia e agonia. Algumas indicações do texto demonstram isto. Em primeiro lugar, ele se afastou dos seus por cerca de 50 metros para orar, pois queria ficar sozinho. Normalmente, o judeu daquela época orava em pé e com a cabeça voltada para o céu. Jesus se ajoelha e esta posição indica uma submissão e total dependência daquele a quem vai se pedir alguma coisa. Ajoelhar-se era próprio das pessoas que se humilhavam diante daquelas que poderiam lhes prestar um grande favor. Jesus se humilha perante seu Pai porque vai lhe rogar o mais importante pedido de sua vida. Em segundo lugar, um anjo veio para confortá-lo. Esta é a única vez nos evangelhos na qual um anjo o conforta. Na tentação no deserto, os anjos o serviam (Marcos 1.13). Mas aqui um anjo precisa lhe ajudar para que ele tenha forças espirituais para enfrentar a situação que se aproximava. Jesus estava fragilizado. Em terceiro lugar, ele estava “em agonia” e orava mais intensamente. Isto demonstra um espírito inquieto e imerso em angústia. Leitor, você já teve estes sentimentos em uma situação difícil na sua vida? Prostração, inquietação, agonia, angústia, medo que o fazia suar frio, terror só em pensar no que poderia acontecer? Se teve, você está chegando perto do que Jesus estava passando. Mas só perto, porque em quarto lugar, seu suor se transformou em grandes gotas de sangue. Segundo a medicina, isto só ocorre quando o nível de tensão de uma pessoa é tão absurdamente grande, que as veias de seu rosto se rompem e, junto com a água, sai sangue. Jesus está a ponto de explodir internamente como ser humano. Ele está no limite da própria morte. O evangelista Mateus, falando sobre este momento, anota as seguintes palavras de Jesus: “A minha alma está triste até a morte” (26.38). Jesus estava no limite da morte interior. Nenhum ser humano chegou neste lugar!

Mas, por que ele chegou neste nível de vida? Para desvendar a razão de tão grande sofrimento, é necessário entender a oração do v. 42: “Pai, se queres afasta de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua”. No momento mais decisivo da tentação dele, ali estava o Pai.  Este nunca lhe faltou como ternura, ajuda, referência e autoridade. Jesus ora ao Pai porque este vai definir as escolhas de sua vida. Mas esta relação com o Pai, aqui, não é harmônica. Aqui é conflituosa em termos de vontades. A dele é uma, a do Pai é outra. Ele suplica o impossível ao Pai: não beber de um determinado cálice. A palavra cálice significa taça, copo para beber vinho. O vinho é bebido para o prazer. Mas este cálice é do mais terrível sofrimento, um cálice amargo como fel ou chá de mastruz. Lemos sobre este cálice no Antigo Testamento quando ele é direcionado ao povo de Israel e aos ímpios na rebeldia deles: “Desperta, desperta, levanta-te, ó Jerusalém, que bebeste da mão do Senhor o cálice do seu furor; que bebeste da taça de atordoamento e a esgotaste” (Isaías 51.17) e também “Sobre os ímpios fará chover brasas de fogo e enxofre; um vento abrasador será a porção do seu cálice” (Salmo 11.6). Este cálice está cheio da ira e do furor de Deus contra os pecados humanos. E por que a vontade de Jesus é que o Pai retire este cálice de suas mãos? É porque ele terá de bebê-lo integralmente na cruz. Jesus, que é o Santo, na cruz, terá de receber em si mesmo todo o pecado da humanidade em todos os tempos, tornando-se pecado: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores ... Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades” (Isaías 53.4,5) e “Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós” (2ª Coríntios 5.21). Jesus, que é o Filho Amado de seu Pai: “Este é o meu filho amado” (Mateus 3.17) e “O Pai ama o Filho” (João 3.35), terá, na cruz, de receber dele sua ira e seu furor na mais intensa forma: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27.46). Você, leitor, consegue perceber o que está em jogo nesta simples oração de Jesus a seu Pai?

 Mas, observe com atenção a oração. Jesus não pede que sua vontade seja feita e a do Pai colocada de lado. Não! Ele diz: “Pai, se queres ...”. Quem ia decidir era o Pai na vontade dele. “Se queres” significa que ele já sabe a resposta. O Pai não quer afastar o cálice dele; o Pai quer que ele o beba integralmente. E Jesus aceita a eterna decisão de seu Pai: “não se faça a minha vontade, mas a tua”. Desde o início tudo estava acertado, mas Jesus precisava desabafar sua dor e angústia perante aquele que o conforta, ajuda e determina. Definido: o Pai quer e Jesus aceita beber o cálice do seu sofrimento. Feliz é a humanidade que será salva como resultado desta oração.

O que a mais importante oração da história e, ao mesmo tempo, a mais simples, nos ensina? Em primeiro lugar: Jesus e seu Pai entraram em uma aliança para salvar a humanidade e trazê-la para a comunhão deles. O preço para conseguir isto foi absurdamente caro, mas eles o pagaram. Glória, honra e louvor a Jesus e seu Pai por tão grande graça! Em segundo lugar, toda a angústia e dor do crente deve ser apresentada a seu Pai. A oração sincera muda nosso ânimo. Em terceiro lugar, a vontade do Pai sempre prevalecerá e ela será para nosso bem. Aceite a realidade e, ao mesmo tempo, busque melhorá-la. “Não a minha vontade, mas a tua aconteça”.

Lucas 22.39-40,45-46 A oração vence a tentação

 A ORAÇÃO VENCE A TENTAÇÃO

 

Todos nós passamos por situações aflitivas na vida quando temos de tomar determinadas decisões. Muitas vezes são decisões custosas que terão um impacto muito grande e não sabemos o que realmente devemos escolher. Outras vezes somos tentados a cometer determinado ato que sabemos ser errado, mas que pode nos ajudar a sair de uma situação difícil. Ainda outras vezes, sabemos que a decisão certa vai nos custar muito caro e tentamos subterfúgios para fugir dela. É com estes dilemas que Jesus estava no texto de Lucas 22.39-40,45-46. Vamos ver como ele saiu desta situação.

Jesus tinha acabado de celebrar a Páscoa e a Ceia numa confortável casa com seus apóstolos. Seguia agora a passos firmes e decididos para um monte rústico. Mas seu coração ia pesaroso e aflito porque estava diante da maior de todas as decisões de sua vida e a tentação por escolher o caminho fácil era muito forte. “Então saiu e, segundo o seu costume, foi para o Monte das Oliveiras; e os discípulos o seguiram” (v. 39). Jesus sabe que há um destino traçado para ele, ao mesmo tempo, ele saiu de onde estava em direção ao monte porque era protagonista do seu destino. Jesus gostava de estar no Monte das Oliveiras. Era o lugar onde passava a noite, junto com outros peregrinos pobres que iam a Jerusalém. Ele quer a paz deste lugar para a batalha que vai enfrentar. Com ele, estão seus onze apóstolos: testemunhas e participantes (nem tanto) daquele momento.

“Quando chegou àquele lugar, disse-lhes: ‘Orai, para que não entreis em tentação’” (v. 40). Eles chegam em um lugar alto e Jesus lhes dá uma ordem: orai. No momento mais decisivo de sua vida, Jesus vai orar e pede a seus amigos que orem por ele. Oração aqui não é um ritual ou uma mandinga, que vá garantir sucesso a quem pede. Oração é comunhão com o Pai, abrindo o coração para ele e recebendo sua atenção e carinho. Esta maneira de entender a oração evita que entremos no ambiente da tentação. Jesus ensina que a força para vencer a tentação vem da comunhão real com Deus.

Vamos deixar a oração que Jesus fez a seu Pai para um outro momento (v. 41-44) e vamos analisar a reação dos discípulos neste momento crucial da vida de Jesus.  “Depois, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos e achou-os dormindo de tristeza” (v. 45). Jesus estava orando de joelhos, afastado do grupo de discípulos. Terminada a oração, ele vai agir. A oração não é um fim em si mesma, divorciada do resto da vida. Ela dá consequência a uma forma de viver. Se não for assim, acontecem coisas absurdas como a dos inquisidores que oravam antes de torturar suas vítimas ou a de uma alta patente do Exército, na época da ditadura militar, que saia de um culto evangélico e ia torturar os presos políticos, ou ainda de um grupo de bandidos nos morros cariocas que oravam pedindo proteção para os roubos e sequestros que iam cometer ou de um parlamentar que orou com seus amigos agradecendo a propina que acabava de receber. Todos estes, ao orar, cumpriram um ritual religioso que nada tinha a ver com a vida real deles. Jesus é diferente. Ele ora pedindo a vontade do Pai e levanta-se da oração para fazer esta vontade.

Mas, ao chegar perto dos discípulos, encontra-os dormindo de tristeza. Eles estavam fisicamente cansados, pois a semana fora bastante agitada. Mas também estavam tristes e angustiados porque Jesus falou muito em sua morte e eles esperavam que ele fosse coroado rei dos judeus em Jerusalém. A tristeza dominava a vida deles naquele momento difícil. Para resolver a tristeza, eles encontraram seu refúgio no sono. Isto é próprio do ser humano. Pessoas que estão angustiadas e tristes buscam refúgio em dormir, trabalhar muito, comer demais, não comer nada, consumir álcool ou drogas, etc. A que você recorre quando a tristeza domina seu coração? Jesus recorria à comunhão sincera com o Pai em oração!

Ao se aproximar dos discípulos, Jesus os acorda: “E disse-lhes: ‘Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai para que não entreis em tentação” (v. 46). Jesus sempre nos acorda para a vida. Estes falsos refúgios que criamos para nossa existência são derrubados por Jesus que faz, da vida verdadeira, uma aventura e uma batalha pela qual vale a pena lutar. A proposta dele, repetindo o v. 40, é que você se levante para a vida e busque a comunhão sincera com Deus para vencer seus medos, angústias e tristezas. Você sempre terá estas coisas em sua vida, mas elas serão positivas se forem apresentadas a Deus em oração e você tiver o firme propósito de se levantar e viver de forma adequada com a oração que fez.

Não lhe parece estranho que, na hora mais difícil e decisiva de sua vida, Jesus recorra a algo tão simples como orar? Ele poderia ter-se reunido com homens importantes ou mesmo os discípulos para examinar qual estratégia deveria usar para enfrentar os líderes judeus que queriam matá-lo ou poderia movimentar o povo que o seguia com uma mensagem pedindo que este mesmo povo o defendesse. Não fez nada disto. Simplesmente, foi orar! Quem decidia sua vida era seu Pai celestial. A oração, que parece ser algo tão fraco, é a mais potente força do Universo para a implementação do bem, da justiça e do amor na existência humana. É na oração e na ação consequente que o Reino de Deus vem a nós.